Aula 1 Sistema Digestório
O sistema digestório consiste em um tubo revestido por epitélio, que começa com a cavidade oral e se estende até o canal anal, e também inclui as glândulas associadas ao trato gastrointestinal (GI), como, por exemplo:
- Glândulas salivares: três glândulas maiores e milhares de microscópicas glândulas salivares menores espalhadas por toda a mucosa oral
- Fígado: a maior glândula no corpo
- Vesícula biliar: armazena e concentra a bile necessária para a digestão da gordura
- Pâncreas: um órgão exócrino (enzimas digestivas) e endócrino
O tubo revestido por epitélio, que é o trato GI, mede aproximadamente 8 m da boca ao canal anal, incluindo as seguintes cavidades e estruturas viscerais:
- Cavidade oral: língua, dentes e glândulas salivares
- Faringe: subdividida em parte nasal da faringe, parte oral da faringe e parte laríngea da faringe
- Esôfago
- Estômago
- Intestino delgado: subdividido em duodeno, jejuno e íleo
- Intestino grosso: subdividido em ceco, colo ascendente, colo transverso, colo descendente, colo sigmoide, reto e canal anal

Clinicamente, devido à complexidade estrutural das vísceras abdominais, é importante que os estudantes saibam onde as estruturas viscerais ficam situadas em relação à superfície da parede abdominal. Para facilitar esse exercício, o abdome pode ser dividido em quatro quadrantes ou em nove regiões, como apresentado nas partes B e C. Além disso, vários planos de referência são usados clinicamente no exame físico para dividir o abdome em regiões, conforme resumido a seguir.


EXAME DO ABDOME
1. Introdução
O exame do abdome é parte fundamental na avaliação do sistema digestório e de órgãos vizinhos (fígado, baço, rins etc.). Embora siga os mesmos princípios dos exames de tórax (pulmonar e cardíaco) – inspeção (observação), ausculta, percussão e palpação –, a ordem difere ligeiramente, pois a ausculta precede a percussão para evitar alterações artificiais dos sons intestinais.
Nesta apostila, abordaremos:
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Observação (inspeção)
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Ausculta
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Percussão
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Palpação
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Achados comuns em patologias específicas (com foco em doenças hepáticas)
2. Divisão do Abdome em Quadrantes
Para orientar o exame, costuma-se dividir o abdome em quatro quadrantes:
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Quadrante Superior Direito (QSD)
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Quadrante Inferior Direito (QID)
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Quadrante Superior Esquerdo (QSE)
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Quadrante Inferior Esquerdo (QIE)
Essa divisão ajuda o examinador a pensar anatomicamente sobre quais órgãos se encontram em cada região e quais patologias podem ocorrer ali.
3. Preparação do Paciente e do Ambiente
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Posição: O paciente deve ficar deitado em uma maca nivelada, preferencialmente com a cabeça apoiada em um travesseiro e os braços relaxados ao lado do corpo.
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Exposição: A região do abdome deve ficar totalmente exposta, desde logo abaixo das mamas até a margem púbica. Cobrir as partes não examinadas para manter o conforto e a privacidade do paciente.
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Ambiente: Manter o local aquecido e bem iluminado.
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Relaxamento: Pedir ao paciente para dobrar levemente os joelhos (pés apoiados na maca). Isso reduz a tensão da musculatura abdominal.
Esses cuidados tornam o exame mais fidedigno e menos desconfortável.
4. Observação (Inspeção)
A inspeção fornece informações importantes ainda antes do contato físico com o abdome:
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Formato e Contorno do Abdome:
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Plano, globoso/distendido ou escavado?
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A distensão é difusa (simétrica) ou localizada (assimétrica)?
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Áreas que “saltam” ao fazer manobra de Valsalva (suspeita de hérnias).
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Cicatrizes: Identificar cicatrizes cirúrgicas e suas localizações. Elas podem indicar cirurgias prévias ou pontos de fraqueza da parede abdominal.
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Movimentação do Paciente:
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Pessoas com inflamação do peritônio (peritonite) evitam se mexer, pois qualquer movimento pode gerar dor.
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Pacientes com cólica renal (por exemplo, cálculo) costumam se contorcer em busca de alívio.
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Pele e Circulação Superficial:
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Presença de veias superficiais dilatadas (p. ex. Caput Medusae em hipertensão portal).
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Icterícia (coloração amarelada da pele).
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Estrias, erupções cutâneas ou lesões.
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5. Ausculta
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Por que auscultar antes de percutir ou palpar?
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Porque a palpação e a percussão podem estimular ou alterar a atividade intestinal, modificando os sons.
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Como auscultar:
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Utilizar o diafragma do estetoscópio (previamente aquecido) apoiado levemente sobre o abdome.
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Pode-se auscultar em qualquer quadrante, mas na fase de treino, é útil ouvir em todos os quatro para notar variações.
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O que observar:
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Presença ou ausência de ruídos hidroaéreos (sons intestinais).
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Frequência: Sons podem ser frequentes (diarreia, inflamações da mucosa) ou raros (peritonite, íleo).
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Qualidade: Sons “metálicos”, “borborígmos” muito intensos em obstrução inicial (“rushes”) que depois podem diminuir (“tinkles”) e cessar.
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Ausculta de sopros (bruits):
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Em pacientes com hipertensão de difícil controle, insuficiência renal ou risco de aterosclerose, auscultar a região das artérias renais (poucos centímetros acima do umbigo, lateral ao músculo reto abdominal). Um sopro pode sugerir estenose de artéria renal.
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6. Percussão
A percussão ajuda a diferenciar áreas cheias de ar (som timpânico) de estruturas sólidas ou com líquido (som mais maciço/doloroso).
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Técnica:
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Similar à percussão pulmonar: dedo médio da mão esquerda sobre a pele e percutir a falange distal com o dedo médio da mão direita.
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Áreas esperadas:
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Timpanismo em alças intestinais (ar).
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Macicez em fígado, baço ou presença de líquido (ascite).
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Determinação do tamanho do fígado:
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Percutir no lado direito, seguindo a linha médio-clavicular, de cima para baixo.
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Notar a mudança de som (ressonante nos pulmões → maciço no fígado → volta a ficar timpânico ou mais claro ao passar do fígado).
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Percussão do baço:
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Mais difícil pois o baço é menor e fica “escondido” sob as costelas esquerdas.
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Se houver esplenomegalia, a macicez pode ser notada no quadrante superior esquerdo.
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Detecção de ascite:
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Manobra da macicez que muda de posição (shifting dullness):
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Com o paciente em decúbito dorsal, percutir do umbigo para as laterais, marcando onde o som muda de timpânico para maciço.
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Pedir ao paciente que se vire para o lado.
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Se houver ascite, o líquido se desloca e o limite de macicez “sobe” (mudança de linha).
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É preciso grande volume de líquido para que essa manobra seja confiável.
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7. Palpação
A palpação avalia a sensibilidade, localiza órgãos e detecta massas ou alterações anatômicas.
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Cuidados iniciais:
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Mãos aquecidas;
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Movimentos lentos e suaves, evitando pressões súbitas.
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Palpação superficial:
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Identificar dor, rigidez ou massas logo abaixo da parede abdominal.
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Palpação profunda:
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Aprofundar a mão progressivamente, sentindo estruturas mais fundas.
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Utilizar as pontas dos dedos (índice, médio, anular) ou ambas as mãos.
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Fígado:
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Iniciar vários centímetros abaixo do rebordo costal direito (para ter certeza de começar em área sem fígado) e ir subindo suavemente, sentindo se a borda hepática desce na inspiração.
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Técnica do “gancho” (hooking): Flexionar as pontas dos dedos, comprimir abaixo do rebordo costal e “puxar” levemente em direção cranial enquanto o paciente inspira.
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Baço:
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Normalmente não é palpável. Se aumentado, cresce em direção ao umbigo e pelve.
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Palpar com a mão direita enquanto a esquerda “empurra” suavemente o flanco esquerdo, tentando “prender” o baço entre as mãos.
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Repetir a palpação com o paciente em decúbito lateral direito, pois o baço pode cair para frente.
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Rins:
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Normalmente difíceis de palpar pois estão em região retroperitoneal.
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Palpação bimanual: uma mão nas costas (abaixo das costelas), outra mão no abdome. Tentar “aproximar” as mãos para sentir o rim.
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Sinal de Giordano ou punho-percussão na região costo-vertebral para avaliar se há dor de rim (pielonefrite, por exemplo).
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Aorta Abdominal:
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Palpar a região acima do umbigo, ligeiramente à esquerda da linha média, para sentir a pulsação.
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Se palpável, pode estimar-se o diâmetro com as mãos posicionadas lateralmente à pulsação (normal: ~ 2-3 cm).
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Manobra do “ondas de líquido” (fluid wave):
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Paciente ou auxiliar coloca a borda da mão no centro do abdome.
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Percutir de um lado para o outro, tentando sentir a onda fluida no lado oposto.
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Muito subjetivo, mas pode ajudar a confirmar ascite quando combinado com outras manobras.
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8. Principais Achados em Doenças Específicas
8.1 Cirrose e Doenças Crônicas do Fígado
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Hepatomegalia ou fígado pequeno e fibrosado (varia conforme a fase).
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Icterícia: amarelamento de pele e/ou escleróticas (icterus).
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Ascite: acúmulo de líquido na cavidade peritoneal (percussão e palpação podem evidenciar).
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Edema de membros inferiores: por hipoalbuminemia.
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Spider angiomas: pequenos vasos em forma de aranha, principalmente em tronco e face.
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Ginecomastia e atrofia testicular: por excesso de estrogênios circulantes.
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Circulação colateral: veias dilatadas no abdome (Caput Medusae).
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Vômito em “borra de café”: sugerindo sangramento digestivo alto (por varizes esofágicas ou gastrite).
Esses achados clínicos, associados ao contexto clínico (história de álcool crônico, hepatite viral etc.), são sugestivos de doença hepática avançada.
9. Dicas Finais para um Exame Bem-Sucedido
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Sequência Lógica:
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Observação
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Ausculta
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Percussão
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Palpação
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Conforto do Paciente:
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Pergunte sempre se sente dor em algum ponto antes de iniciar.
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Deixe a região dolorosa por último, para minimizar o desconforto e o risco de contratura muscular involuntária (defesa).
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Correlação Clínica:
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Interprete os achados dentro do contexto do paciente (história, sintomas, exames complementares).
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Ruídos hidroaéreos alterados ou massa palpável só têm significado quando correlacionados ao quadro clínico.
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Prática Constante:
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Examine diversos pacientes, inclusive saudáveis, para entender as variações de normalidade.
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“Treino clínico” ajuda a reconhecer o que é anômalo.
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Observar a Expressão Facial:
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Ao palpar regiões suspeitas de dor, é essencial ficar atento a reações do paciente (caretas, grimaces).
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10. Conclusão
O exame abdominal é peça-chave na avaliação do sistema digestório e estruturas adjacentes. O domínio adequado das técnicas de observação, ausculta, percussão e palpação possibilita ao profissional identificar sinais precoces de doenças, realizar diagnósticos diferenciais e orientar exames complementares. A prática clínica rotineira e sistemática, aliada ao raciocínio anatômico, permite evoluir na sensibilidade e especificidade desses achados, levando a um cuidado de maior qualidade para os pacientes.
Referências:
https://meded.ucsd.edu/clinicalmed/abdomen.html#Findings