Vamos dissecar o quadro clínico deste paciente passo a passo, com um foco especial na Síndrome de Wellens, a verdadeira bomba-relógio que conseguimos desarmar a tempo.
Passo 1: O Cenário Clínico e os Fatores de Risco
Temos um paciente do sexo masculino, proveniente de São Mateus, que é uma verdadeira enciclopédia de fatores de risco para Doença Arterial Coronariana (DAC): hipertenso, diabético (em uso de Glimepirida) e dislipidêmico (em uso de Sinvastatina).
Ele se apresentou com uma dor torácica típica, irradiada para a região cervical e para o braço esquerdo, com piora aos esforços. Até aqui, muitos poderiam pensar que se trata de um infarto clássico em andamento. Mas a medicina exige um olhar muito mais apurado quando olhamos para o traçado elétrico do coração.
Passo 2: O Eletrocardiograma e a Síndrome de Wellens
Na clínica de origem, o eletrocardiograma (ECG) não mostrou aquele supradesnivelamento de ST clássico. Em vez disso, revelou um padrão plus-minus (bifásico) na derivação V2.
É aqui que quero que vocês gravem esta informação: esse padrão sutil é a assinatura da Síndrome de Wellens, descrita originalmente em 1982. Mas o que isso significa na fisiopatologia? Significa que há uma estenose crítica na artéria coronária descendente anterior (ACDA), frequentemente chamada na cardiologia de “artéria fazedora de viúvas”. A Síndrome de Wellens é uma variante da angina instável que, se não for reconhecida imediatamente, é fortemente preditiva de um infarto agudo do miocárdio (IAM) de parede anterior extenso e, muitas vezes, fatal.
Existem dois padrões eletrocardiográficos clássicos na Síndrome de Wellens:
- Ondas T bifásicas (plus/minus) em V2 e V3, que correspondem a cerca de 24% a 25% dos casos (que é exatamente o caso do nosso paciente).
- Ondas T profundamente invertidas e simétricas (o tipo mais comum, em cerca de 75% a 76% dos casos).
E aqui está o “detalhe de ouro” para a prova de residência e para a vida de vocês: essas manifestações no ECG ocorrem tipicamente quando o paciente está na ausência de dor anginosa.

Passo 3: A Conduta Imediata (O que NÃO fazer e o que FAZER)
A conduta na origem foi irretocável. Eles reconheceram o padrão, aplicaram uma dose de ataque duplo de antiagregantes plaquetários (300mg de AAS e 300mg de Clopidogrel) e acionaram a transferência via SAMU.
Atenção: Em hipótese alguma vocês devem pedir um teste ergométrico (esteira) para um paciente com esse padrão no ECG! Estratificar esses pacientes com teste de esforço é contraindicado pelo alto risco de desencadear um IAM fulminante. O caminho é um só: estudo hemodinâmico (coronariografia) precoce.
Passo 4: A Intervenção na Hemodinâmica
Assim que o paciente chegou, ele foi direto para a mesa de Hemodinâmica. O cateterismo confirmou a nossa suspeita: lesão crítica na ACDA. A equipe realizou uma angioplastia e implantou 1 stent farmacológico, com sucesso técnico absoluto e sem lesões residuais, acessando o coração através da artéria radial direita.
A Troponina dele foi registrada em 39,3 (biomarcador discretamente aumentado, o que bate com os critérios de Wellens).
Passo 5: O Pós-Operatório e a Falsa Sensação de Segurança
A cirurgia foi um sucesso. O paciente está lúcido, sem déficits neurológicos (Glasgow 15), eupneico em ar ambiente com saturação de 98% e diurese preservada. O Índice SOFA é zero. Podemos relaxar? Absolutamente não.
Existem dois alertas vermelhos vitais no exame físico atual deste paciente:
- A Bradicardia: O monitor acusa uma frequência cardíaca de 55 bpm (bradicardia relativa). Isso exige vigilância extrema, pois pode ser adaptação pós-reperfusão .
- O Risco de Sangramento: A anotação da técnica de enfermagem aponta que o curativo na artéria radial direita está folgado.
Lembrem-se da farmacologia: este homem está com o sangue “fino” devido ao uso de DAPT (AAS + Clopidogrel) e nós ainda prescrevemos profilaxia para trombose venosa profunda com Enoxaparina (40mg SC/dia). Se esse curativo frouxo ceder, ele pode ter um hematoma compressivo grave ou sangrar maciçamente no leito.
Conduta final da nossa visita: Vamos manter a dupla antiagregação e a vigilância hemodinâmica estrita. Façam o controle glicêmico rigoroso desse paciente diabético e, antes de qualquer outra coisa, reavaliem e refaçam o curativo compressivo da via radial direita agora mesmo.

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