Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
Se na nossa última aula desenhamos o mapa geral do estado de choque, hoje mergulhamos fundo no seu formato mais temido, complexo e frequente nas UTIs: o Choque Séptico. Poucas condições em medicina intensiva concentram tanta pesquisa clínica de alta qualidade quanto a sepse — e é exatamente por isso que suas diretrizes mudam com regularidade.
Esta é a Versão 2.0 desta aula, atualizada com a publicação mais recente da Surviving Sepsis Campaign (SSC), de 2026 (PRESCOTT et al., 2026), que substitui as recomendações de 2021 como referência internacional, e com o 2024 Focused Update sobre corticosteroides em sepse, SDRA e pneumonia adquirida na comunidade (CHAUDHURI et al., 2024). Vamos estruturar o raciocínio em passos práticos, como uma sequência de decisões à beira do leito.
A sepse é a pior resposta do organismo a uma infecção: um quadro infeccioso desencadeia uma resposta sistêmica desregulada que leva à disfunção orgânica. Quando essa disfunção se acompanha de anormalidades circulatórias e metabólicas graves o suficiente para aumentar substancialmente a mortalidade, chegamos ao Choque Séptico.
O choque séptico é um choque do tipo distributivo. O processo infeccioso induz liberação maciça de mediadores inflamatórios (citocinas, óxido nítrico), causando vasodilatação sistêmica extrema e aumento da permeabilidade vascular — os vasos "vazam" líquido para o interstício. Clinicamente, isso se traduz em hipotensão persistente que não melhora apenas com volume, exigindo vasopressores para manter a Pressão Arterial Média (PAM), associada a lactato elevado.
Box Didático — Por que o qSOFA perdeu protagonismo?
O escore qSOFA foi amplamente divulgado como ferramenta de triagem, mas apresenta baixa sensibilidade quando comparado a outras ferramentas de alerta precoce. As diretrizes atuais não recomendam seu uso como instrumento único de rastreio. Escores como NEWS2 e MEWS — que incorporam saturação de oxigênio e nível de consciência — têm maior utilidade como "radar" de deterioração clínica precoce, enquanto o diagnóstico formal de disfunção orgânica permanece ancorado no aumento de dois ou mais pontos no escore SOFA.
O tempo é o maior aliado — ou o pior inimigo — no manejo da sepse. Sinais de alerta incluem:
A avaliação da probabilidade de infecção (definitiva, provável ou possível) e da gravidade clínica orienta a urgência da antibioticoterapia — conceito central da diretriz de 2026, discutido a seguir.
A SSC 2026 (PRESCOTT et al., 2026) manteve a lógica de simultaneidade de ações diante de sepse ou choque séptico — "sepse e choque séptico são emergências médicas; o tratamento e a ressuscitação devem começar imediatamente" (declaração de boa prática).
Culturas e antibioticoterapia. Hemoculturas devem ser colhidas, sempre que possível, antes do início do antimicrobiano, sem atrasar seu início. O painel manteve as recomendações de tempo já vigentes desde 2021, agora com maior força de evidência:
Fluidos. A recomendação central permanece a administração de pelo menos 30 mL/kg de cristaloides intravenosos nas primeiras 3 horas em pacientes com hipoperfusão induzida por sepse ou choque séptico (recomendação condicional, evidência de baixa certeza) — o painel reforça que esse volume deve ser individualizado, considerando peso corporal ajustado em pacientes obesos, e reavaliado com frequência para evitar sub ou sobrerressuscitação.
Um ponto de refinamento importante em 2026: para pacientes com hipotensão induzida por sepse, sugere-se iniciar a ressuscitação com bolus de cristaloide, seguido de suporte vasopressor se a hipotensão persistir — mas, em choque séptico instável (hipotensão grave, pele mosqueada, cianose, alteração do sensório), a administração concomitante de vasopressor e fluido pode ser justificada, avaliada caso a caso.
Prefere-se o uso de cristaloides balanceados (ex.: Ringer lactato) em vez de solução salina a 0,9% para a ressuscitação inicial — exceto em pacientes com lesão cerebral traumática, nos quais a solução salina a 0,9% permanece a escolha preferencial.
Guiando a ressuscitação. O tempo de enchimento capilar (TEC) segue recomendado como medida adjunta de perfusão, e medidas dinâmicas (variação de pressão de pulso, variação de volume sistólico, elevação passiva de pernas) são preferidas a medidas estáticas isoladas para guiar reposição volêmica além do bolus inicial.
Primeira linha: Noradrenalina. A diretriz de 2026 mantém a recomendação forte pela noradrenalina como vasopressor de primeira linha, superior a dopamina, epinefrina ou selepressina.
Acesso periférico sem atraso. Uma mudança prática relevante: sugere-se iniciar vasopressores em acesso periférico seguro, em vez de atrasar o início até a obtenção de acesso venoso central (recomendação condicional, evidência de certeza muito baixa) — os dados ainda são insuficientes para definir tempo máximo, dose ou calibre ideais do acesso periférico.
Meta de Pressão Arterial Média (PAM).
Segunda e terceira linhas. Diante de doses crescentes de noradrenalina, sugere-se adicionar vasopressina (recomendação condicional, certeza moderada); se a PAM permanecer inadequada apesar de noradrenalina e vasopressina, sugere-se adicionar epinefrina (certeza muito baixa). Em locais sem acesso à vasopressina, a epinefrina é alternativa aceitável.
Box Didático — E se houver disfunção cardíaca associada?
Para pacientes com choque séptico e disfunção cardíaca concomitante, a diretriz de 2026 sugere usar noradrenalina ou epinefrina como vasopressor de primeira linha, com uma nuance farmacológica: a noradrenalina pode ser preferida em taquiarritmia significativa, enquanto a epinefrina pode ser preferida em bradiarritmia significativa (recomendação condicional, evidência muito baixa).
Inotrópicos. Para pacientes com hipoperfusão persistente e disfunção cardíaca, apesar de volume e pressão arterial adequados, sugere-se o uso de inotrópicos — dobutamina associada à noradrenalina, ou epinefrina isolada — sempre em adição, e não em substituição, aos vasopressores. Os dados são insuficientes para recomendar dobutamina versus milrinona, e a diretriz mantém recomendação contra o uso de levosimendana.
Este tema recebeu atualização dedicada no 2024 Focused Update (CHAUDHURI et al., 2024), incorporada e ratificada pela SSC 2026:
Atenção clínica: a decisão de iniciar corticosteroide deve ser individualizada. Não há consenso sobre o gatilho ideal (dose de vasopressor, tempo de choque) para iniciar a terapia — na prática, a maioria inicia com doses baixas a moderadas de noradrenalina, sem aguardar refratariedade extrema, como era orientação mais antiga.
| Intervenção | Recomendação SSC 2026 |
|---|---|
| Vitamina C intravenosa | Contra o uso rotineiro |
| Imunoglobulina IV | Contra o uso |
| Purificação sanguínea (hemoperfusão, hemofiltração de alto fluxo, plasmaférese) | Contra o uso |
| Hemoperfusão com polimixina B | Contra o uso |
| Vitamina D | Contra o uso para tratamento da sepse (não se aplica à reposição por deficiência) |
| Antipirético/resfriamento de superfície com objetivo de melhorar desfechos | Contra o uso rotineiro (mas mantido para conforto/controle sintomático) |
| Profilaxia de úlcera de estresse (IBP) | Sugerida em pacientes de risco para sangramento GI clinicamente importante |
| Transfusão de hemácias | Estratégia restritiva recomendada |
| Nutrição enteral | Sugerido início precoce (dentro de 72 h) |
| Insulinoterapia | Recomendado iniciar com glicemia ≥ 180 mg/dL |
| Terapia renal substitutiva (TRS) | Sugerida contra o uso sem indicação definitiva; se indicada, contínua ou intermitente são equivalentes |
| Bicarbonato de sódio | Contra o uso rotineiro na acidose lática por hipoperfusão; considerar em acidemia grave (pH ≤ 7,2) com lesão renal aguda AKIN 2–3 |
| Remoção ativa de fluidos (fase pós-ressuscitação) | Sugerida após a fase de ressuscitação aguda, com diuréticos como primeira escolha |
Sobre suporte ventilatório na SDRA associada à sepse, mantêm-se os pilares já consolidados: volume corrente baixo (6 mL/kg de peso predito), pressão de platô limitada a 30 cmH₂O, PEEP mais alta em SDRA moderada a grave e posição prona por mais de 12 horas/dia em relação PaO₂/FiO₂ < 150 — temas detalhados na aula de Suporte Ventilatório desta série.
Paciente fictício, sexo masculino, 68 anos, admitido ao pronto-socorro com febre (38,9 °C), confusão mental aguda e hipotensão (PA 78/48 mmHg). História de infecção urinária há 3 dias sem tratamento. Ao exame: taquicárdico (118 bpm), taquipneico (26 irpm), tempo de enchimento capilar de 5 segundos. Lactato inicial: 4,8 mmol/L.
Discussão dirigida:
No Choque Séptico, o raciocínio permanece ancorado em passos sequenciais e simultâneos: reconhecer rapidamente a disfunção orgânica, colher culturas, iniciar antimicrobiano de amplo espectro na primeira hora, repor 30 mL/kg de cristaloide balanceado guiando-se por lactato e tempo de enchimento capilar, e — se a pressão não responder — iniciar noradrenalina (inclusive em acesso periférico, sem atraso), com meta de PAM ≥ 65 mmHg (60–65 mmHg em idosos). Na refratariedade, adicionar vasopressina e, depois, considerar corticosteroide em dose baixa — nunca em dose alta e curta duração. O controle do foco infeccioso e o de-escalonamento antimicrobiano fecham o ciclo de cuidado, sempre reavaliados à luz da resposta clínica individual.
CHAUDHURI, D. et al. 2024 Focused Update: Guidelines on Use of Corticosteroids in Sepsis, Acute Respiratory Distress Syndrome, and Community-Acquired Pneumonia. Critical Care Medicine, Philadelphia, v. 52, n. 5, p. e219-e233, maio 2024. DOI: 10.1097/CCM.0000000000006172.
PRESCOTT, H. C. et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2026. Critical Care Medicine, Philadelphia, v. 54, n. 4, p. 725-812, abr. 2026. DOI: 10.1097/CCM.0000000000007075.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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