Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ)
Objetivos de aprendizagem
Reconhecer o quadro clínico e as variantes da DCJ; descrever a fisiopatologia priônica; interpretar RM (DWI/FLAIR), EEG e biomarcadores liquóricos (RT-QuIC, 14-3-3, tau); aplicar os critérios diagnósticos atuais; discutir prognóstico e manejo paliativo.
1. Conceito e epidemiologia
A DCJ esporádica é a forma mais prevalente de doença priônica humana, uma encefalopatia espongiforme transmissível, rapidamente progressiva e invariavelmente fatal, causada pelo acúmulo da proteína príon mal dobrada (PrP^Sc) (Gao & Li, 2026 — DOI: 10.1007/s00415-026-13862-6). Formas: esporádica (~85%), genética (mutações PRNP), iatrogênica e variante (vCJD).
2. Fisiopatologia
Conversão conformacional de PrP^C (alfa-hélice) em PrP^Sc (folha beta), autocatalítica, resistente à proteólise, levando a degeneração espongiforme sem resposta inflamatória clássica (Gao & Li, 2026). Por isso marcadores inflamatórios costumam ser normais — o que reforça, e não afasta, a suspeita.
3. Quadro clínico
Demência rapidamente progressiva (semanas a poucos meses) + mioclonias + ataxia cerebelar + sinais piramidais/extrapiramidais + distúrbios visuais corticais. Caso ilustrativo: homem, 50 anos, 4 meses de disartria, hemiparesia, ataxia e mioclonias, evoluindo a óbito (Guennouni et al., 2025 — DOI: 10.1016/j.radcr.2025.02.007). Achado relevante: até 65 casos publicados mostraram autoanticorpos (anti-NMDAR, LGI1, CASPR2) coexistindo com DCJ confirmada, majoritariamente sem resposta a imunoterapia — sugerindo epifenômeno, não causa tratável (Bilavu et al., 2026 — DOI: 10.1016/j.jneuroim.2026.578865).
4. Diagnóstico
RM: hipersinal cortical/núcleos da base em DWI/FLAIR; RM inicial pode ser normal (Guennouni et al., 2025). EEG: descargas periódicas lateralizadas/generalizadas. LCR: RT-QuIC (maior acurácia, ~100% de positividade em série revisada), 14-3-3 (~93%) e tau total (~92%) (Bilavu et al., 2026; Ix, Dodel & Ross, 2026 — DOI: 10.1093/clinchem/hvag037). Diagnóstico definitivo é neuropatológico; na prática usa-se “provável”/”possível” combinando clínica + exames complementares.
5. Diagnóstico diferencial
Encefalite autoimune, demência com corpos de Lewy atípica, encefalopatias metabólicas/tóxicas, encefalite herpética, vasculite de SNC, demências paraneoplásicas.
6. Tratamento e prognóstico
Sem tratamento modificador comprovado; conduta de suporte e cuidados paliativos. Evolução fatal, geralmente em poucos meses (Guennouni et al., 2025).
7. Casos para discussão
1) Demência de 6 semanas + mioclonias + ataxia + RM inicial normal — a RM normal exclui DCJ?
2) DCJ confirmada por RT-QuIC + anti-TPO positivo — muda a conduta?
3) Baseado em caso publicado (Guennouni et al., 2025): homem, 50 anos, sem acesso a RT-QuIC por limitação de recursos, RM/EEG compatíveis — preenche critério de “provável”?
8. Perguntas de fixação
- Tétrade clínica clássica da DCJ.
- Por que RM inicial normal não exclui o diagnóstico?
- Biomarcador liquórico de maior acurácia hoje?
- Como interpretar autoanticorpos positivos num quadro sugestivo de DCJ?
- Base do tratamento atual da DCJ confirmada?
Referências (PubMed)
Gao, Y., & Li, P. (2026). J Neurol, 273(6). DOI: 10.1007/s00415-026-13862-6
Bilavu, R. et al. (2026). J Neuroimmunol, 413, 578865. DOI: 10.1016/j.jneuroim.2026.578865
Ix, M., Dodel, R., & Ross, J.A. (2026). Clin Chem, 72(8), 830–844. DOI: 10.1093/clinchem/hvag037
Guennouni, A. et al. (2025). Radiol Case Rep, 20(5), 2577–2580. DOI: 10.1016/j.radcr.2025.02.007

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