Neurointensivismo 2 ( Estado de Mal-Epiléptico, Determinação de Morte Encefálica (ME) e Manutenção do Potencial Doador)

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Estado de Mal-Epiléptico (EME)

1. Desmistificando o Conceito: Quando a Crise se Torna Emergência

A transição da definição de EME reflete a urgência da neuroproteção. Historicamente, a definição biológica baseava-se em 30 minutos de atividade convulsiva contínua ou crises repetidas sem recuperação da consciência — o limiar teórico para lesão cerebral permanente. No entanto, para o médico na linha de frente, este tempo é proibitivo.

A Definição Operacional (Regra dos 5 Minutos): Conduta mandatória: Qualquer crise convulsiva que dure mais de 5 minutos deve ser tratada como Estado de Mal-Epiléptico. Após este marco, a probabilidade de cessação espontânea é mínima e o risco de refratariedade farmacológica aumenta exponencialmente. Não espere: 5 minutos é o divisor de águas para a intervenção clínica.

A rapidez na ação deve ser acompanhada por uma identificação precisa da manifestação clínica, pois o EME pode ser traiçoeiro em suas formas menos ruidosas.

2. O Espectro das Crises: Convulsivas vs. Não-Convulsivas

O erro fatal a evitar é ignorar a atividade elétrica persistente no cérebro após o término dos abalos motores. O EME Não-Convulsivo (EME-NC) é uma ameaça silenciosa e frequente.

CaracterísticasEME ConvulsivoEME Não-Convulsivo (EME-NC)
Manifestação PrincipalCrise Generalizada Tônico-Clônica (forma mais comum).Alteração do estado mental, confusão profunda ou coma.
PrevalênciaApresentação inicial ruidosa e clássica.Representa 20% a 25% de todos os casos de EME.
Achado em ComaFrequentemente o estágio que precede o coma.Identificado em 8% dos pacientes em coma inexplicado.
PersistênciaAlvo inicial do tratamento motor.Persiste em 14% dos casos após uma crise generalizada aparente.
Impacto ClínicoRisco imediato de hipóxia e trauma.Morbidade de 39% e Mortalidade de 18%.

Independentemente da apresentação, o manejo imediato segue uma lógica de priorização vital e suporte hemodinâmico rigoroso.

3. Protocolo de Ação I: A Primeira Linha de Defesa (0-5 Minutos)

O objetivo é a estabilização “ABC” e a interrupção da crise com as drogas de ação mais rápida.

  1. Proteção de Vias Aéreas e Prevenção de Aspiração: Posicionamento e oxigenação. O tubo orotraqueal (TOT) pode não ser necessário se a crise cessar nesta fase, mas o material deve estar a postos.
  2. Acesso Venoso e Investigação Imediata: Colha exames e realize o Hemoglicoteste (HGT). Se o HGT for baixo ou indisponível, a conduta é administrar Tiamina (100 mg IM) seguida de Glicose 50% (50 ml IV).
  3. Benzodiazepínicos: São a base da primeira linha.

Guia Terapêutico de Primeira Linha

MedicamentoDose RecomendadaObservações de Especialista
Lorazepam0,1 mg/kg IVPrimeira escolha absoluta. Bolus de 2 a 4 mg; pode-se repetir se necessário.
Diazepam0,15 mg/kg IVBolus de 10 mg; repetir se necessário até o máximo de 30 mg.
Midazolam15 mg IMUtilizado apenas se não houver acesso venoso disponível.

Se a crise persistir após a dose máxima de benzodiazepínicos, você deve progredir imediatamente para a segunda linha sem hesitação.

4. Protocolo de Ação II: Controle de Segunda Linha e Casos Refratários

Se a crise não cessar ou se a etiologia não for rapidamente reversível, iniciamos a impregnação com anticonvulsivantes de longa duração.

  • Fenitoína (Hidantal): Dose de ataque de 20 mg/kg IV (reduzir para 15 mg/kg em idosos).
    • Segurança na Infusão: Diluir obrigatoriamente em 250 ml de Soro Fisiológico (SF) 0,9%. A velocidade deve ser ≤ 50 mg/min para evitar arritmias e hipotensão.

EME Refratário

Define-se quando a crise persiste após a primeira e segunda linhas. Nesta fase, a intubação orotraqueal é mandatória.

  • Propofol: Ataque de 3-5 mg/kg; infusão contínua de 30-100 µg/kg/min.
  • Midazolam: Ataque de 0,2 mg/kg; infusão de 0,1 a 2 mg/kg/h.
  • Fenobarbital: Dose de 5 mg/kg (pode repetir SN); infusão de 0,5 a 5 mg/kg/h. Note que apenas 5% dos casos respondem a este fármaco.
  • Tiopental Sódico: Uma opção crítica para reciclagem do protocolo. Ataque de 3 a 4 mg/kg; infusão contínua de 0,2 mg/kg/min (em salina). Aumentar 0,1 mg/kg/min a cada 5 min até o controle.

5. O Arsenal Diagnóstico: Laboratório e Imagem

A investigação deve ser simultânea ao tratamento, nunca atrasando as drogas anticonvulsivantes.

Investigação Laboratorial e Clínica

  • Painel Essencial: Glicemia, Na+, K+, Ca++, Mg++, Ureia, Creatinina, Hemograma e Gasometria Arterial.
  • Alerta de Rabdomiólise: A atividade motora intensa eleva a CPK. Níveis altos exigem hidratação vigorosa para prevenir insuficiência renal aguda.
  • Punção Lombar (PL): Mandatária se houver qualquer suspeita de meningite ou febre associada.
  • História Clínica: Lembre-se que a interrupção da medicação antiepiléptica é o fator desencadeante mais frequente.

Exames de Imagem e Funcionais

  • TAC de Crânio: Essencial em casos de primeira crise, sem etiologia definida ou de difícil controle. A Ressonância Magnética (RM) fica reservada para detalhes anatômicos posteriores.
  • EEG Contínuo: Indispensável em pacientes comatosos ou pós-EME. É a única forma de garantir o término das crises (detectando os 14% de EME-NC persistente) e diagnosticar pseudocrises.

6. Síntese de Conduta: “O Que Não Pode Esquecer” (Takeaways)

  • A Regra da Intubação: Se for intubar, nunca utilize succinilcolina. O risco de hiperkalemia grave em vigência de crises prolongadas e rabdomiólise pode levar à parada cardíaca súbita.
  • O Protocolo de Desmame: Após o controle das crises, a sedação não deve ser retirada abruptamente. Reduza 50% da dose em 12h e o restante nas 12h seguintes.

Estado de Mal epiléptico

Diagnóstico de Morte Encefálica (ME)

 

 

Video Reflexo – Olhos de Boneca https://youtube.com/shorts/PztHp8Za5Qo?si=1LKN-EqAngnjMIgO

 

Reflexo de Lazaro

Reflexo Pupilar:

Reflexo Vestibulo Calórico

Reflexo de Tosse

1. Fundamentos e Definição de Morte Encefálica

O diagnóstico de Morte Encefálica é a confirmação do óbito do indivíduo sob o ponto de vista médico e legal. É fundamental diferenciá-la de estados de coma profundo ou estado vegetativo, nos quais ainda existe atividade residual. Na ME, o dano é total e definitivo.

Definição Central: A Morte Encefálica é a parada irreversível de todas as funções cerebrais. Caracteriza-se por um coma aperceptivo, ausência total de atividade motora supra-espinhal e de todos os reflexos do tronco cerebral, resultante de uma lesão encefálica de causa conhecida, documentada e irreversível.

Check-up Mental: Antes de avançarmos, pergunte-se: “A causa do coma é conhecida? Existe algum fator reversível, como intoxicação, que possa estar mascarando a consciência?” Sem essa certeza, o protocolo jamais deve ser iniciado.

2. Pré-requisitos: O “Checklist” de Segurança

Para garantir que o exame físico reflita a realidade neurológica e não uma supressão metabólica, devemos cumprir rigorosos pré-requisitos fisiológicos. A estabilidade do meio interno é a nossa garantia contra “falsos positivos”.

Pré-requisitoParâmetro / Ação Necessária
Causa da LesãoConhecida, irreversível e compatível com ME.
Temperatura CorporalAusência de hipotermia (aquecer o paciente, se necessário).
Estabilidade HemodinâmicaPressão Arterial Média (PAM) > 60 mmHg.
Equilíbrio MetabólicoAusência de distúrbio hidroeletrolítico ou ácido-básico grave.
Estado ToxicológicoAusência de intoxicação exógena.
Fármacos DepressoresAusência de efeitos de drogas depressoras do SNC.
Status LegalChecar preenchimento do termo e comunicação ao órgão estadual.

Bloqueio de Protocolo (Exclusão Obrigatória)

Se houver Hipotermia ou evidência de Drogas Depressoras do SNC, o protocolo deve ser interrompido imediatamente até a correção ou depuração total das substâncias.

Conexão Pedagógica: Com o ambiente interno do paciente estabilizado, podemos agora interpretar a ausência de reflexos como uma falha neurológica genuína, e não como uma supressão metabólica externa.

3. O Exame Clínico: Avaliando o Tronco Cerebral

O tronco cerebral é o centro integrador da vida vegetativa. Sua falência é o núcleo do diagnóstico de ME. O exame deve ser realizado duas vezes, por médicos diferentes, sendo um deles obrigatoriamente especialista (Neurologista ou Neurocirurgião).

  1. Reflexo Pupilar: Pupilas fixas e arreativas à luz (médio-fixas ou midriáticas).
  2. Reflexo Córneo-palpebral: Ausência de resposta ao toque na córnea com gaze.
  3. Reflexos Oculoencefálicos: Ausência de movimentos oculares ao girar a cabeça (“olhos de boneca”).
  4. Resposta à Prova Calórica: Ausência de desvio ocular após estímulo térmico auditivo.
  5. Reflexo de Tosse: Ausência de resposta motora ou tosse à aspiração traqueal.
  6. Inspecione os condutos auditivos para garantir que não há obstrução (cerúmen ou sangue).
  7. Posicione a cabeceira a 30 graus para otimizar o estímulo nos canais semicirculares.
  8. Injete vagarosamente 50 ml de líquido próximo a 0ºC em cada ouvido.
  9. Padrão Ouro: O estímulo térmico máximo (0ºC) é crucial para garantir que a ausência de resposta não seja por estímulo insuficiente.

Intervalos Mínimos entre Avaliações Clínicas

O primeiro exame inicia o processo; o segundo confirma a irreversibilidade temporal do quadro:

Faixa EtáriaIntervalo Mínimo Exigível
7 dias a 2 meses incompletos48 horas
2 meses a 1 ano incompleto24 horas
1 ano a 2 anos incompletos12 horas
Maiores de 2 anos6 horas

Conexão Pedagógica: Após confirmarmos a inatividade do tronco em dois exames, o passo final é desafiar o centro respiratório bulbar através do acúmulo de CO2.

4. O Teste de Apneia: A Prova Final

O objetivo é elevar a pressão parcial de CO2 (PaCO2) até o “nível sensorial de estímulo” (55 mmHg), que deveria disparar a respiração em um tronco íntegro.

  • [ ] Pré-oxigenação: Ventilar com FiO2 100% por 10 minutos para garantir reserva de O2.
  • [ ] Desconexão: Desconectar o paciente do ventilador mecânico.
  • [ ] Oxigenação Passiva: Instalar cateter traqueal de O2 com fluxo de 6 L/min, posicionado 3 cm acima da carina.
  • [ ] Observação: Monitorar por 10 minutos a busca por qualquer esforço respiratório.

Parâmetro Crítico: O teste é considerado positivo (validando a ME) apenas se houver ausência total de movimentos respiratórios e o valor final de PaCO2 for ≥ 55 mmHg.

5. Exames Complementares e Formalização Legal

Para segurança absoluta, a legislação brasileira exige um exame que comprove a falência biológica total do encéfalo.

Exames Permitidos

  • EEG (Eletroencefalograma): Ausência de atividade elétrica.
  • Doppler Transcraniano: Ausência de fluxo sanguíneo cerebral.
  • Cintilografia Radioisotópica: Ausência de perfusão ou metabolismo.
  • Angiografia Cerebral (4 vasos): Ausência de enchimento vascular intracraniano.

Nota Legal: Conforme a Lei nº 9.434/97, os dois médicos que assinam o termo não podem pertencer às equipes de transplante. Essa regra visa evitar conflitos de interesse e garantir a imparcialidade ética do diagnóstico.

Importante: Reatividade Infra-espinhal

Não se deixe confundir por movimentos reflexos originados na medula. A presença dos seguintes sinais não afasta o diagnóstico de ME:

  • Reflexos osteotendinosos.
  • Reflexos cutâneo-abdominais e cutâneo plantar (flexão ou extensão).
  • Reflexo cremastérico (superficial ou profundo).
  • Ereção peniana reflexa, arrepio e reflexo tônico cervical.

Nota do Professor – Contraindicações Absolutas para Doação: Mesmo confirmada a ME, a doação pode ser impedida em casos de Infecção por HIV, Doenças por Prions (distúrbios neurodegenerativas raras, fatais e rapidamente progressivas, causadas pelo enovelamento incorreto de proteínas (príons) no cérebro, transformando-o em uma estrutura esponjosa. A forma mais comum é a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), que causa demência, espasmos musculares e perda de coordenação, Meningoencefalite herpética ou Câncer em atividade (salvo raras exceções).

6. Manutenção do Potencial Doador: A Regra 10/100

Confirmada a morte, nossa missão passa a ser a preservação da viabilidade dos órgãos para salvar vidas em espera. Seguimos a diretriz clínica da Regra 10/100:

ParâmetroAlvo Terapêutico
Hemoglobina> 10 g%
PVC> 10 cmH2O
Dopamina< 10 µg/kg/min
Pressão Sistólica (PAS)> 100 mmHg
Débito Urinário> 100 ml/hora
PaO2> 100 mmHg

Suporte Hormonal Crítico

A morte encefálica gera um “colapso endócrino”. A reposição deve ser imediata:

  • Tiroxina: 20 µg em bolus + infusão de 10 µg/h.
  • Insulina: Bolus de 10 U, seguido de infusão inicial de 1 U/h (manter glicemia 80-150 mg/dl).
  • DDAVP: 1 a 4 µg IV ou spray nasal para controle do Diabetes Insipidus e débito urinário.

7. Conclusão e Encorajamento

O diagnóstico de Morte Encefálica é um dos momentos mais solenes e tecnicamente exigentes da medicina. O rigor que aplicamos em cada parâmetro da “Regra 10/100” e a precisão na execução da prova calórica a 0ºC não são apenas protocolos burocráticos; são garantias de dignidade para o paciente e segurança ética para a família. Ao dominar este processo, você assegura que a transição entre o cuidado crítico e a possibilidade de doação seja feita com a transparência e a excelência que a vida humana exige.

Morte Encefálica

 

Lei 9434 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9434.htm

 

 

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Referências Bibliográficas
Estado de Mal-Epiléptico
LOWENSTEIN, B. H.; ALLDREDGE, B. K. Status epilepticus. New England Journal of Medicine, v. 338, p. 970-976, 1998.
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MEIERKORD, H. et al. EFNS guideline on the management of status epilepticus. European Journal of Neurology, v. 13, p. 445-450, 2006.

Morte Encefálica e Aspectos Legais (Brasil)
BRASIL. Lei nº 9.434, de 04 de fevereiro de 1997. Dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1997.
BRASIL. Decreto nº 2.268, de 30 de junho de 1997. Regulamenta a Lei nº 9.434. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1997.
CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução nº 1.480, de 08 de agosto de 1997. Define os critérios para o diagnóstico de morte encefálica. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1997.
MATOS, E. P. Protocolo para diagnóstico de morte encefálica. In: Protocolos da Unidade de Emergência. Brasília: Editora MS, 2002. p. 138-140.
SARDINHA, L. A. C.; DANTAS FILHO, V. P. Morte encefálica. In: Neurointensivismo. São Paulo: Editora Atheneu, 2002. p. 285-314.
SILVADO, C. E. S. Determinação da morte encefálica. In: Condutas em Emergências Neurológicas. São Paulo: Lemos Editorial, 2001. p. 183-200.
CENTRAL DE NOTIFICAÇÃO, CAPTAÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE ÓRGÃOS DE SANTA CATARINA. Termo de Declaração de Morte Encefálica. Santa Catarina, [s.d.].

Manutenção do Potencial Doador
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Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 822 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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