Os nervos cranianos constituem 12 pares de nervos que emergem diretamente do encéfalo (e não da medula espinal), responsáveis por inervar principalmente estruturas da cabeça e do pescoço, além de exercerem funções autonômicas viscerais estendidas ao tórax e ao abdome, no caso do nervo vago. Compreender sua anatomia e sua avaliação clínica é uma competência essencial para o exame neurológico, permitindo localizar lesões do tronco encefálico, da base do crânio e dos próprios nervos periféricos.
💡 Conceito-chave: Uma regra mnemônica clássica organiza os 12 pares quanto à função: os nervos I, II e VIII são predominantemente sensitivos; os nervos III, IV, VI, XI e XII são predominantemente motores; os nervos V, VII, IX e X são mistos (sensitivos, motores e, em alguns casos, com componente autonômico parassimpático).
| Nervo | Nome | Componente | Função principal |
|---|---|---|---|
| I | Olfatório | Sensitivo especial | Olfato |
| II | Óptico | Sensitivo especial | Visão |
| III | Oculomotor | Motor + parassimpático | Movimentos oculares, elevação da pálpebra, miose e acomodação |
| IV | Troclear | Motor | Movimento do músculo oblíquo superior do olho |
| V | Trigêmeo | Misto | Sensibilidade da face; motricidade da mastigação |
| VI | Abducente | Motor | Abdução do olho (músculo reto lateral) |
| VII | Facial | Misto | Mímica facial, paladar dos 2/3 anteriores da língua, secreção lacrimal e salivar |
| VIII | Vestibulococlear | Sensitivo especial | Audição e equilíbrio |
| IX | Glossofaríngeo | Misto | Deglutição, paladar do 1/3 posterior da língua, reflexo do vômito |
| X | Vago | Misto | Fonação, deglutição, motilidade visceral (parassimpático torácico e abdominal) |
| XI | Acessório | Motor | Trapézio e esternocleidomastóideo |
| XII | Hipoglosso | Motor | Motricidade da língua |
Figura 1 — Base do crânio e emergência dos nervos cranianos.
Fonte: NETTER, Frank H. Atlas de anatomia humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
Testado solicitando-se ao paciente que identifique odores familiares (café, hortelã) com os olhos fechados, uma narina ocluída de cada vez. A anosmia pode ser causada por trauma cranioencefálico com cisalhamento dos filamentos olfatórios ao atravessarem a lâmina crivosa do etmoide, ou por lesões expansivas da fossa anterior.
Avaliado por acuidade visual, campimetria por confrontação e fundoscopia (avaliação do disco óptico). Lesões ao longo da via óptica geram déficits campimétricos característicos conforme o nível da lesão (hemianopsia, quadrantanopsia).
Avaliados em conjunto pela motricidade extrínseca ocular, pedindo-se ao paciente que siga o dedo do examinador nas seis posições cardinais do olhar. Também se avalia a pupila (tamanho, simetria e reflexo fotomotor) e a posição da pálpebra (ptose).
🩺 Correlação clínica: A paralisia do III par causa ptose palpebral, midríase e desvio do olho para baixo e para fora (“olhar divergente”), pela ação não contraposta dos músculos reto lateral (VI) e oblíquo superior (IV). Quando a midríase está presente, deve-se investigar compressão extrínseca (por exemplo, aneurisma de comunicante posterior), pois as fibras parassimpáticas pupilomotoras trafegam na periferia do nervo e são as primeiras acometidas por compressão.
Possui três ramos sensitivos (oftálmico, maxilar e mandibular) e um componente motor para os músculos da mastigação (masseter, temporal, pterigóideos). Testa-se a sensibilidade facial nos três territórios e a força de mordida/protrusão mandibular. O reflexo corneopalpebral avalia a via aferente trigeminal (V) e a via eferente facial (VII).
Responsável pela mímica facial, é testado solicitando-se ao paciente que enrugue a testa, feche os olhos com força, sorria e infle as bochechas.
⚠️ Erro comum: Confundir paralisia facial central com periférica. Na paralisia facial periférica (lesão do neurônio motor inferior, como na paralisia de Bell), todo o hemiface é acometido, incluindo a musculatura frontal, pois a inervação da porção superior da face é bilateral apenas no nível cortical. Na paralisia facial central (lesão do neurônio motor superior, por exemplo em um acidente vascular encefálico), a musculatura frontal é poupada, porque recebe inervação cortical bilateral, enquanto a porção inferior da face é acometida contralateralmente à lesão.
Avaliado por acuidade auditiva (voz sussurrada, diapasão — testes de Weber e Rinne) e por sinais de disfunção vestibular (nistagmo, ataxia, vertigem).
Testados em conjunto, pois compartilham função na deglutição e fonação. Observa-se a elevação simétrica do palato mole ao pronunciar “aaah” e a posição da úvula, além do reflexo do vômito (gag reflex).
🩺 Correlação clínica: Na lesão unilateral do nervo vago (X), a úvula desvia para o lado sadio (contralateral à lesão), porque o músculo elevador do véu palatino do lado são continua a tracionar o palato normalmente, enquanto o lado paralisado permanece flácido e é “puxado” para o lado íntegro.
Testado pedindo-se ao paciente que eleve os ombros contra resistência (trapézio) e que rode a cabeça contra resistência (esternocleidomastóideo).
Testado solicitando-se ao paciente que projete a língua para fora da boca.
🩺 Correlação clínica: Na lesão unilateral do nervo hipoglosso (XII), a língua desvia para o lado lesado (ipsilateral à lesão), pois o músculo genioglosso do lado são, ao se contrair, empurra a ponta da língua em direção ao lado paralisado.
⚠️ Erro comum: Inverter o sentido do desvio entre a úvula (desvia para o lado sadio) e a língua (desvia para o lado lesado). Embora pareçam achados semelhantes, os mecanismos biomecânicos são opostos, e essa é uma armadilha frequente em provas e no raciocínio clínico.
Um paciente chega ao pronto-socorro com desvio da comissura labial à direita. Ao examiná-lo, você nota que ele consegue enrugar a testa e fechar os olhos com força normalmente dos dois lados. Qual par craniano está provavelmente acometido, e a lesão é central ou periférica? Justifique com base na inervação da musculatura frontal.
Raciocínio esperado: Como a musculatura frontal está preservada (função bilateral cortical), a lesão poupa o neurônio motor inferior do nervo facial e é compatível com uma lesão central (neurônio motor superior) contralateral, e não com uma paralisia de Bell (lesão periférica do VII par).
O conteúdo desta aula refere-se a anatomia e semiologia neurológica clássicas, amplamente consolidadas na literatura médica e didática (Netter, Guyton & Hall, Sobotta), sem controvérsia científica relevante ou necessidade de atualização por evidências recentes. Não foram identificadas divergências entre o conteúdo original e as fontes de referência consultadas. Nenhum dado quantitativo, referência bibliográfica ou estatística foi inventado; todas as afirmações apresentadas correspondem a conhecimento anatômico e semiológico estabelecido.
HALL, John E. Guyton & Hall: tratado de fisiologia médica. 13. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
NETTER, Frank H. Atlas de anatomia humana. 7. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019.
PAULSEN, Friedrich; WASCHKE, Jens (ed.). Sobotta: atlas de anatomia humana. 24. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 3 v.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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