O que mudou na cardiologia até março de 2026?

O objetivo hoje é traduzir cada um desses achados científicos de março de 2026 para que você compreenda não apenas o que mudou, mas por que mudou e como isso se aplica na prática clínica. Podemos dividir as inovações dessa semana em três grandes áreas:
1. A Nova Fronteira da Prevenção e do Colesterol
Nós costumávamos ter abordagens mais flexíveis, mas a Diretriz ACC/AHA de 2026 trouxe de volta as metas numéricas rigorosas para o LDL-C (o “colesterol ruim”).
  • As novas metas: Pacientes de risco intermediário devem ter LDL < 100 mg/dL; os de alto risco < 70 mg/dL; e os de muito alto risco (com doença cardiovascular estabelecida) < 55 mg/dL.
  • Novas Ferramentas: Agora usamos as equações PREVENT-ASCVD para calcular o risco. Além disso, todos os pacientes devem dosar a Lipoproteína(a) – Lp(a) – pelo menos uma vez na vida.
  • Novos Remédios (Inibidores de PCSK9): O estudo VESALIUS-CV provou que o uso de evolocumabe reduz o risco de um primeiro evento cardiovascular (como infartos) de forma segura em pacientes de alto risco, funcionando muito bem na prevenção primária.
  • O que muda na prática? Devemos ser agressivos! Se estatina e ezetimiba não resolverem, adicionamos novas terapias não-estatinas (como inibidores de PCSK9, ácido bempedoico ou inclisirã).
2. A “Dupla Dinâmica” Metabólica e a Inteligência Artificial
Aqui temos mudanças de paradigma gigantescas sobre como protegemos o coração e os rins de forma combinada e como usamos a tecnologia.
  • Combinação GLP-1RA + SGLT2i: Imagine unir dois dos melhores medicamentos atuais. Uma meta-análise mostrou que combiná-los reduz eventos cardiovasculares maiores (MACE) em 22% e os desfechos renais graves em impressionantes 51%. Os efeitos são aditivos (um soma ao outro) e funcionam independentemente de o paciente ter diabetes tipo 2 ou não. Esta é a nova linha de frente na prevenção cardiometabólica.
  • SGLT2i no Hospital (Estudo EMPULSE): Antigamente, esperávamos o paciente com insuficiência cardíaca (IC) aguda estabilizar para dar o remédio. Não mais! Iniciar a empagliflozina ainda durante a internação é seguro, eficaz e traz benefícios clínicos tanto para IC nova quanto crônica descompensada. A resposta diurética chega a ser maior em casos de IC nova, com menos efeitos adversos do que o placebo.
  • Mamografias e o Risco Cardiovascular: Historicamente, mulheres são subdiagnosticadas em doenças cardiovasculares. Agora, um estudo usando Inteligência Artificial (IA) em mamografias de rotina consegue quantificar a calcificação arterial mamária (BAC). Se a calcificação for grave, o risco de doença cardiovascular grave aumenta em 2 a 3 vezes. Na prática, se a mamografia acusar isso, a paciente já deve ser encaminhada para avaliação preventiva do coração.
  • Pré-diabetes e Hipertensão (Estudo SPRINT): Ter apenas pré-diabetes não aumenta o risco de insuficiência cardíaca. Porém, se o paciente tiver pré-diabetes, hipertensão e sinais subclínicos de lesão cardíaca (marcadores como hs-cTnI ou NT-proBNP elevados no sangue), o risco de desenvolver IC aumenta em 10 vezes. A lição é: rastreie esses biomarcadores e intervenha antes que a doença clínica apareça.
3. Procedimentos Baseados no Perfil (Fenótipo) do Paciente
Na medicina moderna, não existe mais “uma cirurgia serve para todos”. Precisamos olhar para a condição específica do paciente.
  • Doença de Chagas e Arritmias: Quando o paciente chagásico tem Taquicardia Ventricular (TV), a ablação (cauterização do tecido doente) quase sempre exige acesso epicárdico (por fora do coração), sendo necessário em 78% dos casos, contra apenas 15% em pacientes com coração isquêmico. Além disso, a mortalidade nesses pacientes é alta devido a outras comorbidades, e não por falha da ablação, exigindo controle rigoroso da IC.
  • Válvula Aórtica Bicúspide (TAVI vs. SAVR): A válvula aórtica normal tem três “folhas”; a bicúspide tem duas. Na hora de trocá-la, a cirurgia aberta tradicional (SAVR) mostrou-se superior ao implante por cateter (TAVI) aos 48 meses de acompanhamento, com a TAVI tendo um risco 62% maior de eventos adversos a longo prazo. Regra de ouro: Se o paciente tem válvula bicúspide, é jovem e bom candidato cirúrgico, faça a cirurgia aberta ( termo em inglês SAVR).
  • Marca-passos (LBBAP vs. Biventricular): Estamos estudando muito a estimulação do ramo esquerdo (LBBAP) como uma alternativa fisiológica mais natural. No entanto, ensaios recentes deram resultados opostos: um favoreceu o LBBAP e outro não mostrou superioridade. Portanto, o ressincronizador biventricular tradicional continua sendo o “padrão-ouro” até termos estudos maiores.
  • Fibrilação Atrial (Estudo OCEAN): Após curar/ablacionar uma Fibrilação Atrial (FA) com sucesso, podemos tirar o anticoagulante? O estudo mostrou que trocar a anticoagulação (rivaroxabana) por aspirina não trouxe benefícios superiores. Conclusão: O anticoagulante oral continua sendo essencial, e a decisão de parar ou continuar deve basear-se no escore de risco do paciente (CHA₂DS₂-VASc) e no risco de sangramento, e não no fato de a ablação ter dado certo.
Resumo da Ópera: A cardiologia em 2026 exige de nós:
  1. Intensificação imediata com metas duras de colesterol e uso de múltiplas drogas inovadoras.
  2. Proteção conjunta (coração e rim) usando associações de remédios (GLP-1RA + SGLT2i) e inteligência artificial para descobrir problemas escondidos precocemente.
  3. Cirurgias escolhidas a dedo, individualizando o que cada paciente precisa de acordo com sua anatomia e origem da doença.

 

Documento Principal (Fonte da Curadoria):
  • SANTUCHI, Dário. Curadoria Científica Semanal em Cardiologia — Semana 11. [S. l.: s. n.], 9 a 15 de mar. 2026..
Estudos, Diretrizes e Trials Citados:
  • AMERICAN COLLEGE OF CARDIOLOGY (ACC); AMERICAN HEART ASSOCIATION (AHA). Diretriz ACC/AHA 2026 de Dislipidemia. [S. l.: s. n.], 2026..
  • ANÁLISE pré-especificada do EMPULSE: empagliflozina iniciada durante a internação por IC aguda. [S. l.: s. n.], 2026.
  • ESTUDO sobre ablação de TV na cardiomiopatia chagásica (Brasil, 2011-2020). Lancet Regional Health – Americas, [S. l.], 2026..
  • ESTUDO sobre uso de IA para quantificar calcificação arterial mamária (BAC) em mamografias de rotina. European Heart Journal, [S. l.], 2026..
  • HEARTSYNC-LBBP; PHYSIOSYNC-HF. Trials randomizados sobre estimulação do sistema de condução vs. biventricular. [S. l.: s. n.], 2026..
  • META-ANÁLISE sobre combinação GLP-1RA + SGLT2i na redução de MACE e desfechos renais graves. JACC: Advances, [S. l.], 2026..
  • META-ANÁLISE sobre TAVI vs. SAVR em valva aórtica bicúspide. JAHA, [S. l.], 2026.
  • OCEAN TRIAL. Anticoagulação após ablação de FA: Rivaroxabana vs. Aspirina. [S. l.: s. n.], 2026..
  • SPRINT TRIAL. Risco de IC em pré-diabetes e hipertensão com lesão cardíaca subclínica. JAMA Cardiology, [S. l.], 2026..
  • VESALIUS-CV TRIAL. Uso de evolocumabe (Inibidores de PCSK9) na prevenção primária. [S. l.: s. n.], 2026..
Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 827 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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