Ao final desta aula, você deverá ser capaz de:
Poucas classes de medicamentos têm uma história tão pendular na Terapia Intensiva quanto os corticosteroides. Décadas de estudos conflitantes — ora mostrando benefício, ora dano, ora nenhum efeito — moldaram (e remodelaram) as recomendações de uso em choque séptico, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e pneumonia adquirida na comunidade (PAC) grave. Esta aula consolida a mais recente atualização focada da Society of Critical Care Medicine (SCCM) sobre o tema, que revisou sistematicamente a literatura publicada desde a diretriz anterior (2017) e reformulou recomendações específicas para cada uma dessas três condições.
Esta aula é baseada em CHAUDHURI et al. (2024), 2024 Focused Update: Guidelines on Use of Corticosteroids in Sepsis, Acute Respiratory Distress Syndrome, and Community-Acquired Pneumonia, que emitiu quatro recomendações principais (nenhuma recomendação específica foi possível para a população pediátrica, por escassez de estudos).
Recomendação 1A: a diretriz sugere administrar corticosteroides a pacientes adultos com choque séptico (recomendação condicional, evidência de baixa certeza).
Recomendação 1B: a diretriz recomenda CONTRA a administração de corticosteroides em alta dose e curta duração (> 400 mg/dia de hidrocortisona ou equivalente, por menos de 3 dias) em pacientes adultos com choque séptico (recomendação forte, evidência de certeza moderada).
Box Didático — O que mudou desde 2017?
Em 2017, a diretriz SCCM/ESICM recomendava corticosteroide apenas para choque séptico refratário a fluidos e vasopressor em dose moderada a alta. A atualização de 2024 ampliou a indicação para todo paciente adulto com choque séptico que necessite de vasopressor, independentemente da dose — mas, em contrapartida, passou a recomendar explicitamente contra os regimes de alta dose e curta duração, antes aceitáveis.
Racional (resumo da evidência): uma metanálise de 46 ensaios clínicos randomizados mostrou que o uso de corticosteroide pode reduzir a mortalidade hospitalar/em longo prazo (RR 0,94; IC 95% 0,89–1,00; baixa certeza) e provavelmente reduz a mortalidade em UTI/curto prazo (RR 0,93; IC 95% 0,88–0,98; certeza moderada). O uso de corticosteroide também aumenta a taxa de reversão do choque (RR 1,24; IC 95% 1,11–1,38; certeza alta) e reduz a disfunção orgânica (SOFA 1,41 pontos menor em média; certeza alta) em 7 dias. Uma análise de subgrupo mostrou que pacientes que receberam um curso mais longo de corticosteroide (> 7 dias) tiveram maior sobrevida do que aqueles com curso mais curto (≤ 7 dias) — um achado que, junto ao alto risco de efeitos adversos dos regimes de alta dose/curta duração, sustenta diretamente a Recomendação 1B.
Efeitos adversos identificados: fraqueza neuromuscular (RR 1,21), hipernatremia (RR 1,64, provável) e hiperglicemia (RR 1,13, provável). Efeito incerto sobre sangramento gastrointestinal, superinfecção e AVC. Houve, inclusive, um possível efeito protetor contra desfechos neuropsiquiátricos (RR 0,58) — achado que necessita de mais estudos para confirmação.
Box Didático — Regimes de dosagem usados nos estudos (Tabela 4 da diretriz)
Choque séptico: hidrocortisona 200 mg IV/dia (infusão contínua ou dividida a cada 6h), com ou sem fludrocortisona 50 μg enteral/dia, por 7 dias ou até a alta da UTI. Não há recomendação específica sobre associação com fludrocortisona — uma metanálise em nível de paciente sugeriu possível benefício de mortalidade com a combinação hidrocortisona + fludrocortisona sobre hidrocortisona isolada, mas a credibilidade deste achado de subgrupo é incerta.
Recomendação 2A: a diretriz sugere administrar corticosteroides a pacientes adultos criticamente enfermos com SDRA (recomendação condicional, certeza moderada de evidência).
Racional: dezoito ensaios clínicos randomizados compararam corticosteroide com placebo/cuidado padrão em pacientes adultos hospitalizados com SDRA (67% usando critérios de Consenso Americano-Europeu ou de Berlim para SDRA; 33% incluindo pacientes com SDRA por COVID-19). O uso de corticosteroide provavelmente reduz a mortalidade em 28 dias (RR 0,82; IC 95% 0,72–0,95; certeza moderada), sem efeito de subgrupo demonstrado por status de COVID-19, tipo, dose ou momento de início do corticosteroide. Pode também reduzir dias de ventilação mecânica e tempo de internação hospitalar (baixa certeza), com provável aumento de hiperglicemia (RR 1,11).
Nota importante: diferentemente da diretriz de 2017 — que restringia a recomendação a SDRA precoce, moderada a grave (PaO₂/FiO₂ < 200, dentro de 14 dias do início) — a atualização de 2024 removeu esse qualificador, com base em análises agrupadas que incluíram pacientes com SDRA por COVID-19 e não demonstraram efeito diferencial por tempo de início ou gravidade.
Sobre a escolha da molécula: o painel não emitiu recomendação específica sobre qual corticosteroide utilizar (metilprednisolona, dexametasona ou hidrocortisona), dose ou duração de tratamento — os regimes variaram amplamente entre os estudos (equivalente de metilprednisolona IV de 40 mg/dia a 2 mg/kg/dia, por 7 a 30 dias), sem evidência suficiente para eleger uma estratégia específica. A escolha permanece, portanto, a critério clínico.
Box Didático — Exemplos de regimes usados em SDRA (Tabela 4 da diretriz)
- SDRA precoce (≤ 24h): dexametasona 20 mg IV/dia por 5 dias, depois 10 mg IV/dia por 5 dias até a extubação.
- SDRA precoce (≤ 72h): metilprednisolona 1 mg/kg bolus IV, seguida de infusão contínua de 1 mg/kg/dia (dias 1–14), com redução escalonada até 0,125 mg/kg/dia (dias 26–28).
- SDRA não resolvida (7–21 dias): metilprednisolona 2 mg/kg bolus IV, seguida de 2 mg/kg/dia dividido a cada 6h (dias 1–14), com redução escalonada até 0,125 mg/kg/dia (dias 31–32).
Aqui a diretriz diferencia claramente PAC grave de PAC menos grave:
Recomendação 3A: a diretriz recomenda administrar corticosteroides a pacientes adultos hospitalizados com PAC bacteriana grave (recomendação forte, certeza moderada de evidência).
Recomendação 3B: a diretriz não faz recomendação sobre o uso de corticosteroides em pacientes adultos hospitalizados com PAC bacteriana menos grave.
Racional: dezoito ensaios clínicos randomizados avaliaram corticosteroide versus nenhum corticosteroide em PAC bacteriana suspeita ou provável, hospitalizada. Em pacientes com PAC grave, o corticosteroide provavelmente reduz a mortalidade hospitalar (RR 0,62; IC 95% 0,45–0,85; certeza moderada) — efeito não observado em PAC menos grave (RR 1,08; IC 95% 0,83–1,42; baixa certeza), com interação de subgrupo estatisticamente significativa (p = 0,01). O maior estudo do tema, o ensaio CAPE COD (representando ~35% da população de PAC grave analisada), mostrou benefício robusto de mortalidade com corticosteroide, reforçando essa recomendação.
Em todos os pacientes com PAC (grave e menos grave), o corticosteroide provavelmente reduz a necessidade de ventilação mecânica invasiva e pode reduzir o tempo de internação em UTI e hospitalar — mas provavelmente aumenta o risco de hiperglicemia e pode aumentar infecções secundárias, com efeito incerto sobre sangramento gastrointestinal.
Box Didático — O que define PAC "grave"?
A diretriz cita múltiplos critérios possíveis (Tabela 5), incluindo os critérios ATS/IDSA 2007 (1 critério maior — choque séptico com necessidade de vasopressor ou insuficiência respiratória com necessidade de VM — ou ≥ 3 critérios menores) e os critérios do próprio estudo CAPE COD (necessidade de ventilação mecânica com PEEP ≥ 5 cmH₂O, CNAF com PaO₂/FiO₂ < 300 e FiO₂ ≥ 50%, máscara não reinalante com PaO₂/FiO₂ estimado < 300, ou índice de gravidade de pneumonia > 130). Escores de estratificação de risco (PSI classe IV/V, CURB-65 ≥ 3, entre outros) também são utilizados na prática e nos estudos.Box Didático — Exemplos de regimes usados em PAC grave (Tabela 4 da diretriz)
- Hidrocortisona 200 mg IV em bolus, seguida de infusão de 10 mg/h por 7 dias.
- Hidrocortisona 200 mg IV/dia por 4–8 dias (conforme melhora clínica), seguida de desmame — suspensa na alta da UTI.
- Metilprednisolona 0,5 mg/kg IV a cada 12h por 7 dias (iniciada em até 36h da admissão, em pacientes com PCR > 150 mg/L).
Doses típicas variam entre 40 e 80 mg/dia de equivalente de metilprednisolona IV, por 5 a 7 dias.
Um fio condutor conecta as três condições: os corticosteroides aumentam consistentemente o risco de hiperglicemia — um efeito adverso administrável, mas real, que reforça a importância do manejo glicêmico ativo discutido em outra aula desta série. Fraqueza neuromuscular, superinfecções e efeitos sobre sangramento gastrointestinal permanecem com evidência de certeza baixa a muito baixa — áreas explicitamente identificadas pelo painel como prioridades de pesquisa futura, junto à necessidade de estudos pediátricos e de custo-efetividade em diferentes sistemas de saúde.
Paciente fictício, 61 anos, em choque séptico secundário a pielonefrite, já em uso de noradrenalina em dose crescente apesar de ressuscitação volêmica adequada. A equipe de plantão discute iniciar hidrocortisona 100 mg IV a cada 6h (400 mg/dia) por apenas 48 horas, "para acelerar o desmame do vasopressor".
Discussão dirigida:
O uso de corticosteroide no paciente crítico deixou de ser uma questão de "sim ou não" para se tornar uma questão de "para quem, em que dose e por quanto tempo". No choque séptico, use corticosteroide (tipicamente hidrocortisona 200 mg/dia) em todo paciente que necessite de vasopressor — mas evite ativamente os regimes de alta dose e curta duração (> 400 mg/dia por menos de 3 dias), hoje contraindicados por recomendação forte. Na SDRA, o benefício de mortalidade justifica o uso, sem necessidade de restringir a indicação por gravidade ou tempo de evolução — mas a escolha da molécula e do regime permanece uma decisão individualizada. Na PAC, reserve a recomendação forte para os casos graves, onde o benefício de mortalidade é mais robusto; em PAC não grave, a decisão exige julgamento clínico compartilhado, já que a diretriz não a apoia nem a contraindica. Em todos os cenários, vigie ativamente a hiperglicemia — o efeito adverso mais consistentemente identificado nesta atualização.
CHAUDHURI, D. et al. 2024 Focused Update: Guidelines on Use of Corticosteroids in Sepsis, Acute Respiratory Distress Syndrome, and Community-Acquired Pneumonia. Critical Care Medicine, Philadelphia, v. 52, n. 5, p. e219-e233, maio 2024. DOI: 10.1097/CCM.0000000000006172.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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