Trauma Abdominal: Da Avaliação Semiológica às Condutas de Emergência e Complicações Críticas — Versão 2.0

<str


Prof. Dr. Dário Santuchi — Médico, Mestre em Ciências da Saúde
Unidade 3 | Seção 3.1


Nota de revisão (transparência metodológica)

A estrutura e a profundidade do material original foram integralmente preservadas. A auditoria científica (5 pesquisas dedicadas, cruzando PubMed, StatPearls/NCBI Bookshelf e o consenso da WSACS) identificou os seguintes pontos que precisam de correção, contextualização ou declaração de limite — nenhum dado foi apagado silenciosamente.

Observação adicional de transparência: esta aula tem sobreposição temática relevante com a aula “Trauma de Abdome, Trauma Musculoesquelético e Afogamento” publicada anteriormente nesta mesma série , cuja Seção 3.1 também tratava de trauma abdominal — porém aquela versão foi construída a partir de um roteiro-resumo (sem texto integral disponível), enquanto esta é uma revisão completa do manuscrito integral fornecido, com nível de detalhe muito maior. Ambas coexistem como rascunhos distintos; recomenda-se decidir qual versão manter como definitiva antes da publicação.

  1. Correção conceitual importante — valor de PIA considerado “normal”. O material original afirma “PIA Normal: 10 a 15 mmHg”. Isso está incorreto: segundo o consenso da WSACS (Kirkpatrick et al., 2013) e o estudo de referência sobre valores basais de PIA (Malbrain et al., 2009, PMID 19242675), a PIA normal em adultos críticos é de aproximadamente 5-7 mmHg (podendo chegar a 9-14 mmHg em obesos mórbidos). O intervalo “10-15 mmHg” citado no material corresponde, na verdade, à Hipertensão Intra-abdominal Grau I já estabelecida pelo consenso — possível confusão com a pressão de insuflação do pneumoperitônio em laparoscopia (também 10-15 mmHg, mas valor terapêutico/artificial). Corrigido — é a correção mais importante desta revisão.
  2. Correção de limiar — “PIA acima de 30 mmHg” como indicação de descompressão. O consenso WSACS define SCA como PIA sustentada >20 mmHg associada a nova disfunção orgânica — esse é o critério diagnóstico-chave, não 30 mmHg. Há variação institucional real na literatura quanto ao ponto exato de intervenção cirúrgica (De Waele et al., 2006, PMID 16569255, descrevem limiares usados na prática entre 18 e 30 mmHg conforme o contexto). Ajustei o texto para apresentar o critério diagnóstico correto como referência central.
  3. Estatística “apenas 20% dos hemoperitônios apresentam achados clínicos claros”. Não foi possível localizar essa cifra específica em nenhuma fonte primária pesquisada. Substituí por dados reais sobre a confiabilidade limitada do exame físico isolado no trauma abdominal fechado (Rodriguez, DuPriest & Shatney, 1982, PMID 7125378; Ferrera et al., 1998, PMID 9517689 — sensibilidade de 82% mas valor preditivo positivo de apenas 21% para dor abdominal).
  4. LPD — “contraindicado” versus “não indicado” em ferimentos por arma de fogo. O material descreve o LPD como “formalmente contraindicado” em PAF. Segundo a fonte primária (Whitehouse & Weigelt, 2009), a única contraindicação absoluta do LPD é cirurgia abdominal prévia — PAF não consta como contraindicação. O termo correto é que o LPD não é utilizado/não está indicado em PAF, pois a alta probabilidade de penetração peritoneal já determina conduta cirúrgica independentemente do resultado do teste.
  5. Volume de infusão do LPD — confirmado. O volume de 1.000 mL para o adulto está corretamente citado (Whitehouse & Weigelt, 2009). Acrescentei nota de que, em pediatria, o volume é ajustado por peso (10-15 mL/kg).
  6. Órgãos mais lesados no trauma fechado — posição do rim. O material lista “baço, fígado, intestino delgado e rins” em sequência fixa. A fonte mais citada (StatPearls, NBK431087) menciona baço, fígado e alças intestinais como os mais frequentes, sem incluir o rim nessa lista principal — o rim é acometido em cerca de 10% dos traumas abdominais significativos, frequência real porém provavelmente inferior à posição fixa de “4º lugar” sugerida. Ajustei o texto.
  7. Todos os demais achados (mecanismos de trauma penetrante/contuso, sequência do exame físico, manejo de evisceração, manejo de objeto empalado — incluindo a fisiopatologia do efeito de tamponamento mecânico —, critérios microscópicos do LPD, mecanismo fisiopatológico da SCA sobre diafragma e rins, uso da Bolsa de Bogotá, e a estrutura da SAE) foram confirmados nas fontes pesquisadas e mantidos como no material original.

Objetivos de Aprendizagem

  1. Reconhecer o trauma abdominal como causa de morte evitável no politraumatizado e os fatores que mascaram seu diagnóstico precoce.
  2. Diferenciar os mecanismos de trauma abdominal penetrante e contuso quanto aos órgãos predominantemente lesados.
  3. Aplicar a sequência propedêutica correta do exame físico abdominal e correlacionar achados com gravidade.
  4. Executar as condutas corretas diante de evisceração traumática e de objeto empalado.
  5. Interpretar os critérios de positividade do Lavado Peritoneal Diagnóstico e reconhecer suas indicações e limitações atuais.
  6. Diagnosticar e conduzir a Síndrome Compartimental Abdominal, aplicando corretamente os valores de referência da Pressão Intra-abdominal.

1. Introdução e o Desafio Clínico do Trauma Abdominal

O traumatismo abdominal é uma das condições mais desafiadoras e traicoeiras na medicina de urgência. A incidência desses eventos vem crescendo progressivamente, e a sua gravidade é determinada pela lesão de estruturas vasculares ou órgãos vitais da cavidade, além da frequente associação com traumas de crânio e tórax.

A lesão intra-abdominal não diagnosticada precocemente continua sendo uma das causas mais comuns de morte evitável no politraumatizado. O grande perigo clínico reside no fato de que os sinais iniciais podem ser extremamente discretos, mascarados pela dor de lesões extra-abdominais associadas, encobertos por rebaixamento do nível de consciência devido a traumatismo cranioencefálico ou pelo uso de substâncias entorpecentes.

O exame físico isolado, no trauma abdominal fechado, tem confiabilidade limitada: estudos prospectivos mostram alta taxa de achados falso-negativos e falso-positivos, com sensibilidade da dor/sensibilidade abdominal em torno de 82% mas valor preditivo positivo de apenas 21% — ou seja, um exame inicial tranquilizador não exclui lesão intra-abdominal significativa. Como a cavidade abdominal é um reservatório complaível capaz de abrigar grandes perdas ocultas de sangue, qualquer vítima de desaceleração brusca ou ferimento penetrante no tronco deve ser considerada portadora de lesão de vísceras ou grandes vasos até que se prove o contrário.

💡 Conceito-chave
Um exame físico abdominal normal, isoladamente, NÃO exclui lesão intra-abdominal grave. É por isso que métodos complementares (FAST, TC, e em cenários específicos o LPD) são indicados mesmo diante de exame inicial pouco expressivo, especialmente em vítimas de trauma de alta energia.


2. Cinemática e Mecanismos de Lesão

Os traumatismos abdominais decorrem de diversos mecanismos de transferência de energia mecânica, incluindo acidentes automobilísticos, atropelamentos, quedas, agressões físicas e ferimentos por armas brancas ou de fogo.

  • Trauma Aberto (Penetrante): caracteriza-se pela violação da integridade da parede abdominal por agentes vulnerantes, sendo os ferimentos por projéteis de arma de fogo (PAF) ou armas brancas os principais causadores. Os órgãos mais frequentemente lesionados nesse cenário são o intestino delgado, o mesentério, o fígado, o cólon e o baço.
  • Trauma Fechado (Contuso): resulta da aplicação de forças de compressão ou desaceleração súbita (como o uso incorreto do cinto de segurança). Nesse caso, as lesões de outros segmentos corporais (tórax, membros, crânio) podem desviar a atenção e mascarar o quadro interno. Os órgãos mais acometidos no trauma fechado são, classicamente, o baço, o fígado e as alças intestinais; o rim também pode ser acometido (em cerca de 10% dos traumas abdominais significativos), embora a literatura não sustente uma posição fixa de “quarto órgão mais lesado” para ele.

3. Abordagem Inicial (ABCDE) e Propedêutica Abdominal

Na abordagem de emergência ao doente com suspeita de trauma abdominal, o objetivo imediato não é estabelecer um diagnóstico nosológico específico, mas sim determinar se existe indicação de intervenção cirúrgica imediata para garantir a sobrevida.

A sequência sistemática do ABCDE deve ser rigorosamente respeitada, com especial atenção ao controle hemodinâmico e respiratório. Durante a avaliação secundária, coleta-se a história clínica rápida pelo método SAMPLA (pesquisando sinais/sintomas, alergias, medicamentos em uso, passado médico, última ingestão de líquidos/alimentos e o ambiente/mecanismo do evento).

O exame físico do abdome deve ser minucioso e executado na sequência propedêutica correta:

  1. Inspeção: observar a forma do abdome, presença de distensão abdominal progressiva, ferimentos penetrantes, hematomas, escoriações ou eviscerações.
  2. Ausculta: avaliar a presença e a qualidade dos Ruídos Hidroaéreos (RHA). O silêncio abdominal pode sugerir íleo paralítico ou peritonite.
  3. Percussão: pesquisar áreas de timpanismo, macicez (sugestiva de líquido livre/sangue) e, principalmente, a presença de dor exacerbada pelo teste de descompressão brusca.
  4. Palpação: é a manobra mais importante do exame físico no trauma. Permite identificar rigidez da parede, massas, corpos estranhos, dor localizada e sinais inequívocos de peritonite (irritação peritoneal).

⚠️ Achado Crítico
Um abdome distendido, tenso e com descompressão brusca positiva é um forte indicativo de hemoperitônio ou extravasamento de conteúdo entérico, configurando irritação peritoneal severa. O exame deve incluir ainda a avaliação da região pélvica, anal, vaginal e peniana. Lembre-se, porém: a ausência desses sinais clássicos não descarta lesão — o exame físico isolado tem sensibilidade limitada.


4. Condutas Práticas em Situações de Emergência

Manejo de Eviscerações

A evisceração ocorre quando há a herniação e exposição de órgãos internos (vísceras) através de uma ruptura da parede abdominal. Diante desse cenário grave, a equipe assistencial deve adotar as seguintes condutas:

  • Manter a vítima em decúbito dorsal.
  • Nunca tentar reintroduzir as vísceras expostas para o interior da cavidade abdominal. Essa tentativa pode causar lacerações, isquemia e contaminação massiva.
  • Cobrir imediatamente as vísceras com compressas estéreis abundantemente umedecidas em solução salina (soro fisiológico 0,9%) para evitar o ressecamento do tecido.
  • Realizar um curativo oclusivo frouxo, sem aplicar qualquer tipo de pressão sobre as vísceras expostas.
  • O tratamento definitivo consiste na realização de uma Laparotomia Exploradora (LPE) cirúrgica de urgência para reposição dos órgãos e reparo da parede.

Manejo de Objetos Empalados

Se o paciente for admitido com um objeto encravado (faca, vergalhão, etc.) na parede abdominal:

  • Nunca retire o objeto empalado na cena ou no pronto-socorro. A retirada intempestiva pode abolir o efeito de tamponamento mecânico exercido pelo objeto sobre grandes vasos, desencadeando uma hemorragia interna maciça e incontrolável — mecanismo bem documentado na literatura de trauma.
  • A conduta consiste na fixação e imobilização do objeto por meio de curativos e coxins, para evitar sua movimentação e maior dano tecidual durante o transporte.
  • A remoção do objeto deve ser feita estritamente no centro cirúrgico, sob visualização direta durante o ato operatório.

5. Lavado Peritoneal Diagnóstico (LPD)

O Lavado Peritoneal Diagnóstico (LPD) é um método rápido de triagem invasiva utilizado para identificar lesões intraperitoneais e sangramento livre na cavidade. É indicado em traumatismos abdominais fechados ou ferimentos por arma branca que violaram a aponeurose anterior. Em ferimentos por projéteis de arma de fogo, o LPD não está indicado/não é utilizado — não por se tratar de procedimento contraindicado ou perigoso (a única contraindicação absoluta reconhecida é cirurgia abdominal prévia), mas porque a alta probabilidade de penetração peritoneal nesse mecanismo já determina, na maioria dos casos, indicação cirúrgica independentemente do resultado do teste.

Critérios Macroscópicos (Qualitativos):
Aspiração direta de sangue franco ou conteúdo entérico na introdução do cateter.
Retorno de líquido francamente avermelhado ou hemático após a infusão de 1.000 mL de solução salina aquecida na cavidade (volume padrão para adultos; em crianças, ajusta-se para 10-15 mL/kg).

Critérios Microscópicos (Quantitativos):
Presença de hemácias (acima de 100.000/mm³ no trauma contuso) ou leucócitos (acima de 500/mm³).
Detecção de amilase, bile ou bactérias no líquido recuperado.


6. Síndrome Compartimental Abdominal (SCA)

A Síndrome Compartimental Abdominal (SCA) é uma complicação pós-traumática grave decorrente do edema maciço dos tecidos intra-abdominais, acúmulo de líquido livre ou hemoperitônio, resultando na elevação sustentada da Pressão Intra-abdominal (PIA).

Mecanismo Fisiopatológico

A elevação da PIA comprime diretamente a microcirculação das vísceras abdominais, prejudicando a perfusão tecidual e levando à isquemia, translocação bacteriana, acidose metabólica e, eventualmente, necrose de órgãos. Além disso, a pressão empurra o diafragma para cima, comprimindo a cavidade torácica.

Reconhecimento Clínico

O profissional de saúde deve suspeitar de SCA ao identificar: abdome extremamente tenso, rígido e distendido; dificuldade de ventilação, com elevação aguda das pressões de pico nas vias aéreas do ventilador mecânico; dispneia importante e hipoxemia refratária; oliúgria progressiva (decorrente da compressão direta dos rins e queda do fluxo sanguíneo renal).

Diagnóstico e Conduta (valorescorrigidos conforme consenso WSACS)

O diagnóstico de certeza é feito pela mensuração da PIA (geralmente realizada de forma indireta pela pressão intravesical através de uma sonda urinária).

Quadro 1 — Valores de referência da Pressão Intra-abdominal (WSACS)

ClassificaçãoPIA (mmHg)
PIA normal (adulto crítico)< 5 a 7
Hipertensão Intra-abdominal Grau I12 – 15
Hipertensão Intra-abdominal Grau II16 – 20
Hipertensão Intra-abdominal Grau III21 – 25
Hipertensão Intra-abdominal Grau IV> 25
Síndrome Compartimental Abdominal> 20, associada a nova disfunção orgânica

Diante de PIA sustentada acima de 20 mmHg associada a disfunção orgânica nova (respiratória, renal ou hemodinâmica), configura-se SCA, com indicação de intervenção descompressiva cirúrgica — a peritoneostomia (abertura do peritônio para aliviar a pressão). Vale registrar que há variação institucional real quanto ao ponto exato de decisão cirúrgica em cenários específicos (por exemplo, protocolos de pancreatite aguda grave ou grandes queimados por vezes utilizam limiares mais altos, entre 25 e 30 mmHg), mas o critério diagnóstico central da SCA — o que deve ser fixado pelo estudante — permanece a PIA sustentada acima de 20 mmHg associada a disfunção orgânica.

Para manter a cavidade abdominal aberta de forma estéril e sem compressão, instala-se uma Bolsa de Bogotá (um dispositivo plástico que protege as alças intestinais sem exercer tensão). A taxa de mortalidade nessa complicação é historicamente muito alta se o tratamento for retardado.

Cuidados de Enfermagem com a Bolsa de Bogotá

  1. Realizar a lavagem minuciosa da cavidade e das bordas com solução salina estéril 0,9% em abundância.
  2. De acordo com a avaliação do tecido das bordas, aplicar curativos biológicos ou complementares (como AGE ou hidrogel) para favorecer a cicatrização.
  3. Proteger a pele circundante, cobrir a primeira camada interna com compressas estéreis umedecidas e finalizar com um curativo oclusivo seco.
  4. Monitorar continuamente e registrar a presença de secreções, integridade da bolsa, características dos tecidos e dos órgãos internos expostos.

 


7. Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)

Para estruturar um cuidado de alta performance, a equipe de enfermagem deve formular os planos de cuidado baseados nos principais Diagnósticos de Enfermagem (DE):

  • Dor aguda relacionada à lesão tecidual.
  • Risco de sangramento devido a lesões vasculares ou de órgãos maciços.
  • Perfusão tissular gastrointestinal ineficaz relacionada ao aumento da PIA ou estado de choque.
  • Débito cardíaco diminuído decorrente de choque hipovolêmico ou obstrutivo (compressão de veia cava pela PIA/SCA).
  • Integridade da pele/tecido prejudicada secundária a ferimentos penetrantes ou eviscerações.

Prescrição de Enfermagem / Intervenções Imediatas

  1. Monitorização Multiparâmetros: avaliar rigorosamente a frequência cardíaca (FC), pressão arterial (PA), frequência respiratória (FR), padrão respiratório e saturação de O₂.
  2. Oxigenoterapia: instalar oxigênio sob máscara de fluxo se a saturação estiver abaixo de 94%, avaliando continuamente a resposta respiratória.
  3. Acessos Venosos Calibrosos: garantir no mínimo dois acessos periféricos calibrosos (Gelco 14 ou 16) para coleta de exames laboratoriais (hemograma, amilase, eletrólitos, função renal e coagulograma) e tipagem sanguínea com reserva de hemocomponentes.
  4. Sondagem Vesical e Gástrica: realizar a passagem de sonda nasogástrica (para descompressão do estômago, diminuindo o risco de broncoaspiração) e sonda vesical de demora (para controle rigoroso do débito urinário e monitorização da perfusão renal), registrando minuciosamente o aspecto e o volume dos débitos.
  5. Apoio e Preparo de Procedimentos: preparar materiais e auxiliar o médico em procedimentos invasivos como o LPD, monitorando ativamente o paciente para exames de imagem e preparando-o fisicamente para cirurgia de urgência (LPE).

Questões de Fixação do Professor

Questão 1. Um paciente de 24 anos é admitido na sala vermelha após ser vítima de ferimento penetrante por arma branca no flanco esquerdo. Ao exame físico, apresenta-se consciente, taquicárdico (FC = 124 bpm), hipotenso (PA = 82 x 45 mmHg) e com sudorese fria. À inspeção abdominal, o enfermeiro visualiza a exposição de aproximadamente 30 centímetros de alças de intestino delgado através do ferimento. Com base no protocolo assistencial para eviscerações, descreva a conduta imediata que a equipe de saúde deve adotar à beira do leito em relação às alças expostas e identifique qual o tratamento cirúrgico definitivo indicado para este caso.

Gabarito comentado: a conduta imediata consiste em manter o paciente em decúbito dorsal, nunca tentar reintroduzir as alças expostas para o interior da cavidade abdominal, cobrir as alças imediatamente com compressas estéreis umedecidas abundantemente com soro fisiológico morno ou em temperatura ambiente, e realizar um curativo oclusivo frouxo sem exercer pressão. O tratamento cirúrgico definitivo indicado para este caso é a Laparotomia Exploradora (LPE) de urgência para lavagem da cavidade, reparo de eventuais lesões viscerais ou vasculares e fechamento primário da parede.

Questão 2. Durante o plantão na Unidade de Terapia Intensiva, o enfermeiro monitora um doente em pós-operatório de trauma abdominal contuso grave. O paciente está sob ventilação mecânica invasiva e apresenta distensão abdominal importante, com a parede do abdome extremamente tensa à palpação. Nas últimas 3 horas, o ventilador passou a disparar alarmes frequentes de alta pressão de pico nas vias aéreas, a saturação de oxigênio caiu de 98% para 90% e o débito urinário reduziu para 15 mL/hora (oligúria). A pressão vesícal medida é de 24 mmHg. Explique a correlação fisiopatológica entre a distensão abdominal tensa e as alterações respiratórias e renais observadas, cite qual a suspeita diagnóstica e descreva a conduta indicada.

Gabarito comentado: a suspeita diagnóstica é de Síndrome Compartimental Abdominal (SCA). A elevação da Pressão Intra-abdominal (PIA) gera um mecanismo de compressão direta: empurra mecanicamente o diafragma para cima em direção ao tórax, reduzindo a complacência pulmonar, elevando as pressões nas vias aéreas do ventilador e gerando hipoxemia. Simultaneamente, o aumento da pressão intra-abdominal comprime diretamente os rins e as veias renais, diminuindo o fluxo sanguíneo renal e a taxa de filtração glomerular, o que resulta em oligúria. Com PIA de 24 mmHg (portanto, sustentadamente acima de 20 mmHg) associada a duas disfunções orgânicas novas (respiratória e renal), o quadro já preenche o critério diagnóstico de SCA propriamente dita — e não apenas hipertensão intra-abdominal — havendo indicação de intervenção descompressiva cirúrgica de urgência (peritoneostomia), mantendo a cavidade aberta protegida por uma Bolsa de Bogotá, para restaurar a perfusão orgânica.

Questão 3. Um médico plantonista solicita o material para realização de um Lavado Peritoneal Diagnóstico (LPD) em um paciente vítima de capotamento automobilístico de alta energia que apresenta sinais de choque hemodinâmico, mas cujos exames físicos iniciais de imagem (ultrassom FAST) foram inconclusivos. Explique em quais tipos de trauma o LPD é indicado, por que ele não é utilizado em ferimentos por projétil de arma de fogo, e descreva os critérios macroscópicos imediatos que caracterizam um LPD positivo.

Gabarito comentado: o LPD é um método diagnóstico indicado em casos de traumatismo abdominal contuso (fechado) ou ferimentos penetrantes por arma branca que violaram a aponeurose anterior. Ele não é utilizado em ferimentos por projétil de arma de fogo (PAF) — não por representar risco ou ser proibido, mas porque a alta probabilidade de penetração peritoneal nesse mecanismo já determina, na maioria das vezes, indicação cirúrgica (laparotomia) independentemente do resultado do teste, tornando-o redundante nesse cenário específico. Os critérios macroscópicos imediatos que caracterizam o LPD positivo são a aspiração direta de sangue franco ou conteúdo gastrointestinal através do cateter durante a inserção, ou o retorno de líquido francamente avermelhado/hemático após a infusão de 1.000 mL de solução salina na cavidade peritoneal.


Considerações finais

O trauma abdominal exige do profissional de saúde uma vigilância que vai além do óbvio: o exame físico normal não tranquiliza, o pulso presente não descarta gravidade, e a “PIA normal” ensinada errada pode atrasar o reconhecimento de uma complicação letal. Como mostra a correção mais importante desta revisão — o valor real de PIA normal versus o que já configura hipertensão intra-abdominal —, até os números mais repetidos em sala de aula merecem ser periodicamente verificados contra a fonte primária.


Referências

Diretrizes e consensos

WSACS — WORLD SOCIETY OF THE ABDOMINAL COMPARTMENT SYNDROME (KIRKPATRICK, Andrew W. et al.). Intra-abdominal hypertension and the abdominal compartment syndrome: updated consensus definitions and clinical practice guidelines. Intensive Care Medicine, v. 39, n. 7, p. 1190-1206, 2013. PMID: 23673399. DOI: 10.1007/s00134-013-2906-z.

MALBRAIN, Manu L. N. G. et al. What is normal intra-abdominal pressure and how is it affected by positioning, body mass and positive end-expiratory pressure? Intensive Care Medicine, 2009. PMID: 19242675.

Ensaios clínicos e revisões (PubMed)

WHITEHOUSE, Jason S.; WEIGELT, John A. Diagnostic peritoneal lavage: a review of indications, technique, and interpretation. Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine, v. 17, p. 13, 2009. PMID: 19267941. DOI: 10.1186/1757-7241-17-13.

RODRIGUEZ, A.; DuPRIEST, R. W.; SHATNEY, C. H. Recognition of intra-abdominal injury in blunt trauma victims. The American Surgeon, v. 48, n. 9, p. 457-459, 1982. PMID: 7125378.

FERRERA, Peter C. et al. Physical examination in patients with blunt abdominal trauma. American Journal of Emergency Medicine, v. 16, n. 2, p. 145-149, 1998. PMID: 9517689. DOI: 10.1016/S0735-6757(98)90032-8.

DE WAELE, Jan J. et al. Decompressive laparotomy for abdominal compartment syndrome — a critical analysis. Critical Care, v. 10, n. 2, R51, 2006. PMID: 16569255.

MONTALVO-JAVE, Eduardo E. et al. Abdominal Compartment Syndrome — When Is Surgical Decompression Needed? 2021. PMID: 34943530.

Livros-texto

STATPEARLS. Blunt Abdominal Trauma; Penetrating Abdominal Trauma; Abdominal Compartment Syndrome; Focused Assessment With Sonography for Trauma. Treasure Island: StatPearls Publishing. Disponível em NCBI Bookshelf.


🔹 INFORME IMPORTANTE
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.

👨‍⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
www.dariosantuchi.com.br
@santuchi.dario

Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 853 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*