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ARTIGO DE REVISÃO:
Choque Hipovolêmico : Fisiopatologia, Diagnóstico e Manejo Clínico na Terapia Intensiva
Resumo: O choque hipovolêmico é uma emergência médica caracterizada pela falha na perfusão tecidual decorrente da perda severa de volume intravascular. Este artigo revisa os mecanismos fisiopatológicos compensatórios, a progressão clínica do quadro — incluindo o risco da tríade letal no trauma — e as prioridades no manejo inicial, que se fundamentam no controle da causa base e na ressuscitação volêmica agressiva.
1. Introdução e Etiologia
O choque hipovolêmico é desencadeado por uma redução drástica no volume sanguíneo circulante (hipovolemia), que pode ocorrer devido à perda de sangue, plasma ou líquidos. Diferentemente de outros tipos de choque (como o cardiogênico ou o distributivo), no choque hipovolêmico a função da bomba cardíaca e o tônus vascular encontram-se inicialmente preservados.
As causas mais comuns incluem as grandes hemorragias (como traumas severos e hemorragias digestivas), desidratação grave e a perda de líquido para o espaço intersticial, também conhecida como “terceiro espaço”, frequentemente observada em casos de queimaduras extensas e ascite.
2. Fisiopatologia e Mecanismos Compensatórios
A perda de volume intravascular leva a uma cascata de eventos hemodinâmicos: ocorre a diminuição do retorno venoso (pré-carga), o que reduz a pressão de enchimento ventricular, o volume sistólico e, por fim, o débito cardíaco. O perfil hemodinâmico clássico deste choque demonstra Débito Cardíaco (DC) diminuído, Pressão de Oclusão da Artéria Pulmonar (POAP) diminuída e Resistência Vascular Sistêmica (RVS) aumentada.
Para evitar a hipoperfusão tecidual severa, o organismo ativa imediatamente o sistema nervoso simpático, desencadeando três respostas fisiológicas de defesa:
- Vasoconstrição das artérias: Reduz o tamanho do leito vascular para compensar a falta de volume e aumenta a resistência vascular periférica, visando manter a pressão arterial (PA) em níveis normais.
- Vasoconstrição das veias: Aumenta o retorno venoso de volta ao coração e a pré-carga.
- Efeitos cardíacos diretos: Ocorre o aumento da frequência cardíaca (taquicardia) e da força de contração do miocárdio, a fim de compensar a queda do volume sistólico.
Entretanto, caso a perda do volume intravascular se intensifique e ultrapasse 15% do volume total, esses mecanismos compensatórios tornam-se ineficientes, levando o paciente à hipotensão e à hipóxia tecidual generalizada. Em situações de trauma grave, o choque hemorrágico prolongado é o principal responsável por desencadear a temida tríade letal, caracterizada por acidose metabólica, hipotermia e coagulopatia, que frequentemente leva à falência de múltiplos órgãos e ao óbito.
3. Manifestações Clínicas
O quadro clínico reflete tanto a má perfusão dos órgãos quanto a hiperatividade do sistema nervoso simpático. O paciente tipicamente apresenta taquicardia, taquipneia, hipotensão (Pressão Arterial Média < 65 mmHg) e pele fria, pálida e sudoreica (pegajosa).
Além disso, nota-se a redução do tempo de enchimento capilar e a alteração no nível de consciência, que pode variar de ansiedade e agitação a confusão mental, sonolência e coma. O sistema renal também sofre diretamente com a hipoperfusão, manifestando-se clinicamente através de oligúria (débito urinário inferior a 0,5 mL/kg/hora).
4. Abordagem Inicial e Tratamento
O tratamento do choque hipovolêmico baseia-se em duas premissas essenciais: identificar e estancar a causa da perda de volume (ex: controle imediato de hemorragias com compressão direta) e restaurar a perfusão tecidual.
As diretrizes de manejo incluem:
- Suporte Básico e Acessos: Manter as vias aéreas pérvias, garantir oxigenação/ventilação adequada e obter rapidamente dois acessos venosos periféricos calibrosos ou um acesso venoso central para a infusão de fluidos.
- Ressuscitação Volêmica: É a pedra angular do tratamento. Recomenda-se iniciar a reposição de volume de forma agressiva utilizando soluções cristaloides, como Soro Fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato. Pode-se administrar volumes rápidos (ex: 1.000 mL em bolus) e repetir a dose conforme a ausência de estabilização.
- Reposição de Hemocomponentes: Em casos de hemorragia severa que não respondem apenas aos cristaloides, deve-se considerar o uso de hemocomponentes, como concentrado de hemácias, plasma fresco congelado e plaquetas. Como meta transfusional na UTI, geralmente indica-se a transfusão para manter a Hemoglobina (Hb) > 7 g/dL (ou > 10 g/dL em pacientes com insuficiência coronariana).
- Monitorização Contínua: A equipe de saúde (médicos e enfermeiros) deve realizar o monitoramento rigoroso dos sinais vitais, da saturação de oxigênio, da pressão arterial e manter um balanço hídrico rigoroso, utilizando a diurese como um dos principais parâmetros de resposta à perfusão.
5. Conclusão
O choque hipovolêmico representa uma falha crítica na oferta de oxigênio às células por deficiência de “conteúdo” no sistema circulatório. O reconhecimento precoce de seus sinais clínicos — mascarados inicialmente por mecanismos compensatórios — e a rápida reposição de fluidos e hemoderivados são os determinantes maiores para a sobrevivência do paciente crítico e a prevenção de lesões orgânicas irreversíveis.
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