Suporte Ventilatório

Quando o Folego Humano Falha: Uma Jornada pelo Suporte Respiratório na UTI

Há momentos na Terapia Intensiva em que o corpo humano parece chegar ao limite da própria engenharia. O coração pode ainda bater, os rins podem ainda filtrar parcialmente, o cérebro pode ainda lutar para permanecer desperto, mas a respiração  esse movimento silencioso que sustenta a vida desde o primeiro choro  começa a falhar.

Na UTI, quando o “fole” do paciente se cansa, a equipe precisa agir com precisão. Não há espaço para romantismo técnico, nem para hesitação prolongada. O suporte respiratório é uma escada que deve ser subida com critério: começa, quando possível, pela ventilação não invasiva; avança para a proteção definitiva da via aérea com a intubação; pode exigir planejamento prolongado com a traqueostomia; e culmina no domínio dos modos ventilatórios, quando a máquina passa a participar diretamente da manutenção da vida.

Este capítulo é uma travessia por essas etapas.

A primeira barreira: ventilação não invasiva

A ventilação mecânica não invasiva, conhecida como VNI, é uma das estratégias mais elegantes da Terapia Intensiva moderna. Ela permite aplicar pressão positiva nas vias aéreas sem a necessidade de introduzir um tubo na traqueia. Em vez disso, utiliza máscaras faciais ou nasais, oferecendo suporte ao paciente sem romper completamente sua autonomia respiratória.

Quando bem indicada, a VNI é uma ponte poderosa. Ela ajuda o paciente a respirar melhor, reduz o trabalho dos músculos respiratórios e pode evitar uma intubação. Além disso, preserva funções importantes: o paciente pode falar, tossir e, em algumas situações, deglutir. Isso não é pouco. Em um ambiente onde tantos pacientes perdem a voz, manter a possibilidade de comunicação também é uma forma de preservar humanidade.

A VNI brilha especialmente em dois cenários clássicos: a exacerbação da doença pulmonar obstrutiva crônica, a DPOC, e o edema agudo de pulmão cardiogênico. Nessas situações, a pressão positiva pode corrigir mecanismos fisiopatológicos centrais: melhora a ventilação alveolar, reduz a retenção de gás carbônico, diminui o esforço respiratório e, no edema pulmonar cardiogênico, ajuda a reduzir a congestão pulmonar.

Mas nenhuma ferramenta é boa quando usada fora de hora.

A VNI exige vigilância. Ela não deve ser usada em pacientes com importante rebaixamento do nível de consciência, especialmente quando o Glasgow está abaixo de 12, em situações de agitação extrema, risco elevado de vômitos, instabilidade hemodinâmica grave, trauma de face ou incapacidade de proteger a via aérea.

Aqui mora uma das decisões mais difíceis do plantão: saber quando parar.

Insistir na VNI quando ela está falhando pode ser perigoso. O problema não é apenas a máscara. O problema é o tempo perdido. Cada minuto de atraso em um paciente que precisava ser intubado pode aumentar o risco de deterioração clínica, parada respiratória, instabilidade hemodinâmica e morte.

A falha da VNI deve ser suspeitada quando o paciente exige frações inspiradas de oxigênio cada vez maiores, especialmente acima de 60%; quando a frequência respiratória permanece muito elevada, acima de 35 incursões por minuto; quando a gasometria mostra piora do pH ou aumento progressivo do PaCO₂; quando há piora do nível de consciência, agitação crescente, arritmias, sinais de isquemia miocárdica, instabilidade hemodinâmica ou intolerância importante à máscara.

A VNI é uma aliada. Mas, quando ela falha, insistir pode transformar uma boa intenção em atraso terapêutico.

A proteção definitiva: intubação orotraqueal

Quando a ventilação não invasiva falha, ou quando o paciente já se apresenta com perda da proteção da via aérea, a conduta deve ser firme. A intubação orotraqueal deixa de ser opção e passa a ser necessidade.

Um paciente com Glasgow menor ou igual a 8, por exemplo, já não oferece segurança adequada quanto à proteção da via aérea. Ele pode broncoaspirar, obstruir a via aérea, deteriorar rapidamente ou simplesmente não conseguir manter ventilação e oxigenação compatíveis com a vida.

Na UTI, a intubação deve ser realizada de maneira planejada sempre que possível. A chamada sequência rápida de intubação envolve pré-oxigenação, sedoanalgesia e bloqueio neuromuscular. A ideia é reduzir o sofrimento, facilitar o procedimento, aumentar a chance de sucesso na primeira tentativa e diminuir complicações.

Entre os esquemas tradicionalmente utilizados, aparecem combinações como fentanil, midazolam e succinilcolina, esta última frequentemente usada na dose de 1 mg/kg por via intravenosa. Naturalmente, a escolha das drogas deve considerar o contexto clínico: choque, sepse, hipertensão intracraniana, broncoespasmo, instabilidade cardiovascular, risco de hipercalemia e outras particularidades.

Intubar não é apenas “passar um tubo”. É assumir a responsabilidade pela respiração de outro ser humano. É transformar uma via aérea ameaçada em uma via aérea protegida. É, muitas vezes, impedir que a deterioração respiratória se torne irreversível.

Traqueostomia: quando o cuidado precisa olhar para o futuro

Depois que o paciente é intubado, uma nova pergunta nasce no horizonte da equipe: por quanto tempo ele precisará de ventilação mecânica?

A intubação orotraqueal é excelente para o manejo inicial, mas não foi feita para permanecer indefinidamente. Tubos prolongados podem causar lesões laríngeas, desconforto, necessidade persistente de sedação, dificuldade de higiene brônquica, maior risco de complicações e atraso na reabilitação.

Quando se prevê necessidade de ventilação mecânica prolongada, a traqueostomia passa a ser considerada. Ela representa uma mudança de fase: deixa-se o manejo emergencial da via aérea e entra-se em um planejamento de médio e longo prazo.

A traqueostomia pode facilitar o desmame ventilatório, melhorar o conforto, permitir menor sedação, facilitar a aspiração de secreções e contribuir para a mobilização precoce. Em pacientes selecionados, pode reduzir complicações associadas à ventilação prolongada e ajudar a equipe a reorganizar o plano terapêutico.

Mais do que um procedimento, a traqueostomia é uma decisão estratégica. Ela exige discussão da equipe, avaliação prognóstica, comunicação com a família e entendimento do contexto global do paciente.

Na Terapia Intensiva, tratar não é apenas resolver a próxima hora. Muitas vezes, é antecipar os próximos dias.

O comando da máquina: entendendo os modos ventilatórios

Quando o paciente está intubado e conectado ao ventilador, entramos em uma nova dimensão do cuidado: a interação entre fisiologia humana e engenharia biomédica.

O ventilador mecânico não é apenas uma máquina que “joga ar para dentro”. Ele participa de um ciclo complexo composto por disparo, fase inspiratória, ciclagem e expiração. Em outras palavras: alguém ou algo inicia a respiração; o ar é entregue; a inspiração termina; e a expiração acontece.

A depender do estado clínico do paciente, da força muscular, da complacência pulmonar, da troca gasosa e do objetivo terapêutico, escolhemos diferentes modos ventilatórios.

Na ventilação controlada a volume, ou VCV, determinamos o volume corrente que desejamos entregar ao paciente. A máquina garante aquele volume, independentemente da pressão necessária para isso. O benefício é o controle do volume minuto. O risco é que, em pulmões rígidos ou inflamados, a pressão necessária para entregar esse volume se torne perigosamente alta.

Na ventilação com pressão controlada, ou PCV, fazemos o contrário: determinamos um limite de pressão, e o volume entregue passa a depender da complacência pulmonar e da resistência das vias aéreas. É um modo útil quando queremos limitar pressões, mas exige atenção constante ao volume corrente resultante.

Na pressão de suporte, ou PSV, o paciente participa mais ativamente. Ele dispara as respirações, define seu ritmo, e o ventilador apenas oferece uma pressão positiva inspiratória para reduzir o esforço muscular. Por isso, é um modo muito utilizado no processo de desmame da ventilação mecânica.

Já o CPAP mantém uma pressão positiva contínua nas vias aéreas. O paciente respira espontaneamente, mas recebe uma pressão que ajuda a manter os alvéolos abertos. É como se a máquina impedisse o colapso alveolar, sustentando uma base de pressão sobre a qual o paciente respira.

Cada modo tem sua beleza e seu perigo. A máquina pode salvar, mas também pode lesar. Por isso, o intensivista não deve apenas saber ligar o ventilador. Deve compreender o que está pedindo que ele faça.

A regra de ouro: proteger o pulmão

Em pacientes com pulmões inflamados, rígidos ou gravemente comprometidos, como ocorre na Síndrome da Angústia Respiratória Aguda, a SARA, o objetivo não é simplesmente normalizar números. O objetivo é ventilar sem destruir.

Esse é o princípio da ventilação protetora.

Na prática, utilizamos volumes correntes baixos, geralmente até 6 mL/kg de peso predito, e evitamos pressões de platô acima de 30 cmH₂O. Essa estratégia nasceu de uma compreensão fundamental: o ventilador, quando mal ajustado, pode piorar a lesão pulmonar. Pode hiperdistender alvéolos, gerar volutrauma, barotrauma, atelectrauma e biotrauma.

A boa ventilação mecânica é, portanto, uma arte de equilíbrio. Oxigenar sem agredir. Ventilar sem romper. Corrigir a gasometria sem perseguir a perfeição a qualquer custo.

Em Terapia Intensiva, muitas vezes o melhor número não é o número normal. É o número seguro.

Do suporte à responsabilidade

O caminho do suporte respiratório na UTI é uma jornada de decisões progressivas.

Primeiro, perguntamos: este paciente ainda consegue respirar com alguma ajuda? Se sim, talvez a VNI seja suficiente.

Depois, perguntamos: ele está protegendo a via aérea? Está consciente? Está melhorando? Se não, a intubação deve ser realizada sem atraso.

Em seguida, olhamos para o futuro: será uma ventilação breve ou prolongada? Há necessidade de traqueostomia?

Por fim, diante do ventilador, assumimos uma missão silenciosa: escolher o modo, ajustar parâmetros, interpretar curvas, acompanhar gasometrias, evitar lesões e conduzir o paciente, sempre que possível, de volta à respiração espontânea.

Porque, no fundo, a ventilação mecânica não é o destino. É uma ponte.

Uma ponte entre a falência e a recuperação. Entre o colapso e a estabilidade. Entre o silêncio de um pulmão cansado e a esperança de um novo fôlego.

Referências bibliográficas sugeridas

AZEVEDO, L. C. P. de et al. Medicina intensiva: abordagem prática. 4. ed. Barueri: Manole, 2020.

CALDEIRA FILHO, M.; WESTPHAL, G. A. (Coord.). Manual prático de medicina intensiva. 5. ed. São Paulo: Segmento Farma, 2008.

HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.

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SARMENTO, G. J. et al. Princípios e práticas da ventilação mecânica em adultos. 2. ed. Santana de Parnaíba: Manole, 2022.

VIANA, R. A. P. P.; WHITAKER, I. Y.; ZANEI, S. S. V. Enfermagem em terapia intensiva: práticas e vivências. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2020.

Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 838 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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