As células da glia (neuróglia) sustentam os neurônios tanto no SNC quanto no SNP. Funcionalmente, desempenham papéis essenciais:
Materiais didáticos tradicionais frequentemente repetem que “as células da glia excedem em muito o número de neurônios” ou que a proporção seria de 10 células gliais para cada neurônio. O estudo estereológico de Azevedo et al. (2009), com o método do fracionador isotrópico, demonstrou que o encéfalo humano contém números aproximadamente equivalentes de neurônios (≈ 86,1 bilhões) e de células não neuronais/gliais (≈ 84,6 bilhões) — não uma proporção de 10:1 (AZEVEDO et al., 2009). É correto afirmar que a neuróglia contribui para a maior parte do crescimento pós-natal do SNC, mas não que suas células sejam numericamente muito mais abundantes que os neurônios no encéfalo como um todo.
| Tipo | Localização | Função principal |
| Astrócitos | SNC | Uma das células gliais mais abundantes (em contagens humanas, os oligodendrócitos tendem a predominar, inclusive no córtex); suporte físico e metabólico aos neurônios; contribuem para a formação da barreira hematoencefálica |
| Oligodendrócitos | SNC | Formação e manutenção da mielina; um único oligodendrócito mieliniza segmentos de múltiplos axônios |
| Micróglia | SNC | Células fagocíticas residentes, de origem mieloide; vigilância imune e participação em processos inflamatórios/neurodegenerativos |
| Células ependimárias | SNC | Revestem os ventrículos encefálicos e o canal central da medula; participam da produção/circulação do líquido cerebrospinal (LCS) |
| Células de Schwann | SNP | Mielinizam um único segmento de um único axônio; sustentação trófica e facilitação da regeneração axonal periférica |
Diferentemente das células de Schwann (uma célula = um segmento de um axônio), um único oligodendrócito estende múltiplos prolongamentos para mielinizar segmentos de vários axônios simultaneamente — o que tem implicação direta na fisiopatologia das doenças desmielinizantes centrais, nas quais a perda de um oligodendrócito compromete a mielina de vários axônios ao mesmo tempo.
A esclerose múltipla (EM) é uma doença neuroinflamatória crônica do SNC caracterizada por desmielinização, inflamação e dano axonal, com participação de componentes autoimunes e de mecanismos de imunidade inata do próprio SNC (micróglia e macrófagos residentes), além dos linfócitos T e B (FERNÁNDEZ et al., 2024). Os oligodendrócitos, responsáveis pela síntese e manutenção da mielina central, são alvo do processo inflamatório. Manifestações clínicas comuns incluem:
A distribuição temporal e espacial das lesões desmielinizantes (“disseminação no tempo e no espaço”) é a base do raciocínio diagnóstico da EM e de seu acompanhamento por ressonância magnética, sendo hoje também estudados biomarcadores em fluidos corporais e achados radiológicos específicos (como as “paramagnetic rim lesions”) para avaliar atividade e progressão da doença (FERNÁNDEZ et al., 2024).
Se a produção e a manutenção da mielina central dependem dos oligodendrócitos e cada oligodendrócito mieliniza múltiplos axônios, por que lesões desmielinizantes na EM tendem a ser multifocais mesmo quando o processo inflamatório inicial é relativamente localizado?
HALL, John E. Guyton & Hall: tratado de fisiologia médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
NETTER, Frank H. Atlas de anatomia humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
PAULSEN, Friedrich; WASCHKE, Jens (ed.). Sobotta: atlas de anatomia humana. 24. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 3 v.
AZEVEDO, Frederico A. C. et al. Equal numbers of neuronal and nonneuronal cells make the human brain an isometrically scaled-up primate brain. The Journal of Comparative Neurology, v. 513, n. 5, p. 532-541, 2009. DOI: 10.1002/cne.21974. PMID: 19226510.
FERNÁNDEZ, O. et al. XVI Post-ECTRIMS Meeting: review of the new developments presented at the 2023 ECTRIMS Congress (I). Revista de Neurología, v. 79, n. 1, p. 21-29, 2024. DOI: 10.33588/rn.7901.2024170. PMID: 38934946.
Nota de auditoria científica: o post original continha, na seção sobre esclerose múltipla, a citação de um artigo sobre terapia à base de laminina para lesão medular crônica em cães (CHIZE et al., 2025, PMID 40881640) — um estudo veterinário sobre lesão medular traumática, sem relação direta com a fisiopatologia da esclerose múltipla em humanos. Essa referência foi removida por inadequação temática; não foi possível confirmar sua pertinência ao conteúdo da aula original.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
www.dariosantuchi.com.br
@santuchi.dario
© Dr. Dário Santuchi — Cardiologia & Clínica Médica CRM-ES 11491 | RQE 10191 / 13520 Todos os direitos reservados.
Seja o primeiro a comentar