Intoxicação Exógena

 

A intoxicação exógena é conceituada como o conjunto de manifestações clínicas ou laboratoriais que revelam o desequilíbrio orgânico produzido pela interação de um ou mais agentes químicos exógenos com o organismo [318].
1. As Quatro Fases do Processo Toxicológico
O envenenamento desenvolve-se através de quatro fases cinéticas e dinâmicas distintas [318]:
1. EXPOSIÇÃO ──► 2. TOXICOCINÉTICA ──► 3. TOXICODINÂMICA ──► 4. FASE CLÍNICA
(Contato via     (Absorção,        (Interação com       (Manifestações
 gástrica,       distribuição,      receptores,          sinais, sintomas
 cutânea, etc)   metabolismo e      efeito lesivo)       e laboratoriais)
                 eliminação)
  1. Fase de Exposição: Corresponde ao primeiro contato do agente com o organismo [319]. É influenciada diretamente pela via de introdução (oral, inalatória, dérmica, ocular), dose, tempo de contato e propriedades físico-químicas do produto [319].
  2. Fase Toxicocinética: Compreende a movimentação do tóxico no organismo, englobando os processos de absorção (passagem para a corrente sanguínea), distribuição/armazenamento, biotransformação (geralmente hepática) e eliminação (renal, biliar ou pulmonar) [319].
  3. Fase Toxicodinâmica: Consiste na interação íntima das moléculas do agente químico com os sítios de ação biológicos (receptores), desencadeando disfunções bioquímicas e moleculares [320].
  4. Fase Clínica: Momento em que surgem as manifestações clínicas, sinais, sintomas e alterações laboratoriais decorrentes do dano orgânico instalado [320].
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2. Principais Síndromes Tóxicas e Agentes
A identificação rápida da síndrome clínica permite o início precoce do tratamento de suporte e neutralização [321, 324]:
  • Síndrome Colinérgica (Inseticidas Organofosforados e Carbamatos):
    • Fisiopatologia: Inibição da acetilcolinesterase com consequente acúmulo de acetilcolina na fenda sináptica [322, 329].
    • Clínica: “DUMBBELS” — Diarreia, micção (incontinência), miose severa, bradicardia, broncorreia severa com estertores/sibilos, emese (vômitos), lacrimejamento e salivação abundante, além de fasciculações musculares, fraqueza, paralisia e coma [322].
    • Tratamento: Atropinização rápida (administração de atropina em doses seriadas para secar a secreção pulmonar) e Pralidoxima (reativador de colinesterase) [329].
  • Síndrome Anticolinérgica (Atropina, Anti-histamínicos, Antidepressivos Tricíclicos):
    • Clínica: Midríase, pele quente, vermelha e seca, boca seca, taquicardia, retenção urinária, constipação, agitação psicomotora, alucinações e coma [322].
  • Síndrome Opioide (Morfina, Heroína, Fentanil):
    • Clínica: Tríade clássica de depressão respiratória severa, coma e miose puntiforme, associados a bradicardia, hipotensão e hipotermia [323].
    • Antídoto: Naloxona IV em doses seriadas [329].
  • Síndrome Sedativo-Hipnótica (Benzodiazepínicos, Barbitúricos):
    • Clínica: Coma, depressão do SNC e respiratória, hipotermia, hipotensão e taquicardia [323].
    • Antídoto (Benzodiazepínicos): Flumazenil IV [329].
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3. Condutas para Diminuição da Absorção e Eliminação
As medidas de descontaminação dependem da via de exposição do agente químico [327]:
  • Exposição Cutânea: Retirar imediatamente as roupas contaminadas, lavar a pele com água corrente e sabão por 15 a 20 minutos [328]. Evitar escovar a pele para não gerar escoriações que facilitem a absorção [328]. O profissional de saúde deve utilizar Equipamentos de Proteção Individual (EPI) impermeáveis para evitar a contaminação secundária [328].
  • Exposição Ocular: Irrigar abundantemente com soro fisiológico 0,9% por 15-20 minutos, inclinando a cabeça para o lado afetado, aplicando jato suave do canto interno para o externo do olho [329].
  • Exposição Oral (Descontaminação Gastrointestinal):
    • Lavagem Gástrica (LG): Indicada preferencialmente dentro da primeira hora de ingestão de substâncias potencialmente graves [327]. É contraindicada na ingestão de cáusticos (ácidos/álcalis fortes, pelo risco de perfuração esofágica) e hidrocarbonetos (risco de pneumonia por aspiração) [327].
    • Carvão Ativado (CA): Agente adsorvente universal que se liga à toxina no TGI, impedindo sua absorção [327]. Pode ser administrado em dose única ou de forma seriada (6/6 horas por 24-48h) [327]. Quando administrado de forma seriada, deve ser associado a um catártico (laxante osmótico) para evitar a impactação intestinal e constipação grave [327].
    • Lavagem Intestinal (Whole Bowel Irrigation): Indicação precisa para ingestão de grandes pacotes de drogas (mulas de tráfico), teofilina, ou metais não adsorvidos pelo carvão ativado (Lítio, Ferro, Chumbo) [328].

      THOMAZ, Márcia Cristina Aparecida. Urgência e emergência em enfermagem. Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2018. 160 p.

Sobre Dario Santuchi 863 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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