TAVI: o que é a troca da válvula aórtica sem abrir o peito

Até poucos anos atrás, trocar a válvula do coração significava cirurgia de peito aberto

Até poucos anos atrás, trocar a válvula aórtica do coração significava, quase sempre, cirurgia de peito aberto, parada do coração em uma máquina de circulação extracorpórea e semanas de recuperação. Hoje, para uma parcela crescente de pacientes, esse cenário mudou. Neste texto, explico de forma simples o que é o TAVI, quando ele é indicado e o que dizem os estudos mais recentes sobre esse procedimento.

Qual problema o TAVI resolve?

O motivo mais comum para trocar a válvula aórtica é a estenose aórtica, o estreitamento dessa válvula, que fica entre o ventrículo esquerdo e a artéria aorta. Com o envelhecimento, ela pode calcificar e endurecer, dificultando a passagem do sangue para o resto do corpo.

Os sintomas mais típicos são falta de ar aos esforços, cansaço, tontura, desmaios e dor no peito. Quando a estenose se torna importante e sintomática, remédios ajudam a controlar sintomas, mas não resolvem o estreitamento em si. Nesses casos, o tratamento definitivo é a troca da válvula.

O que é o TAVI

TAVI é a sigla em inglês para Transcatheter Aortic Valve Implantation, ou implante valvar aórtico por cateter. Em vez de abrir o tórax, o cardiologista intervencionista, também chamado de hemodinamicista, introduz um cateter fino, geralmente pela artéria da virilha (via femoral), e leva até o coração uma nova válvula dobrada, que se expande e passa a funcionar no lugar da válvula doente.

O coração continua batendo durante boa parte do procedimento, sem a necessidade da circulação extracorpórea usada na cirurgia aberta. Isso costuma significar recuperação mais rápida e internação mais curta, embora o tempo exato varie de paciente para paciente.

O que as evidências mais recentes mostram

Quando o TAVI surgiu, há pouco mais de duas décadas, era reservado a pacientes com risco cirúrgico alto ou proibitivo, aqueles que dificilmente resistiriam a uma cirurgia aberta. Esse cenário vem mudando nos últimos anos.

Um estudo alemão publicado em 2024 no New England Journal of Medicine, o DEDICATE-DZHK6, acompanhou 1.414 pacientes com estenose aórtica grave e risco cirúrgico baixo a intermediário, randomizados para TAVI ou cirurgia convencional. Em um ano, a combinação de morte por qualquer causa ou AVC ocorreu em 5,4% dos pacientes do grupo TAVI, contra 10,0% no grupo cirurgia, confirmando que o TAVI não foi inferior à cirurgia também nessa população de risco mais baixo (BLANKENBERG et al., 2024). Uma análise do mesmo estudo, publicada em 2026 no European Heart Journal, mostrou que esse benefício se manteve tanto em homens quanto em mulheres (BLEIZIFFER et al., 2026). Vale registrar que esses são resultados de um ano de seguimento, os desfechos de longo prazo do mesmo estudo, com cinco anos de acompanhamento, ainda estão em andamento (SEIFFERT et al., 2023).

Uma dúvida frequente dos pacientes é sobre a durabilidade da nova válvula. Um estudo japonês, também publicado este ano, acompanhou pacientes por dez anos após o TAVI e encontrou deterioração estrutural grave da válvula em apenas 3,0% dos casos nesse período, com a maioria das mortes relacionada a outras doenças do paciente, não à válvula em si (IKUTA et al., 2026).

Quem é candidato ao TAVI

A indicação de TAVI ou cirurgia continua sendo decisão do heart team, a equipe multidisciplinar formada por cardiologista clínico, hemodinamicista e cirurgião cardíaco, que avalia a anatomia da válvula, o grau de calcificação, as comorbidades, a expectativa de vida e a preferência do próprio paciente.

O TAVI não é indicado para toda estenose aórtica. Algumas anatomias valvares específicas, ou a necessidade de tratar outro problema ao mesmo tempo, como trocar uma segunda válvula ou fazer revascularização do coração, ainda podem ser mais bem resolvidas pela cirurgia tradicional. Por isso a avaliação precisa ser individual.

O que fazer se você desconfia de um problema na válvula

Se você ou alguém da sua família tem diagnóstico de estenose aórtica, ou sintomas como falta de ar, cansaço ou tontura aos esforços, o primeiro passo é uma avaliação com um cardiologista, que vai investigar a causa com exame clínico e ecocardiograma e, se for o caso, encaminhar para a equipe de hemodinâmica.

Ficou com dúvidas sobre o TAVI? Deixe nos comentários.

Referências

  1. BLANKENBERG, S. et al. Transcatheter or Surgical Treatment of Aortic-Valve Stenosis. The New England Journal of Medicine, v. 390, n. 17, p. 1572-1583, 2024. DOI: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2400685.
  2. BLEIZIFFER, S. et al. Sex-specific outcomes after transcatheter or surgical treatment of aortic valve stenosis: the DEDICATE-DZHK6 trial. European Heart Journal, v. 47, n. 11, p. 1339-1353, 2026. DOI: https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehaf519.
  3. SEIFFERT, M. et al. Transcatheter aortic valve implantation versus surgical aortic valve replacement in patients at low to intermediate surgical risk: rationale and design of the randomised DEDICATE Trial. EuroIntervention, v. 19, n. 8, p. 652-658, 2023. DOI: https://doi.org/10.4244/EIJ-D-23-00232.
  4. IKUTA, A. et al. Ten-Year Clinical Outcomes and Valve Durability After Transcatheter Aortic Valve Implantation With Balloon-Expandable Valves. JACC: Asia, v. 6, n. 9, p. 1917-1928, 2026. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jacasi.2026.02.003.

 

🔹 INFORME IMPORTANTE

Este conteúdo tem caráter educativo e informativo e não substitui uma consulta médica presencial ou por telemedicina. Cada pessoa é única e necessita de avaliação individualizada por um(a) profissional habilitado(a). Caso apresente sintomas ou dúvidas específicas sobre sua saúde, procure atendimento médico.

👨‍⚕️ Autor Dr. Dário Santuchi
Médico Cardiologista e Especialista em Clínica Médica
Mestre em Ciências da Saúde
CRM-ES 11491 • RQE 10191 • RQE 13520
www.dariosantuchi.com.br

Sobre Dario Santuchi 860 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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