Seção 4.3 — O Paciente Queimado
A queimadura é definida como a lesão tecidual resultante da ação direta do calor ou de outra forma de energia (química, elétrica, radiante) sobre o revestimento cutâneo do corpo [341].
1. Classificação da Profundidade Tecidual
As queimaduras são estratificadas de acordo com o nível de destruição anatômica da pele [345]:
- Queimadura de 1º Grau (Superficial): Atinge estritamente a epiderme [346]. Caracteriza-se por eritema doloroso, edema discreto e ausência completa de bolhas [346]. Cicatriza em 4 a 6 dias com descamação, sem deixar cicatrizes [346]. Não representa risco sistêmico de morte [346].
- Queimadura de 2º Grau (Espessura Parcial): Atinge a derme [347]. Caracteriza-se pela presença de flictenas (bolhas) e intensa dor local, devido à exposição de terminações nervosas sensitivas [347].
- Superficial: Blister de base rósea, úmido e extremamente doloroso [347].
- Profundo: Blister de base esbranquiçada, seco e indolor à palpação profunda [347].
- Cicatrização: Ocorre entre 7 a 21 dias [347].
- Queimadura de 3º Grau (Espessura Total): Destrói toda a espessura da pele e atinge apêndices profundos, como tecido subcutâneo, fáscia, músculo, vasos, nervos e ossos [348]. Apresenta-se com aspecto de cera branca, couro curtido ou enegrecido (necrose), sendo a superfície da lesão completamente indolor devido à destruição total dos receptores nervosos [348]. Não epiteliza espontaneamente, exigindo enxertia cirúrgica de pele [348].
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2. Avaliação da Extensão da Queimadura: A Regra dos Nove
Para calcular rapidamente a Superfície Corporal Queimada (%SCQ) em adultos, adota-se a consagrada Regra dos Nove (Wallace), dividindo-se o corpo em segmentos anatômicos correspondentes a 9% ou múltiplos de 9% da área corporal total [343, 344]:
[Cabeça e Pescoço: 9%]
│
┌─────────────┼─────────────┐
│ │ │
[Braço Esq: 9%] [Tronco: 36%] [Braço Dir: 9%]
(Ant: 18%)
(Post: 18%)
│
[Genitália: 1%]
│
┌─────────────┴─────────────┐
│ │
[Perna Esq: 18%] [Perna Dir: 18%]
- Cabeça e Pescoço: 9% (4,5% anterior, 4,5% posterior) [343, 344].
- Membros Superiores: 9% cada (4,5% anterior, 4,5% posterior por braço) [343, 344].
- Tronco: 36% (18% tórax/abdome anterior, 18% dorso posterior) [343, 344].
- Membros Inferiores: 18% cada (9% anterior, 9% posterior por perna) [343, 344].
- Perineo/Genitália: 1% [343, 344].
Gravidade Clínica (Escala de Correia):
- Médios: Até 20% SCQ com menos de 6% de 3º grau [345].
- Graves: Até 40% SCQ com menos de 20% de 3º grau [345].
- Críticos: Até 70% SCQ com menos de 30% de 3º grau [345].
- Mortais: Acima de 70% SCQ com mais de 30% de 3º grau [345].
Fatores que agravam o prognóstico: Idade extrema (>65 anos ou <2,5 anos), doenças crônicas associadas, traumas concomitantes e, principalmente, queimadura de vias aéreas (sinais clínicos: escarro carbonáceo, cílios e vibrissas nasais queimados, rouquidão, estridor respiratório; associa-se a 90-100% de mortalidade se não entubado precocemente) [345, 350].
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3. Ressuscitação Volêmica: A Fórmula de Parkland
Queimaduras que abrangem mais de 20% da superfície corporal desencadeiam uma resposta inflamatória sistêmica maciça, com aumento da permeabilidade capilar generalizada e extravasamento de líquidos para o terceiro espaço, levando ao choque hipovolêmico profundo [348, 349, 351]. A reposição de fluidos deve ser imediata utilizando cristaloides (preferencialmente Ringer com Lactato) [351, 354]:
$$ ext{Volume de Parkland (mL)} = 2 ext{ a } 4 ext{ mL} imes \% ext{SCQ} imes ext{Peso (kg)}$$
- Esquema de Infusão:
- Primeiras 8 horas: Infundir 50% do volume total calculado, considerando rigorosamente a hora exata do acidente (e não a hora de chegada ao hospital) [354].
- Próximas 16 horas: Infundir os 50% restantes do volume calculado [354].
- Monitorização do Alvo Terapêutico:
- O melhor parâmetro para guiar a hidratação é o débito urinário, que deve ser mantido entre 0,5 a 1,0 mL/kg/h em adultos [355].
- No trauma elétrico grave, devido ao risco de rabdomiólise e precipitação de mioglobina nos túbulos renais, o débito urinário alvo deve ser mantido em torno de 1,5 mL/kg/h ou até que ocorra o clareamento completo da urina [355].
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4. Cuidados Locais com a Lesão e Curativos
O curativo do grande queimado exige rigorosa técnica asséptica e manejo multidisciplinar [357]:
- Limpeza Inicial: Irrigar a ferida com soro fisiológico 0,9% abundante para resfriar a pele [352]. Em ambiente hospitalar, realizar a limpeza da lesão com soro fisiológico e Clorexidina a 2% [358].
- Desbridamento: Remover tecidos desvitalizados, corpos estranhos e romper as bolhas (flictenas) sob analgesia potente [358].
- Terapia Tópica: Aplicar Sulfadiazina de Prata a 1% diretamente nas lesões (agente antimicrobiano de amplo espectro) [358].
- Cobertura e Enfaixamento:
- Face e Períneo: Manter as lesões expostas (sem curativos oclusivos), apenas com aplicação tópica frequente [359].
- Membros e Tronco: Realizar curativo oclusivo em quatro camadas (camada não aderente de rayon/morin vaselinado, gaze absorvente, algodão hidrófilo e atadura de crepe) [359].
- Cuidados Anatômicos: Enfaixar os dedos individualmente e manter as articulações imobilizadas em posição funcional anatômica para evitar contraturas teciduais, deformidades estéticas e sequelas funcionais graves no processo de cicatrização [359].
- Escarotomia: Queimaduras de 3º grau circunferenciais no tórax ou membros necessitam de incisões descompressivas cirúrgicas da escara (escarotomia) para permitir a adequada expansibilidade torácica e evitar a síndrome compartimental periférica [360].
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Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)
O enfermeiro deve liderar a equipe assistencial pautando o plano de cuidados nos seguintes diagnósticos de enfermagem estabelecidos para essas situações especiais [307, 330, 355]:
- Volume de líquidos deficiente (queimados) relacionado à perda ativa pelos capilares [356].
- Intervenção: Puncionar dois acessos calibrosos, infundir Ringer Lactato pela fórmula de Parkland e passar sonda vesical de demora para monitorar o débito urinário horário [351, 354, 356].
- Padrão respiratório ineficaz / Troca de gases prejudicada (envenenamento elapídico, intoxicação por opioides ou fumaça) relacionado a paralisia muscular ou edema de via aérea [296, 323, 332, 356].
- Intervenção: Monitorar FR, padrão e saturação de O₂; garantir via aérea definitiva (intubação orotraqueal) imediata se houver sinais de obstrução ou fadiga [350, 356].
- Dor aguda relacionada à lesão física e estimulação nervosa [307, 357].
- Intervenção: Administrar analgésicos potentes via intravenosa conforme prescrição, sempre antes de realizar procedimentos invasivos ou troca de curativos [357].
- Integridade tecidual/cutânea prejudicada relacionada à necrose ou ação térmica/química [307, 357].
- Intervenção: Realizar curativos com técnica estéril utilizando Sulfadiazina de Prata 1% ou coberturas específicas, observando sinais flogísticos [357, 358].
- Risco de infecção relacionado à perda da barreira cutânea e imunossupressão [357].
- Intervenção: Higienização rigorosa das mãos, uso de técnica estéril, controle rigoroso de temperatura corporal e monitorização de leucocitose [357].
THOMAZ, Márcia Cristina Aparecida. Urgência e emergência em enfermagem. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2018. 160 p.

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