Prof. Dr. Dário Santuchi — Médico, Mestre em Ciências da Saúde
Unidade 3 | Seção 3.3
Nota de revisão (transparência metodológica)
A estrutura e a profundidade do material original foram integralmente preservadas. A auditoria científica (3 pesquisas dedicadas, cruzando PubMed, StatPearls/NCBI Bookshelf, OMS/WHO, SOBRASA e a literatura de fisiologia do afogamento) identificou os seguintes pontos que precisam de correção, contextualização ou declaração de limite — nenhum dado foi apagado silenciosamente.
- Estatística global “150.000 mortes/ano” — desatualizada, corrigida para ~300.000/ano. Não localizei publicação oficial da OMS que sustente 150.000. Trajetória histórica: ~372.000/ano (2014) → ~236.000/ano (revisão posterior) → ~300.000/ano (dados de 2021), valor vigente no Global Status Report on Drowning Prevention 2024 da OMS. Corrigido para o valor oficial mais recente.
- “40% durante natação e 29% associados a embarcações” — dados históricos dos EUA, não globais. Rastreei até Szpilman (2000), que cita Branche (1998) sobre epidemiologia nos EUA, com faixas de “40 a 45%” (natação) e “12 a 29%” (embarcações) — não um dado global e atual. Ajustado para apresentar corretamente como retrato histórico norte-americano.
- “Terceira causa de morte acidental no Brasil” — reclassificado como “terceira causa de morte por causas externas”. Segundo a SOBRASA, o afogamento é a terceira causa de morte por causas externas (categoria que inclui homicídios e suicídios, não apenas acidentes) para todas as idades no Brasil, e a segunda causa na faixa de 5 a 14 anos. Corrigida a terminologia.
- Faixa etária “20 a 29 anos” — ajustada conforme dado mais recente. O Boletim SOBRASA 2024 (base 2022) não isola uma década fechada de “20-29”; descreve que a faixa de 15 a 49 anos concentra 57% dos óbitos, com 40% ocorrendo antes dos 29 anos. Predomínio masculino (6x maior, até 16x na faixa de 20-24) e pico no verão (41% entre dezembro e março) foram confirmados.
- Terminologia “afogamento úmido” — atualizada conforme consenso internacional. O consenso da OMS (van Beeck et al., 2005, PMID 16302042) estabelece que os termos “afogamento úmido, seco, ativo, passivo, silencioso e secundário” não devem mais ser utilizados como classificação — a definição atual é processual e unificada. Mantida a descrição fisiológica da sequência (didaticamente útil), removido o enquadramento categórico “úmido vs. seco”.
- Tempos “~2 minutos de apneia” e “1 a 2 minutos de agitação” — não confirmados em fonte primária revisada por pares. Fontes de emergência não revisadas por pares citam apneia de aproximadamente 1 minuto. Mantidos como aproximações didáticas, com ressalva de que não são medições precisas e universais.
- “Danos irreversíveis a partir do quinto minuto” — mantido como aproximação válida, com ressalva sobre água fria. O StatPearls situa o dano irreversível entre 4 e 6 minutos em água normotérmica. Acrescentada ressalva crucial: em água muito fria, esse limite pode ser drasticamente estendido pelo efeito protetor da hipotermia — caso documentado de sobrevivência neurológica após 147 minutos de submersão a 7°C (Bartoli et al., 2025, PMID 40883082).
- Síndrome de Imersão — entidade real, mas o limiar “5°C” é de fonte institucional, não revisada por pares. A síndrome é real e documentada (Farstad & Dunn, 2019, PMID 31178366), mas o limiar numérico específico só pôde ser rastreado até material educacional da SOBRASA — a literatura internacional descreve o gatilho de forma mais genérica (água abaixo de 21-25°C). Mantida a cifra por seu valor didático, sinalizando origem institucional.
- Distúrbios hidroeletrolíticos e hemólise (água doce vs. salgada) — reclassificados como ensino clássico de relevância clínica atual limitada. O StatPearls afirma que não há diferença clinicamente significativa entre água doce e salgada, e que distúrbios eletrolíticos são incomuns sem hipotermia associada. Ajustado para apresentar como conhecimento clássico conceitual, não achado rotineiramente esperado.
- Cifra “2 a 3 mL/kg” de aspiração — corrigida para “1 a 3 mL/kg” e reatribuída. Não consta no artigo original de Szpilman (1997); rastreada até material SOBRASA, que remonta aos estudos clássicos de J. H. Modell. Corrigidos o intervalo e a atribuição.
- Enriquecimento pedagógico — Cadeia de Sobrevivência do Afogamento. Acrescentada a “Drowning Chain of Survival” (5 elos), publicada por Szpilman et al. em 2014 (PMID 24911403) — ferramenta pedagógica consolidada, ausente no material original.
- Todos os demais conteúdos (definição fisiopatológica geral, alterações multissistêmicas, estrutura da classificação em 6 graus, condutas por grau, manejo da hipotermia, proteção cervical, estrutura da SAE) foram confirmados como consistentes com a literatura e mantidos como no material original — a classificação de Szpilman (Chest, 1997, PMID 9315798) segue sendo o padrão de referência, inclusive em publicações recentes do próprio autor (Szpilman et al., 2018, PMID 29928958).
Objetivos de Aprendizagem
- Reconhecer o afogamento como problema de saúde pública relevante, com perfil epidemiológico característico no Brasil.
- Diferenciar afogamento primário, secundário e síndrome de imersão quanto aos fatores desencadeantes.
- Descrever a sequência fisiopatológica do afogamento e suas repercussões multissistêmicas.
- Classificar a vítima de afogamento segundo os seis graus clínicos de Szpilman, correlacionando achados de exame com gravidade.
- Aplicar as condutas de suporte avançado de vida específicas para cada grau clínico, incluindo manejo da hipotermia e proteção cervical.
- Sistematizar o cuidado de enfermagem ao paciente admitido após afogamento, da sala vermelha à unidade de terapia intensiva.
1. Introdução e o Impacto Epidemiológico do Afogamento
O afogamento é classificado como um grave problema de saúde pública global. Segundo a estimativa oficial mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 300.000 pessoas morrem por afogamento a cada ano no mundo (dados de 2021, Global Status Report on Drowning Prevention, OMS, 2024). Historicamente, essa estimativa já foi maior — a OMS chegou a citar cerca de 372.000 mortes/ano em seu relatório de 2014 —, refletindo tanto melhorias reais na prevenção quanto refinamentos metodológicos na coleta de dados.
Dados históricos da epidemiologia norte-americana (Branche, 1998, citado em Szpilman, 2000) indicam que cerca de 40 a 45% dos episódios de afogamento ocorreram durante a prática de natação, e entre 12 e 29% estiveram associados ao uso de embarcações — retrato de um contexto e período específicos, não uma cifra global e atual.
No cenário brasileiro, o afogamento configura-se como a terceira causa de morte por causas externas em todas as idades, sendo inclusive a segunda causa de morte na faixa etária de 5 a 14 anos (SOBRASA). Apresenta uma distribuição epidemiológica bem definida: maior concentração de óbitos no adulto jovem (a faixa de 15 a 49 anos concentra 57% dos casos, com 40% dos óbitos ocorrendo antes dos 29 anos), acomete majoritariamente indivíduos do sexo masculino (mortalidade em média 6 vezes maior que a feminina, chegando a 16 vezes na faixa de 20-24 anos), e registra o seu maior pico de óbitos nos meses de dezembro a março (41% do total anual) — período que corresponde ao verão no hemisfério sul.
2. Conceito, Fatores Desencadeantes e Síndrome de Imersão
Definição Clínica
O afogamento é definido, segundo o consenso internacional adotado pela OMS, como o processo de sofrer comprometimento respiratório por submersão ou imersão em líquido (van Beeck et al., 2005, PMID 16302042). A entrada de água nas vias aéreas obstrui mecanicamente a passagem do ar, dificultando ou impedindo por completo a ventilação pulmonar adequada. Esse mesmo consenso estabeleceu que termos historicamente usados — “afogamento úmido”, “seco”, “ativo”, “passivo”, “silencioso” ou “secundário” (como subtipos de afogamento) — não devem mais ser utilizados como classificação, por gerarem confusão terminológica sem correspondência clínica consistente.
Classificação Etiológica (Causas)
Didaticamente, os episódios de afogamento continuam sendo divididos, quanto ao fator desencadeante, em duas categorias:
- Afogamento primário: o tipo mais prevalente na prática assistencial, caracterizado por não apresentar nenhum fator patológico desencadeante prévio ao acidente. Ocorre de forma súbita, tipicamente marcado pela “luta pela vida” característica de indivíduos sem habilidade de natação.
- Afogamento secundário: ocorre quando uma patologia associada precipita diretamente o evento de submersão. Uma condição médica aguda impede que a vítima se mantenha na superfície, levando-a a aspirar líquido. Os principais fatores precipitantes documentados são uso de drogas, consumo de álcool, trauma, crises convulsivas ou doenças cardiovasculares agudas.
Síndrome de Imersão
Trata-se de uma entidade clínica real, também descrita na literatura internacional como cold water immersion syndrome (Farstad & Dunn, 2019, PMID 31178366), caracterizada por síncope (que pode se manifestar por bradicardia extrema ou taquiarritmia) desencadeada pela exposição súbita e desprotegida do corpo à água significativamente mais fria que a temperatura corporal. O limiar numérico frequentemente ensinado — diferença de pelo menos cinco graus Celsius — tem origem em material educacional da SOBRASA; a literatura internacional tende a descrever o gatilho de forma mais genérica, como exposição a água fria (abaixo de 21-25°C). Quanto maior a diferença térmica entre o organismo e a água, maior a probabilidade desse reflexo inibitório. O desabamento hemodinâmico súbito promove rebaixamento rápido do nível de consciência, culminando no afogamento secundário da vítima.
💡 Conceito-chave
A síndrome de imersão é um lembrete importante de que nem todo afogamento começa na água — alguns começam no coração, por um reflexo vagal desencadeado pelo choque térmico. Reconhecer esse mecanismo muda a abordagem preventiva: aclimatação gradual à água fria é uma medida de prevenção real.
3. Fisiopatologia e Repercussões Multissistêmicas
A sequência de eventos biológicos que se desenvolve após a queda na água é rápida e altamente destrutiva para as células humanas. A descrição a seguir usa uma sequência fisiológica didática — sem a antiga rotulação categórica “afogamento úmido vs. seco”, hoje desencorajada pelo consenso internacional.
A Cascata Fisiopatológica Passo a Passo
- Fase de luta e apneia: o evento se inicia com pânico e movimentos corporais desordenados na tentativa de alcançar a superfície. Ao ocorrer a primeira imersão da face, a aspiração de uma quantidade mínima de água nas vias aéreas superiores ativa um reflexo protetor imediato, gerando laringoespasmo e apneia voluntária — didaticamente descrita como durando cerca de 1 a 2 minutos, embora esse valor seja uma aproximação de ensino, não uma medição precisa e universal.
- Deglutção e hipóxia: diante do bloqueio respiratório e do pânico, a vítima passa a deglutir grandes quantidades de água involuntariamente. O consumo interno de oxigênio prossegue, instalando-se hipóxia progressiva acompanhada de agitação e confusão mental. A via metabólica anaeróbica é ativada pela falta de O₂, resultando em acidose lática sistêmica e perda de consciência.
- Aspiração e edema pulmonar: com a perda de consciência, ocorre o relaxamento do esfíncter laríngeo. Sem o laringoespasmo protetor, ocorre a aspiração de líquido para o interior dos alvéolos pulmonares, desencadeando um severo processo inflamatório com consequente edema pulmonar.
- Dano cerebral: o maior perigo da redução de oxigênio reside na vulnerabilidade do sistema nervoso central. Em água de temperatura normal, a ausência de oxigenação cerebral adequada tipicamente provoca danos neuronais irreversíveis entre o quarto e o sexto minuto de submersão — “quinto minuto” é uma aproximação razoável dentro dessa faixa.
⚠️ Erro comum
Presumir que submersão prolongada em água muito fria significa prognóstico neurológico automaticamente reservado. O efeito protetor da hipotermia sobre o metabolismo cerebral já permitiu recuperação neurológica documentada após submersões extremas — o caso mais extremo já relatado envolveu 147 minutos de submersão em água gelada, com recuperação neurológica completa (Bartoli et al., 2025, PMID 40883082). Isso reforça: em afogamento por água fria, tente reanimar mesmo diante de submersão prolongada.
As Alterações nos Diferentes Sistemas Orgânicos
O afogamento é uma agressão que repercute de forma sistêmica no doente:
- Alterações pulmonares: o acúmulo de líquido nos alvéolos altera as relações pressóricas intratorácicas e destrói o surfactante pulmonar, gerando colapso alveolar generalizado com severo prejuízo na relação ventilação-perfusão. Manifesta-se por tosse, taquidispneia, uso de musculatura acessória, apneia, murmúrios vesiculares diminuídos, ruídos adventicios (estertores, sibilos e roncos), saída de espuma rósea pela boca/nariz (edema pulmonar), hipoxemia severa e hipercapnia.
- Alterações neurológicas: o cérebro responde agudamente à hipóxia e à acidose com alteração progressiva do nível de consciência, confusão mental, agitação psicomotora, crises convulsivas e encefalopatia hipóxica.
- Alterações cardiovasculares: o estresse isquêmico e a hipóxia miocárdica grave resultam em arritmias cardíacas diversas, espasmo coronariano, queda do débito cardíaco e isquemia miocárdica aguda.
- Alterações hidroeletrolíticas e hematológicas: classicamente descreve-se que a absorção de água pelos capilares alveolares promoveria hemoconcentração ou hemodiluição, hipoproteinemia, hemólise intravascular e distúrbios do potássio sérico, a depender do meio de afogamento. É importante saber que essa é, hoje, considerada uma descrição fisiopatológica clássica de valor conceitual — a literatura atual indica que não há diferença clinicamente relevante entre água doce e salgada na prática, e que distúrbios eletrolíticos significativos são incomuns na ausência de hipotermia associada.
- Alterações renais: a isquemia e a queda do fluxo sanguíneo renal, somadas à eventual toxicidade da hemoglobina livre decorrente de hemólise (quando presente), podem contribuir para insuficiência renal aguda (IRA) em casos graves.
4. Classificação Clínica do Afogamento em Graus (I a VI) — Classificação de Szpilman
Para guiar a tomada de decisão rápida e padronizar as condutas de suporte de vida à beira do leito, o afogamento é classificado em seis graus clínicos de gravidade, segundo a classificação proposta por David Szpilman com base na análise de 1.831 casos (Szpilman, 1997, Chest, PMID 9315798) — hoje o padrão de referência internacionalmente utilizado nesse contexto.
| Grau | Apresentação Clínica | Repercussão e Ausculta |
|---|---|---|
| I | Consciente e lúcido, agitação leve e tosse. Cianose discreta em extremidades. | Aspiração mínima. Ausculta normal (ou sibilos reacionais isolados). |
| II | Consciente, agitação psicomotora importante e/ou desorientação temporaria. Cianose moderada em lábios e dedos. | Aspiração suficiente para alterar trocas gasosas. Estertores crepitantes e subcrepitantes leves a moderados. |
| III | Torporoso, responde a estímulos verbais ou precariamente a dolorosos. Dispneia intensa, cianose evidente, vômitos frequentes. | Aspiração maciça (1-3 mL/kg, redução de até 50% na oxigenação). Estertores disseminados, secreção rósea espumosa, sem hipotensão. |
| IV | Torpor profundo ao coma, cianose intensa generalizada, grande secreção espumosa orofaríngea. | EAP severo com choque circulatório. Estertores, sibilos e roncos difusos, hipotensão (PAS < 90 mmHg). |
| V | Coma profundo, sem movimentos respiratórios (apneia). Mantém batimentos cardíacos e pulsos centrais. | Parada respiratória isolada, com integridade circulatória temporária. |
| VI | Coma profundo, apneia, sem pulso carotídeo ou femoral detectável. | Parada cardiorrespiratória (PCR) estabelecida. Prognóstico reservado se exposição prolongada (>1h), ressalvada exceção de água muito fria. |
📌 Para lembrar
A grande maioria das vítimas socorridas por afogamento nunca chega a precisar de reanimação: dados de um serviço de guarda-vidas totalmente operacional no Brasil mostraram que, entre mais de 2.000 resgates com necessidade de assistência, apenas 0,7% exigiram reanimação respiratória ou cardiorrespiratória (Graus V e VI) — reforçando que prevenção e reconhecimento precoce da distress salvam a esmagadora maioria das vidas (Szpilman et al., 2018, PMID 29928958).
5. Protocolos de Suporte Avançado de Vida (SAV) e Condutas
Após a retirada segura da vítima do meio líquido (procedimento que deve ser executado estritamente por profissionais ou pessoas com treinamento técnico específico, para evitar novas vítimas), a equipe deve iniciar imediatamente a abordagem sistemática.
A. Cadeia de Sobrevivência do Afogamento
Uma ferramenta pedagógica consolidada, publicada por Szpilman et al. em 2014 (Resuscitation, PMID 24911403), organiza a sequência de resgate em cinco elos:
- Prevenir o afogamento.
- Reconhecer a distress/afogamento em curso.
- Fornecer flutuação à vítima o quanto antes.
- Remover a vítima da água.
- Prestar os cuidados necessários, conforme a gravidade.
B. Avaliação Primária e Secundária
A conduta clínica imediata é norteada pelo rápido estabelecimento do grau de afogamento do doente, por meio da avaliação da responsividade, da ventilação e da palpação de pulsos centrais. Em seguida, procede-se à avaliação secundária sistemática, com monitorização contínua da oximetria de pulso.
C. Condutas de Suporte Baseadas no Grau Clínico
- Grau I — Aquecimento e repouso: tranquilizar o paciente, remover roupas molhadas e aplicar medidas de aquecimento passivo. Geralmente não necessita de internação ou oxigenoterapia.
- Grau II — Oxigenoterapia em baixo fluxo: instalar suporte de oxigênio sob cateter nasal ou máscara simples em baixo fluxo. Controlar a hipotermia e transportar obrigatoriamente ao hospital.
- Grau III — Oxigenoterapia em alto fluxo: instalar oxigenoterapia sob máscara facial com reservatório em alto fluxo (10 a 15 L/min). Se houver rebaixamento acentuado do nível de consciência ou fadiga respiratória severa, realizar intubação orotraqueal. Transportar sob monitorização contínua para UTI.
- Grau IV — Via aérea avançada e reposição volêmica: instalar oxigenoterapia em alto fluxo ou intubação orotraqueal imediata para ventilação mecânica sob pressão positiva. Puncionar acessos calibrosos e iniciar reposição volêmica com cristaloides. Se hipotensão persistir, considerar drogas vasoativas. Transporte de extrema urgência para UTI.
- Grau V — Suporte ventilatório avançado: atender conforme protocolo de parada respiratória do SAV — abrir via aérea, intubação orotraqueal imediata e ventilação mecânica assistida. Havendo retorno da ventilação espontânea, manejar conforme Grau IV.
- Grau VI — RCP imediata: iniciar manobras de reanimação cardiopulmonar de alta qualidade, seguindo o protocolo de PCR do SAV — abertura de vias aéreas, intubação, compressões torácicas contínuas e drogas do SAV conforme o ritmo identificado no monitor.
D. Manejo e Controle Ativo da Hipotermia
A exposição à água fria e a aspiração de líquido resfriam rapidamente o núcleo corporal, configurando a hipotermia como complicação crítica. O controle térmico deve ser instituído precocemente: retirada completa das vestimentas molhadas, secagem vigorosa da pele, uso de cobertores aquecidos ou mantas térmicas aluminizadas, e, em ambiente hospitalar, soluções de infusão aquecidas e gases ventilatórios aquecidos e umedecidos.
E. Proteção da Coluna Cervical e Mobilização
Embora a prioridade absoluta seja a rápida restauração da oxigenação e ventilação, o profissional deve manter elevado índice de suspeição para lesões vertebrais associadas, especialmente em afogamento secundário a mergulho em águas rasas, acidentes de barco ou quedas de altura. A conduta exige mobilização extremamente cuidadosa e, quando indicada, imobilização adequada da coluna cervical, do tronco e dos membros com colar cervical rígido e prancha longa durante o transporte. Contudo, as tentativas de imobilização nunca devem atrasar o início das manobras ventilatórias ou o transporte rápido do paciente crítico.
6. Atendimento Intra-hospitalar e Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)
No ambiente hospitalar, o acolhimento do paciente vítima de afogamento exige atuação rápida, coordenada e pautada no rigor técnico da SAE.
Principais Diagnósticos de Enfermagem (DE):
- Troca de gases prejudicada, relacionada ao acúmulo de líquido alveolar e perda de surfactante.
- Padrão respiratório ineficaz, relacionado à fadiga muscular e hipóxia do centro respiratório.
- Hipotermia, relacionada à exposição prolongada à água e aspiração de líquido frio.
- Desobstrução das vias aéreas ineficaz, relacionada ao excesso de secreções espumosas e espasmo das vias aéreas.
Prescrição de Enfermagem / Intervenções Imediatas
- Admissão e filtro de risco: admitir o doente na sala vermelha, realizando imediatamente a avaliação primária e secundária para reconfirmar o grau clínico e detectar sinais de choque ou rebaixamento neurológico.
- Monitorização multiparâmetros contínua: instalar monitor para FC, ritmo cardíaco, FR, padrão respiratório, SatO₂, temperatura corporal e PA.
- Acesso venoso de grosso calibre: puncionar dois acessos venosos periféricos calibrosos para reposição volêmica rápida e coleta imediata de amostras de sangue.
- Coleta de amostras para exames complementares: hemograma completo, eletrólitos (potássio e sódio), ureia e creatinina, além de gasometria arterial.
- Suporte ventilatório e aspiração: instalar e gerenciar a oxigenoterapia prescrita, mantendo as vias aéreas desobstruídas por aspiração periódica de secreções e espuma orofaríngea.
- Gerenciamento térmico ativo: monitorar continuamente a temperatura interna e manter o paciente aquecido por mantas térmicas, infusões aquecidas e controle da temperatura ambiente.
- Apoio e preparo de procedimentos invasivos: preparar materiais de via aérea e medicamentos para auxiliar em procedimentos críticos, registrando todo o processo assistencial.
Questões de Fixação do Professor
Questão 1. Um jovem de 16 anos é resgatado de um rio após sofrer submersão acidental por aproximadamente 3 minutos. Ao ser extraído da água pela equipe do SAMU, o paciente apresenta-se consciente, porém extremamente agitado e confuso. Apresenta dispneia intensa, cianose evidente de mucosas, vômitos frequentes e eliminação de secreção oral espumosa de coloração rósea. À ausculta pulmonar, o enfermeiro identifica estertores crepitantes e subcrepitantes disseminados em ambos os hemitórax, e a aferção da pressão arterial revela valores normais de 110 x 70 mmHg. Com base no quadro clínico descrito, classifique o grau de afogamento deste paciente, descreva o mecanismo fisiopatológico responsável pela secreção oral rósea e cite a conduta imediata indicada para o suporte de oxigênio e controle de temperatura deste doente.
Gabarito comentado: o paciente apresenta-se em Grau III de afogamento, caracterizado clinicamente pela presença de estertores pulmonares disseminados e eliminação de secreção rósea espumosa (edema agudo de pulmao) na ausência de hipotensão arterial (PA normal de 110 x 70 mmHg). O mecanismo fisiopatológico da secreção rósea deve-se à aspiração de líquido para o interior dos alvéolos, gerando destruição do surfactante, processo inflamatório local e aumento da permeabilidade capilar pulmonar, promovendo extravasamento de líquido proteico e hemácias para o espaço alveolar. A conduta imediata consiste em instalar oxigenoterapia em alto fluxo por máscara facial com reservatório (10-15 L/min) ou preparar via aérea avançada se houver fadiga; remover vestimentas molhadas e aplicar aquecimento passivo com mantas térmicas metálicas.
Questão 2. Durante o plantão na sala vermelha, a equipe de enfermagem admite uma vítima de afogamento em mar agitado classificada como Grau IV. O paciente apresenta-se em coma profundo, com intensa cianose generalizada, grande quantidade de secreção espumosa em orofaringe e pressão arterial limítrofe de 75 x 40 mmHg (hipotensão). Diferencie clinicamente o Grau IV do Grau III de afogamento, explique por que este paciente apresenta hipotensão arterial grave e descreva as condutas médicas e de enfermagem imediatas estabelecidas pelo protocolo de SAV para este grau.
Gabarito comentado: a diferenciação central é que o Grau IV cursa com edema agudo de pulmão acompanhado de hipotensão arterial evidente (PAS < 90 mmHg) e rebaixamento profundo do nível de consciência ao coma, enquanto o Grau III apresenta EAP com níveis pressoricos normais e paciente torporoso, mas responsivo. A hipotensão grave no Grau IV decorre da hipóxia miocárdica severa associada a choque circulatório: a pressão intratorácica positiva gerada pelo colapso alveolar e edema, somada ao deficit de contratilidade miocárdica isquêmica, compromete o retorno venoso e derruba o débito cardíaco. As condutas imediatas incluem intubação orotraqueal para ventilação mecânica sob pressão positiva, reposição volêmica com cristaloides por acessos calibrosos e, se necessário, drogas vasoativas para restaurar a perfusão tecidual.
Questão 3. Um paciente vítima de afogamento secundário a mergulho em lagoa é admitido na emergência. Durante a passagem do plantão na UTI, o enfermeiro destaca a necessidade de monitorização neurovascular contínua, alegando que a hipóxia cerebral prolongada pode causar danos irreversíveis rápidos, além de alertar para a restrição de procedimentos de mobilização intempestiva devido à cinemática do evento. Justifique fisiologicamente a partir de quanto tempo de hipóxia ocorrem danos cerebrais irreversíveis no afogado (considerando também a exceção da água fria) e explique por que a mobilização cuidadosa com prancha longa e colar cervical deve ser considerada nesses doentes, apesar da urgência ventilatória.
Gabarito comentado: em água de temperatura normal, o deficit de oxigenação tecidual decorrente da asfixia mecânica costuma provocar danos neurológicos irreversíveis entre o quarto e o sexto minuto de submersão — “quinto minuto” é uma aproximação didática razoável dentro dessa faixa. Contudo, essa regra tem uma exceção clinicamente relevante: em água muito fria, o efeito protetor da hipotermia sobre o metabolismo cerebral pode estender drasticamente essa janela — o caso mais extremo documentado na literatura envolveu sobrevivência neurológica após 147 minutos de submersão a 7°C de temperatura corporal. Por isso, mesmo diante de submersão prolongada em água fria, a reanimação deve ser tentada. Quanto à mobilização: a imobilização adequada da coluna cervical, do tronco e dos membros deve ser considerada porque muitos afogamentos ocorrem de forma secundária a episódios de trauma. Manipulações intempestivas em pacientes com fraturas cervicais ocultas podem causar lesões medulares secundárias catastróficas; contudo, esses procedimentos devem ser realizados de forma coordenada para nunca atrasar as manobras essenciais de restauração da ventilação e oxigenação, que são as maiores determinantes da sobrevida do doente.
Considerações finais
O afogamento é um evento que se decide em minutos — muitas vezes em segundos — e cuja evolução depende mais da rapidez e da qualidade do reconhecimento e do resgate do que de qualquer intervenção hospitalar sofisticada. A classificação de Szpilman, quase três décadas após sua publicação original, continua sendo a ferramenta mais útil para transformar a observação clínica inicial em uma linguagem comum entre guarda-vidas, socorristas e equipe hospitalar. Ao mesmo tempo, esta revisão reforça um princípio recorrente na medicina de emergência: cifras amplamente repetidas em sala de aula merecem ser periodicamente confrontadas com a fonte primária, para que o ensino acompanhe a evolução real do conhecimento científico.
Referências
Diretrizes e consensos
VAN BEECK, Ed F. et al. A new definition of drowning: towards documentation and prevention of a global public health problem. Bulletin of the World Health Organization, v. 83, n. 11, p. 853-856, 2005. PMID: 16302042. DOI: 10.1590/S0042-96862005001100015.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global status report on drowning prevention 2024. Geneva: WHO, 2024.
Revisões sistemáticas e artigos PubMed
SZPILMAN, David. Near-drowning and drowning classification: a proposal to stratify mortality based on the analysis of 1,831 cases. Chest, v. 112, n. 3, p. 660-665, 1997. PMID: 9315798. DOI: 10.1378/chest.112.3.660.
SZPILMAN, David et al. Creating a drowning chain of survival. Resuscitation, v. 85, n. 9, p. 1149-1152, 2014. PMID: 24911403. DOI: 10.1016/j.resuscitation.2014.05.034.
SZPILMAN, David et al. Is drowning a mere matter of resuscitation? Resuscitation, v. 129, p. 103-106, 2018. PMID: 29928958. DOI: 10.1016/j.resuscitation.2018.06.018.
BIERENS, Joost J. L. M. et al. Physiology of drowning: a review. Physiology (Bethesda), v. 31, n. 2, p. 147-166, 2016. PMID: 26889019. DOI: 10.1152/physiol.00002.2015.
FARSTAD, David J.; DUNN, Julie A. Cold water immersion syndrome and whitewater recreation fatalities. Wilderness & Environmental Medicine, v. 30, n. 3, p. 321-327, 2019. PMID: 31178366. DOI: 10.1016/j.wem.2019.03.005.
BARTOLI, Carlo R. et al. Ice water drowning survival after 147-minute submersion and 7°C hypothermic circulatory arrest. JACC: Case Reports, v. 30, n. 25, p. 104885, 2025. PMID: 40883082. DOI: 10.1016/j.jaccas.2025.104885.
Livros-texto e fontes institucionais
STATPEARLS. Drowning. Treasure Island: StatPearls Publishing. Disponível em NCBI Bookshelf (NBK430833).
SOBRASA — SOCIEDADE BRASILEIRA DE SALVAMENTO AQUÁTICO. Boletim Epidemiológico de Afogamentos no Brasil 2024. Disponível em: sobrasa.org.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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