Este documento sintetiza as teses centrais da obra “Sociologia Fundamental e Ética Fundamental” de Mário Ferreira dos Santos, que articula uma visão integrada das ciências sociais e da filosofia moral. A premissa fundamental do autor é que a Sociologia é, em sua essência, uma disciplina ética, e a Ética, por sua vez, é uma ciência ontológica cujo objeto é o “dever-ser” — as normas invariantes que regem a perfeição dos seres. Utilizando o método da “Filosofia Concreta”, Santos critica vigorosamente as filosofias que ele considera abstratas e unilateralistas, como o psicologismo, o biologismo, o contratualismo e o materialismo histórico, por reduzirem a complexidade do fato social e do ato moral a apenas um de seus múltiplos fatores.
Os principais pontos abordados incluem:
- A Distinção entre Ética e Moral: Enquanto a Ética se dedica ao estudo das leis eternas e invariantes do dever-ser, a Moral analisa os costumes variantes e históricos, que são vistos como “símbolos” das verdades éticas subjacentes.
- A Natureza da Sociedade: A sociedade humana não é um mero contrato (Rousseau) nem um organismo biológico (Spencer), mas uma estrutura coerente de indivíduos que tendem a um fim ético comum. Sua coesão, ou “tensão”, depende de relações sociais positivas.
- Autoridade e o Estado: O autor distingue a autoridade intrínseca do grupo (o “termo comum” que o une) da autoridade extrínseca sobre o grupo (o poder ou kratos do Estado). O Estado é apresentado como um “mal necessário”, uma instituição que surge da deficiência da coesão social e que tende perigosamente ao monopólio da força e à burocratização.
- Fundamento da Ética: O ato eticamente humano é aquele que é frustrável pela vontade livre. A finalidade última do homem é a felicidade perfeita, que não se confunde com o bem-estar material e só pode ser encontrada na união com o Ser Supremo, um objetivo inalcançável nesta vida.
- Livre-Arbítrio e Virtude: A liberdade de escolha (livre-arbítrio) é o pilar da responsabilidade moral e a “glória do homem”. O caminho para a perfeição humana se dá através da prática harmoniosa das virtudes cardeais (prudência, justiça, fortaleza, temperança), complementadas pelas virtudes teologais (fé, esperança, caridade), que possuem uma origem transcendente.
Em suma, a obra propõe um sistema filosófico robusto que busca fundamentar a vida social e moral em princípios ontológicos concretos, transcendendo as limitações das teorias empíricas e racionalistas para oferecer uma visão integral do homem e de seu destino.
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Análise da Sociologia Fundamental
1. Definição e Objeto da Sociologia
Mário Ferreira dos Santos define a Sociologia de forma distinta das correntes de sua época, posicionando-a como uma disciplina intrinsecamente ética e concreta.
- Sociologia como Ciência Ética: A sociologia não se limita a descrever as relações humanas; ela estuda o “dever-ser” dessas relações. A sociedade humana tende para um fim que deve ser, o bem comum, tornando a sociologia uma disciplina subordinada à Ética.
- Definição do Autor: “A Sociologia é a ciência ética que estuda as causas, a ordem, o processamento, e as múltiplas relações das formas sociais entre si e o contôrno natural, com o intuito de apreender-lhes as invariantes e os fins a que tendem ou a que podem ser conduzidas”.
- Crítica a Outras Definições: O autor considera as definições clássicas incompletas por serem abstratas e reducionistas:
- Auguste Comte (“Ciência positiva das leis fundamentais dos fenômenos sociais”): Verdadeira, mas ignora os aspectos formal e final da sociedade.
- Herbert Spencer (“Ciência da evolução social”): Padece do mesmo defeito.
- Georg Simmel (“Ciência das formas sociais”): Considera os aspectos material e formal, mas não estabelece a finalidade.
- O Fato Social: É qualitativamente diferente do fato psicológico. Reduzir o social ao psicológico é um erro de “psicologismo”. O fato social deve ser compreendido concretamente, como resultado da interação de múltiplos fatores:
- Fatores Emergentes (Intrínsecos): Bionômicos (matéria) e psíquicos (forma).
- Fatores Predisponentes (Extrínsecos): Ecológicos (ambiente) e histórico-sociais (cultura, sociedade).
2. A Estrutura da Sociedade
A sociedade é analisada através de seus componentes fundamentais: as relações, os grupos e as técnicas de interação.
- Relações Sociais: São influências recíprocas entre os seres humanos. Podem ser classificadas como:
- Positivas: Trazem vantagens para todas as partes envolvidas, sendo justas e construtoras de coesão.
- Negativas: A vantagem de uma parte ocorre em detrimento da outra, gerando discórdia e conflito. São a raiz da “questão social”.
- Técnica Social: Meios sistemáticos para influir sobre os homens.
- Força (Constrangimento): Violência física, intimidação, coação. Gera relações negativas.
- Persuasão: Convencimento através de argumentos, sedução ou ensinamento. Tende a formar relações positivas.
- Troca de Vantagens: Relações bilaterais baseadas na troca de serviços ou bens.
- Grupos Sociais: Definidos como um conjunto de indivíduos unidos por relações sociais positivas e complementares.
- Formação: Surgem a partir de um “termo comum” que une os indivíduos, como um interesse, valor ou objetivo compartilhado.
- Tensão: A coesão ou coerência de um grupo é chamada de “tensão”. Sua força depende da qualidade e quantidade das relações positivas e complementares.
- Intensidade e Extensidade: Os grupos variam em:
- Intensidade: O grau de coerência interna (in-tensão).
- Extensidade: O número de membros e o alcance geográfico (ex-tensão).
3. Teorias sobre a Origem da Sociedade
O autor analisa e critica as principais teorias sobre a origem da sociedade, rejeitando-as por seu caráter unilateral, para então propor sua própria visão sintética.
| Teoria | Proponentes Principais | Tese Central | Crítica de Mário Ferreira dos Santos |
| Contratualismo | J. J. Rousseau, Thomas Hobbes | A ordem social não é natural, mas fruto de uma convenção ou contrato livre entre os homens para proteger a liberdade e os bens. | A teoria parte de um “estado de natureza” imaginário e falso. Suas premissas sobre liberdade ilimitada são insustentáveis. Paradoxalmente, parte do individualismo para justificar o despotismo absoluto do Estado. |
| Naturalismo | Herbert Spencer, Auguste Comte | A sociedade é um organismo biológico, uma fase superorgânica da evolução, regida por leis deterministas. | Confunde analogia com identidade (“biologismo”). Ignora a vontade, a escolha e os valores, que são especificamente humanos. Conduz fatalmente ao totalitarismo, ao submeter o indivíduo de forma absoluta ao determinismo social. |
| Teoria Cristã | Tomás de Aquino, Escolásticos | A sociedade tem origem divina, emanando da natureza social do homem, criada por Deus. A família é a célula fundamental. | A análise desta teoria é deixada em aberto, pois implicaria uma incursão na Teologia. O autor reconhece suas positividades para uso posterior. |
| Posição Concreta (Síntese do Autor) | Mário Ferreira dos Santos | A sociedade surge de uma tendência natural, mas é simultaneamente modelada pela inteligência e pela vontade humana. Essa base ética, que envolve escolha e valores, distingue a sociedade humana das coletividades animais. | Nenhuma crítica é apresentada, pois esta é a posição defendida pelo autor. |
4. Autoridade, Estado e Classes Sociais
A análise da autoridade é um dos pontos mais originais da obra, servindo como base para uma crítica profunda do Estado.
- As Duas Autoridades:
- Autoridade Primária (do grupo): É o “termo comum”, o interesse ou fim que une os membros e dá forma e coesão ao grupo. É a fonte intrínseca e essencial da unidade social.
- Autoridade Secundária (sobre o grupo): É o poder investido (kratos), como a autoridade civil do Estado. Ela não é essencial, mas “acidental”, surgindo de uma deficiência ou fraqueza na coesão do grupo. É um “mal necessário”.
- O Estado: É a maior organização de força da sociedade, tendendo a monopolizá-la.
- Natureza: É inerentemente conservador, pois sua função é manter a ordem estabelecida. Mesmo quando tomado por revolucionários, sua natureza permanece conservadora.
- Perigos: Sua tendência natural é avassaladora e totalitária. A burocratização o transforma em um organismo “abstrato”, opressor e apartado da sociedade, criando óbices ao desenvolvimento social e econômico.
- Classes Sociais: A diferenciação social surge da divisão do trabalho, mas é fundamentalmente influenciada por quatro tipos caracterológicos humanos:
- Hierático: Tipo sacerdotal, com tendência ao transcendental e à virtude.
- Aristocrático: Tipo guerreiro, movido pela glória e pela ação desinteressada.
- Mercador: Tipo empreendedor, focado em valores utilitários e no lucro.
- Servidor: Tipo executor, com tendência a obedecer e prestar serviços. A injustiça social emerge quando uma classe, dotada do kratos social, cria relações negativas em detrimento das outras. A solução não está em nivelar as diferenças humanas, mas em criar uma ordem onde nenhum grupo possa abusar do poder.
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Análise da Ética Fundamental
1. Definição e Distinções Chave
A Ética é apresentada como uma ciência ontológica e fundamental, distinta da Moralidade comum.
- O Objeto da Ética: O Dever-Ser: A Ética estuda o “dever-ser” (sollen), que é a imperiosidade do que pode e deve vir a ser, conforme a natureza de uma coisa. O autor distingue:
- Dever-ser Infrustrável: As leis necessárias e incoercíveis da físico-química.
- Dever-ser Frustrável:
- Por fatores extrínsecos: Característico da biologia (ex: uma árvore que deve dar frutos pode ser impedida por uma praga).
- Por fator intrínseco (a vontade livre): O campo específico da Ética antropológica e humana.
- Distinção entre Ética e Moral: Esta é uma tese central.
- Ética: Disciplina ontológica que busca as normas invariantes e eternas que presidem o dever-ser.
- Moral: Disciplina que estuda os costumes variantes das sociedades humanas. Os fatos morais são “símbolos” dos logoi ethikoi (razões éticas) invariantes.
- O Ato Moral: Para ser considerado moral, um ato humano deve ser voluntário, livre e realizado com o conhecimento de sua honestidade ou torpeza. O valor ético de um ato é proporcional ao grau de dificuldade (menor “frustrabilidade”) que a vontade supera para realizá-lo.
2. O Fim do Homem e a Felicidade
A análise da finalidade da vida humana é central para a construção do sistema ético.
- Crítica às Morais Empíricas e Racionalistas: O autor rechaça sistemas que colocam o fim do homem no prazer (hedonismo), na utilidade (utilitarismo) ou no bem da coletividade (sociologismo). Tais fins são meios, não o fim último. O prazer, por exemplo, não é o fim, mas uma consequência da posse de um bem.
- A Finalidade Última: A Felicidade Perfeita:
- O homem, por ser racional, anseia pela felicidade perfeita (beatitude), que consiste na posse perpétua de todos os bens e na exclusão de todos os males.
- Essa felicidade não se confunde com o bem-estar, que é a satisfação das necessidades materiais e corpóreas.
- O único objeto capaz de satisfazer plenamente esse anseio é o Ser Perfeito, o Ser Supremo.
- Inacessibilidade Nesta Vida: A felicidade perfeita é inalcançável na vida terrena, pois a condição finita e imperfeita do homem impede a posse plena do bem infinito. A possibilidade de alcançá-la numa outra vida é uma dedução lógica de seu sistema.
3. Livre-Arbítrio e Responsabilidade
A liberdade da vontade é o pressuposto fundamental para a existência de uma Ética.
- Natureza do Livre-Arbítrio: Não é um ato sem causa, mas a capacidade da vontade de escolher entre diferentes possibilidades (“liberdade de indiferença”), agindo ou não agindo. O homem pode, por um juízo da razão, contrariar seus próprios instintos e até mesmo a natureza, o que prova sua liberdade.
- Argumento de Tomás de Aquino: “é mister que o homem tenha livre arbítrio pelo próprio facto de ser dotado de razão”. A razão, ao lidar com ações particulares (que são contingentes), pode seguir direções opostas, diferentemente do instinto animal que é determinado.
- Fundamento da Responsabilidade: Por ser livre para escolher entre o bem e o mal, o homem é responsável por seus atos. A responsabilidade é a consequência direta do livre-arbítrio. Sem liberdade, não haveria mérito, culpa ou moralidade.
4. As Virtudes
As virtudes são os hábitos que conduzem o homem ao bem e à sua perfeição.
- Virtudes Cardeais: São quatro virtudes fundamentais, adquiridas pelo esforço e hábito, que estruturam a vida moral:
- Prudência: A capacidade de distinguir o que deve ser feito, agindo retamente na escolha dos meios para alcançar um fim bom.
- Justiça: A vontade constante de dar a cada um o que lhe é devido, segundo a igualdade.
- Fortaleza: A capacidade de enfrentar perigos e suportar adversidades em nome de um bem superior.
- Temperança: A moderação dos apetites sensíveis, contendo os desejos dentro dos limites da razão.
- Virtudes Teologais: São três virtudes de origem transcendente, que não são adquiridas pelo hábito, mas parecem ser dons:
- Fé: O assentimento firme e certo em algo superior.
- Esperança: A expectação confiante de um bem perfeito futuro.
- Caridade: O amor supremo e desinteressado a si, aos outros e ao Ser Supremo; é considerada a “mãe de todas as virtudes”.
5. Teses Centrais da Filosofia Concreta da Ética
O sistema ético do autor é construído sobre uma série de teses demonstradas apoditicamente em suas obras filosóficas. As mais relevantes são:
- Tese 1: Todo ser atua e sofre proporcionadamente à sua natureza.
- Tese 3: Nenhum ser finito alcança a perfeição plena de sua espécie ou de si mesmo.
- Tese 6: Todo ser finito é um “participante” das perfeições do Ser Supremo.
- Tese 21: Todo ser é orientado ao seu fim pela natureza de sua espécie.
- Tese 31: O ser finito tende, como finalidade última, para o Ser Supremo.
- Tese 36: A perfeita felicidade não pode ser obtida nesta vida.
- Tese 37: Por ser racional, o ser humano escolhe com liberdade (livre-arbítrio).
- Tese 56: O amor é fundamental na ética concreta.
6. Conceitos Morais e Jurídicos
O texto define uma série de conceitos relevantes para a Ética e o Direito.
| Conceito | Definição |
| Direito | Em sentido objetivo, é o conjunto de leis. Em sentido subjetivo, é o poder moral de fazer, possuir ou exigir algo. |
| Lei | Preceito comum, justo, estável e suficientemente promulgado. |
| Responsabilidade | A obrigação que uma pessoa tem de responder por seus atos livres e conscientes. |
| Sancção | O prêmio ou o castigo associado à observância ou violação de uma lei. |
| Dever | O laço que sujeita a criatura à ordem moral; uma obrigação que é intrinsecamente frustrável pela vontade livre. |
| Virtude | O hábito bom, a potência racional que inclina o homem à prática de operações honestas. |
| Vício | O hábito mau, que se opõe à virtude e à ordem da razão. |
| Culpa | Surge da prática de uma ação moralmente negativa; o mal cominado a quem transgride a lei moral. |

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