Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
O delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda, frequentemente subdiagnosticada, que acomete uma parcela expressiva dos pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), especialmente aqueles em ventilação mecânica. Sua ocorrência está associada a maiores taxas de mortalidade, tempo prolongado de internação e pior prognóstico funcional e cognitivo.
Esta é a Versão 2.0 desta aula. A atualização incorpora as recomendações do Focused Update de 2025 às diretrizes PADIS (Pain, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption) da Society of Critical Care Medicine (LEWIS et al., 2025), que revisou cinco questões específicas de manejo em pacientes críticos.
O delirium resulta de uma disfunção cerebral aguda multifatorial, envolvendo desequilíbrios de neurotransmissores (como dopamina e acetilcolina), inflamação sistêmica, hipóxia e distúrbios metabólicos. Clinicamente, é classificado em três formas:
Box Didático — Por que evitar benzodiazepínicos?
Benzodiazepínicos são consistentemente associados a maior incidência e duração de delirium em pacientes críticos, além de sedação mais profunda e prolongada. Essa é uma das razões pelas quais a escolha do sedativo — e não apenas o tratamento do delirium já instalado — é parte central da prevenção.
A identificação do delirium deve ser sistemática. A ferramenta validada mais utilizada é o Confusion Assessment Method for the ICU (CAM-ICU) (ELY et al., 2001), baseada nos seguintes critérios:
O diagnóstico é confirmado pela presença dos critérios 1 e 2, mais 3 ou 4.
A prevenção do delirium envolve um conjunto de medidas não farmacológicas:
Novidade PADIS 2025 — Mobilização e reabilitação. A atualização sugere o uso de mobilização e reabilitação intensificadas, em comparação à mobilização/reabilitação usual, em pacientes adultos criticamente enfermos (recomendação condicional, evidência de certeza moderada). Os benefícios observados incluem redução da fraqueza adquirida na UTI, redução da duração do delirium, redução do tempo de ventilação mecânica e do tempo de internação — ao custo de um discreto aumento no risco de arritmias durante a mobilização, o que reforça a necessidade de monitorização durante o procedimento.
O tratamento medicamentoso do delirium já instalado deve ser reservado a casos de risco para o paciente ou para a equipe (por exemplo, delirium hiperativo grave com risco de autolesão ou remoção de dispositivos).
Novidade PADIS 2025 — Antipsicóticos. A força-tarefa não conseguiu emitir recomendação a favor ou contra o uso de antipsicóticos (haloperidol ou atípicos, como quetiapina) para o tratamento do delirium em pacientes adultos criticamente enfermos (evidência de baixa certeza). Isso não significa que esses fármacos estejam proibidos — significa que a evidência disponível não permite uma recomendação padronizada, e a decisão deve ser individualizada, reservada a sintomas que representem risco, e sempre pelo menor tempo e menor dose eficazes.
Novidade PADIS 2025 — Dexmedetomidina. Para pacientes adultos em ventilação mecânica nos quais a sedação leve e a redução do delirium sejam prioridades clínicas, sugere-se o uso de dexmedetomidina em vez de propofol para sedação (recomendação condicional, evidência de certeza moderada). O uso de dexmedetomidina aumenta o risco de bradicardia (risco relativo de aproximadamente 1,65), o que exige monitorização cardiovascular contínua, especialmente em pacientes com disfunção do nó sinusal ou uso concomitante de outras drogas bradicardizantes.
Novidade PADIS 2025 — Melatonina. Sugere-se administrar melatonina, em vez de não administrar, em pacientes adultos criticamente enfermos (recomendação condicional, evidência de baixa certeza). Os dados sugerem redução da prevalência de delirium e discreta redução do tempo de internação em UTI, com perfil de segurança favorável.
Novidade PADIS 2025 — Benzodiazepínicos para ansiedade. Para o tratamento farmacológico da ansiedade em pacientes críticos, a força-tarefa concluiu que a evidência é insuficiente para emitir recomendação sobre o uso de benzodiazepínicos — um tópico novo nesta atualização, que reforça a cautela já consolidada quanto a essa classe de medicamentos no ambiente de terapia intensiva.
Quadro-resumo — PADIS 2025 (LEWIS et al., 2025)
Questão Recomendação Força / Certeza Benzodiazepínicos para ansiedade Sem recomendação (evidência insuficiente) — Dexmedetomidina vs. propofol (sedação) Sugere dexmedetomidina Condicional / moderada Antipsicóticos para delirium Sem recomendação (evidência insuficiente) Condicional / baixa Mobilização/reabilitação intensificada Sugere a favor Condicional / moderada Melatonina Sugere a favor Condicional / baixa
A equipe de enfermagem tem papel central na prevenção, detecção precoce e manejo do delirium. Além de aplicar escalas de avaliação como o CAM-ICU, os profissionais devem atuar com estratégias de comunicação efetiva, cuidado centrado no paciente e promoção do conforto ambiental. A educação da família e o cuidado humanizado são fundamentais para reduzir o estresse e promover a recuperação cognitiva.
Paciente fictício, 74 anos, internado há 4 dias em UTI por pneumonia grave, em ventilação mecânica, atualmente sedado com propofol. A equipe de enfermagem observa períodos de agitação alternados com sonolência excessiva, olhar perdido e incapacidade de manter atenção durante avaliação simples.
Discussão dirigida:
O delirium em UTI é uma síndrome de alta prevalência e impacto significativo, cujo manejo deve ser proativo e multidisciplinar. As evidências mais recentes (PADIS 2025) reforçam três eixos práticos: preferir dexmedetomidina ao propofol quando sedação leve e redução de delirium forem prioridades (monitorando bradicardia); investir em mobilização e reabilitação intensificadas, com seus benefícios sobre força muscular, duração de delirium e tempo de ventilação; e considerar melatonina como medida adjuvante segura. Já o uso rotineiro de antipsicóticos para tratar delirium instalado segue sem respaldo forte de evidência, devendo ser reservado a situações de risco e sempre reavaliado. A enfermagem, pela proximidade com o paciente, ocupa posição privilegiada na identificação precoce e no cuidado humanizado.
ELY, E. W. et al. Delirium in mechanically ventilated patients: validity and reliability of the confusion assessment method for the intensive care unit (CAM-ICU). JAMA, Chicago, v. 286, n. 21, p. 2703-2710, 2001. PMID: 11730446. DOI: 10.1001/jama.286.21.2703.
LEWIS, K. et al. A Focused Update to the Clinical Practice Guidelines for the Prevention and Management of Pain, Anxiety, Agitation/Sedation, Delirium, Immobility, and Sleep Disruption in Adult Patients in the ICU. Critical Care Medicine, Philadelphia, v. 53, n. 3, p. e711-e727, 2025. PMID: 39982143. DOI: 10.1097/CCM.0000000000006574.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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