Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
Febre nova é um dos gatilhos mais comuns — e mais ansiogênicos — na rotina da UTI. A tentação é reflexa: "subiu a febre, vamos pedir tudo e cobrir com antibiótico de amplo espectro." Mas essa reação, embora compreensível, ignora um fato central: menos da metade dos episódios de febre na UTI têm origem infecciosa. Trauma cirúrgico recente, infarto, TEV, síndromes de abstinência, reações transfusionais e dezenas de outras causas não infecciosas podem elevar a temperatura corporal — e cada solicitação de exame ou antibiótico desnecessário tem custo, tanto para o paciente (nefrotoxicidade, seleção de resistência, radiação) quanto para o sistema.
Esta aula é baseada na diretriz conjunta da Society of Critical Care Medicine (SCCM) e da Infectious Diseases Society of America (IDSA) para avaliação de febre nova em pacientes adultos na UTI (O’GRADY et al., 2023), que analisou a evidência disponível e emitiu um conjunto de recomendações e declarações de boa prática — a maioria delas fracas ou de boa prática, refletindo honestamente a qualidade ainda limitada da evidência nesta área.
A diretriz utiliza a definição prévia da própria SCCM/IDSA: temperatura ≥ 38,3 °C em uma única aferição, em paciente de UTI. É importante lembrar que nem todo paciente com infecção manifesta febre — e a ausência de febre na vigência de infecção está associada a pior desfecho. Por isso, as recomendações desta diretriz aplicam-se, de forma geral, também a pacientes com suspeita de infecção mesmo sem elevação térmica documentada.
Box Didático — Como medir a temperatura corretamente?
Recomendação: quando disponíveis, métodos de monitorização central (termistor de cateter de artéria pulmonar, cateter vesical ou termistor de balão esofágico) são preferíveis, por serem mais confiáveis para o diagnóstico e manejo. Na ausência desses dispositivos, sugere-se o uso de temperatura oral ou retal, em vez de métodos menos confiáveis como temperatura axilar, timpânica, artéria temporal não invasiva ou termômetros de ponto químico (recomendação condicional, evidência de qualidade muito baixa). Termômetros timpânicos e de artéria temporal têm concordância consistentemente pobre com termistores centrais e não devem ser usados para monitorização.
Antes de assumir infecção, vale revisar mentalmente as causas não infecciosas de febre mais relevantes na UTI:
| Categoria | Exemplos |
|---|---|
| Cardiovascular | Infarto agudo do miocárdio, síndrome de Dressler, tromboembolismo venoso, infarto pulmonar |
| Relacionado a hemoderivados | Reação transfusional, síndrome de liberação de citocinas |
| Endócrino/metabólico | Insuficiência adrenal, tempestade tireoidiana |
| Neurológico | Hemorragia intracraniana, AVC, estado de mal epiléptico não convulsivo |
| Farmacológico/toxidrômico | Febre por drogas, síndrome neuroléptica maligna, síndrome serotoninérgica, hipertermia maligna, reação de Jarisch-Herxheimer |
| Abdominal | Colecistite alitiásica, pancreatite |
| Pulmonar | Atelectasia, fase fibroproliferativa da SDRA, pneumonite não infecciosa |
| Outras | Gota, ossificação heterotópica, síndrome de reconstituição imune, síndrome de lise tumoral, rejeição de transplante, abstinência (álcool, opioides, barbitúricos, benzodiazepínicos) |
Box Didático — Testagem para SARS-CoV-2
Recomenda-se testar pacientes críticos com febre nova para SARS-CoV-2 por PCR, conforme os níveis de transmissão comunitária (declaração de boa prática) — um lembrete de que a pandemia deixou marcas permanentes nos protocolos de investigação sindrômica da UTI.
Para pacientes de UTI com febre sem foco óbvio e portadores de cateter venoso central (CVC), a diretriz é específica quanto à técnica:
Aqui a diretriz é elegantemente pragmática, condicionando a recomendação à probabilidade pré-teste de infecção bacteriana:
| Probabilidade de infecção bacteriana | Procalcitonina (PCT) | Proteína C-reativa (PCR) |
|---|---|---|
| Baixa a intermediária | Sugere-se medir PCT em adição à avaliação clínica (não isoladamente) | Sugere-se medir PCR em adição à avaliação clínica (não isoladamente) |
| Alta | Sugere-se não medir PCT para excluir infecção bacteriana | Sugere-se não medir PCR para excluir infecção bacteriana |
Todas as recomendações acima são condicionais, com evidência de qualidade muito baixa. Adicionalmente, para pacientes com probabilidade baixa a intermediária de infecção bacteriana e sem foco claro, sugere-se medir PCT ou PCR para ajudar a excluir infecção bacteriana (recomendação condicional, evidência muito baixa) — e os mesmos biomarcadores também foram recomendados, de forma mais ampla, como ferramenta para guiar a suspensão da antibioticoterapia empírica, uma vez definida a ausência de infecção ou a resposta clínica adequada.
Box Didático — Testes de origem viral
Diante de febre nova com suspeita de pneumonia ou sintomas novos de infecção respiratória alta, sugere-se testar patógenos virais por painel de amplificação de ácido nucleico viral (recomendação condicional, evidência muito baixa). Já para rastreio rotineiro de patógenos virais (ex.: herpesvírus, adenovírus) em pacientes imunocompetentes sem sintomas específicos, a evidência é insuficiente para recomendação.
Este é, talvez, o ponto mais contraintuitivo da diretriz para quem vem da prática ambulatorial:
Racional: uma revisão sistemática e metanálise de 13 ensaios clínicos (n = 1.963 pacientes não neurocríticos) mostrou que o controle da febre reduziu a temperatura corporal, mas não melhorou mortalidade em 28 dias, mortalidade hospitalar ou reversão de choque. Em populações selecionadas — pacientes neurologicamente lesados ou pós-parada cardiorrespiratória — o benefício teórico da terapia antipirética pode superar o risco, mas a evidência ainda é insuficiente para uma recomendação de uso rotineiro nessas populações específicas.
Reflexão clínica: a febre, na maioria dos pacientes críticos, é uma resposta fisiológica ao estresse ou à infecção — não necessariamente um inimigo a ser combatido a qualquer custo. Tratar o número no monitor, sem tratar a causa, pode gerar uma falsa sensação de controle clínico.
Paciente fictício, 68 anos, no 4º dia de pós-operatório de cirurgia cardíaca, evolui com temperatura axilar de 38,6 °C, sem sinais respiratórios, abdominais ou de ferida operatória. Sem cateter venoso central. Hemodinamicamente estável.
Discussão dirigida:
Febre nova na UTI não é sinônimo automático de infecção — é um sinal que exige raciocínio clínico estruturado antes da ação reflexa. Meça a temperatura pelo método mais confiável disponível; pense ativamente nas causas não infecciosas antes de escalonar a investigação; peça radiografia de tórax como primeiro passo, reservando TC, PET/CT e ultrassonografia para cenários específicos; colete hemoculturas de forma tecnicamente correta (dois sítios, volume adequado) quando indicado; use PCT/PCR de forma inteligente, guiado pela probabilidade pré-teste — e não pela ansiedade da equipe; e resista à tentação de tratar o número no monitor: baixar a febre por si só não reduz mortalidade na maioria dos pacientes críticos. A pergunta certa nunca é "como baixo a febre?", mas sim "o que está causando esta febre — e o que fazer a respeito?".
O’GRADY, N. P. et al. Society of Critical Care Medicine and the Infectious Diseases Society of America Guidelines for Evaluating New Fever in Adult Patients in the ICU. Critical Care Medicine, Philadelphia, v. 51, n. 11, p. 1570-1586, nov. 2023. DOI: 10.1097/CCM.0000000000006022.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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