Prof. Dr. Dário Santuchi — Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica, Mestre em Ciências da Saúde
Unidade 4 | Seção 4.3 — Situações Especiais em Urgência e Emergência
Versão 2.0
As queimaduras representam uma das formas mais devastadoras de trauma físico, com altíssima morbidade e mortalidade global. No Brasil, estima-se cerca de 1 milhão de novos casos de queimadura por ano, sendo crianças e a população de baixa renda os grupos mais atingidos. Dados do Ministério da Saúde referentes a 2022-2023 registraram 13.905 internações no SUS de crianças e adolescentes por queimaduras nesse biênio, com destaque para a faixa de 1 a 4 anos (6.400 casos).
A queimadura é definida como lesão resultante da ação direta do calor, substâncias químicas, eletricidade ou radiação sobre o revestimento cutâneo. A aplicação oportuna de medidas simples de emergência e o rigor nos princípios de ressuscitação inicial são decisivos para reduzir sequelas funcionais e mortalidade.
💡 Conceito-chave
O extravasamento capilar na grande queimadura não fica restrito à área lesada — é um fenômeno sistêmico. Por isso, mesmo tecidos à distância desenvolvem edema, e a reposição volêmica precisa ser calculada para todo o organismo.
⚠️ Erro comum
Interpretar a ausência de dor como sinal de menor gravidade. No 3º grau, a ausência de dor reflete destruição completa das terminações nervosas — é justamente a lesão mais grave, não a mais leve.
| Região | % da superfície corporal |
|---|---|
| Cabeça e pescoço | 9% (4,5% anterior + 4,5% posterior) |
| Cada membro superior | 9% (4,5% anterior + 4,5% posterior) |
| Tronco | 36% total (18% anterior + 18% posterior) |
| Cada membro inferior | 18% (9% anterior + 9% posterior) |
| Períneo e genitália | 1% |
O texto de referência desta disciplina classifica a gravidade em quatro categorias (atribuídas nesta apostila a uma “Escala de Correia”, cuja fonte não pôde ser confirmada — ver Nota de revisão, item 3):
| Categoria | %SCQ | % de 3º grau |
|---|---|---|
| Médios Queimados | Até 20% | < 6% |
| Graves Queimados | Até 40% | < 20% |
| Críticos | Até 70% | < 30% |
| Mortais | > 70% | > 30% |
📌 Para lembrar
A diretriz oficial AMB/CFM classifica a gravidade de forma diferente — por complexidade (Pequeno/Médio/Grande Queimado), com base em faixas etárias e percentuais específicos de 2º e 3º grau. Vale verificar qual escala seu serviço adota como protocolo institucional.
Fatores de pior prognóstico:
⚠️ Alerta de segurança
Não se deve aguardar queda da saturação de O₂ ou alteração gasométrica para indicar intubação em paciente com sinais de lesão inalatória. O edema de vias aéreas superiores é rápido e progressivo — a intubação deve ser profilática, guiada pelos sinais clínicos, não pelos exames complementares.
Queimaduras acima de 20% de SCQ exigem ressuscitação volêmica imediata. Fluido de escolha: cristaloide (Ringer Lactato). Colóides são contraindicados nas primeiras 24 horas.
Fórmula de Parkland: Volume (mL) = (2 a 4 mL) × %SCQ × Peso (kg)
⚠️ Erro comum
Contar as 8 horas a partir da chegada ao pronto-socorro, e não do momento do acidente. Se o paciente chega 2 horas após a queimadura, restam apenas 6 horas para infundir a primeira metade do volume calculado.
Metas de perfusão (o volume calculado é estimativa inicial; ajuste fino guiado pela diurese via SVD):
🩺 Correlação clínica
A escarotomia não é procedimento estético — é medida de urgência para preservar ventilação (tórax) ou perfusão (membros). Indicação clínica: perda de complãncia torácica progressiva, ou pulso distal enfraquecido/ausente em membro com escara circunferencial.
| Diagnóstico de Enfermagem | Foco assistencial |
|---|---|
| Volume de líquido deficiente / Débito cardíaco diminuído | Dois acessos venosos calibrosos; infundir Parkland com RL; SVD para diurese horária |
| Padrão respiratório ineficaz / Troca de gases prejudicada | Avaliar sinais de lesão inalatória; cabeceira elevada; oxigenoterapia ou VM invasiva se indicado |
| Dor aguda | Escalas de dor; analgesia/sedação potente IV antes dos curativos |
| Integridade da pele prejudicada / Risco de infecção | Técnica estéril; clorexidina 2% + sulfadiazina de prata 1%; monitorar exames, temperatura, secreções purulentas |
Questão 1. Homem, 24 anos, 70 kg, vítima de explosão de tacho de óleo quente há 2 horas. Queimaduras de 2º grau em toda a região anterior do tronco e em todo o membro superior direito (anterior + posterior).
Calcule a %SCQ, o volume de Parkland (constante 4 mL) e o plano de infusão.
Gabarito: SCQ = 18% (tronco anterior) + 9% (MSD completo) = 27%. Volume = 4 × 27 × 70 = 7.560 mL de RL em 24h. Como o acidente ocorreu há 2 horas, restam 6 horas das 8 iniciais: 3.780 mL nas próximas 6 horas (630 mL/h), seguidos de 3.780 mL nas 16 horas seguintes (236 mL/h).
Questão 2. Durante atendimento em ambiente fechado, o residente questiona se deve aguardar gasometria e SatO₂ < 90% para indicar intubação.
Por que essa conduta é inadequada? Cite quatro sinais de alarme.
Gabarito: Inadequada porque o edema de glote/vias aéreas superiores evolui rápida e progressivamente — aguardar o colapso respiratório pode impossibilitar a intubação convencional. A intubação deve ser profilática, guiada pelos sinais clínicos: cílios/sobrancelhas queimados, vibrissas nasais carbonizadas, escarro carbonáceo, rouquidão/estridor.
Questão 3. Paciente com queimaduras de 2º e 3º graus em membros recebendo sulfadiazina de prata e enfaixamento.
Antisséptico padrão? Como cobrir os dedos? Por quê?
Gabarito: Soro fisiológico 0,9% + clorexidina 2%. Dedos enfaixados individualmente, articulações em posição funcional — previne sindactilia e contraturas.
O atendimento ao grande queimado exige raciocínio sequencial: reconhecer a magnitude sistêmica de uma lesão aparentemente “local”, classificar corretamente profundidade e extensão, calcular e ajustar a ressuscitação volêmica pela diurese, antecipar a via aérea antes que o edema a torne inacessível, e conduzir os cuidados locais com técnica rigorosa para minimizar sequelas. Esta aula encerra a Seção 4 — Situações Especiais em Urgência e Emergência.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA; SOCIEDADE BRASILEIRA DE QUEIMADURAS. CFM e SBQ discutem ações para aprimorar prevenção e assistência a vítimas de queimaduras no Brasil. Portal Médico CFM, 2024.
ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA. Queimaduras: Diagnóstico e Tratamento Inicial (Diretrizes AMB/CFM).
AGÊNCIA BRASIL / MINISTÉRIO DA SAÚDE. Queimadura causa 14 mil internações no SUS de crianças e adolescentes. 2024.
PETERS, R. A. et al. Extracorporeal Membrane Oxygenation in a Patient with Severe Inhalation Injury. Journal of Burn Care & Research, v. 45, n. 3, p. 796-800, 2024. DOI: 10.1093/jbcr/irae027. PMID: 38367208.
WU, X. et al. Comparative effectiveness of topical agents in burn wound care. 2023. PMID: 36683314.
LŐRINCZ, A. et al. Comparative efficacy of dressings in partial-thickness burns. 2022. PMID: 35629287.
HUANG, Y. et al. Silver dressings versus alternatives in burn wound management. 2024. PMID: 38605441.
Nota metodológica: não foi possível confirmar, nas fontes disponíveis nesta sessão, a origem/nomenclatura da “Escala de Correia” citada no material original, nem uma fonte primária para a cifra de “90 a 100% de mortalidade” na lesão inalatória não identificada. Ambos os pontos permanecem como áreas de incerteza explicitamente sinalizadas.
🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.
👨⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
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