A obra “Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira” de Otto Maria Carpeaux se apresenta como um guia fundamental para a orientação no campo da crítica literária nacional. O seu propósito central não é oferecer um novo volume de crítica, mas sim registrar e organizar os julgamentos já pronunciados, servindo como uma “história literária documentada”. A metodologia inovadora da obra reside no conceito da “fortuna” de cada autor — a reconstrução cronológica da história das opiniões críticas sobre ele, traçando a “curva de febre da sua glória”. Carpeaux rejeita as periodizações tradicionais baseadas em “escolas” ou critérios geográficos, propondo uma nova classificação fundamentada em critérios estilísticos, o que resulta em agrupamentos inesperados e “heréticos”. A bibliografia é deliberadamente seletiva, com cerca de 170 autores, visando funcionar como um manual prático e não como um registro exaustivo, preenchendo uma lacuna identificada pelo autor para orientar tanto o leitor brasileiro quanto o estrangeiro no terreno complexo e por vezes contraditório da literatura brasileira.
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I. Fundamentos e Metodologia da Obra
O prefácio da obra delineia de forma explícita os princípios que norteiam sua organização, seu público-alvo e a justificativa para sua existência.
A. Objetivo e Público-Alvo
O livro foi concebido para superar as dificuldades de informação que o próprio autor encontrou ao iniciar seus estudos sobre a literatura brasileira. Carpeaux identifica uma “abundância de livros cujo valor se ignora; escassez de trabalhos de historiografia literária, em parte já obsoletos; dispersão dos estudos críticos que poderiam servir de guias”. O público-alvo abrange:
- O “estrangeiro”: Não apenas em nacionalidade, mas qualquer pessoa que se inicie no assunto e precise de orientação.
- O leitor brasileiro: Especialmente aquele cuja formação se limitou aos ensinamentos escolares, “calculados para a capacidade de compreensão de meninos”.
A obra visa combater o desconhecimento e o desprezo que parte do público brasileiro nutre pela literatura nacional, um sentimento atribuído, em parte, à falta de guias críticos claros e às definições contraditórias sobre o que constitui a literatura brasileira.
B. O Método da “Fortuna”: Rastreando a Recepção Crítica
Em vez de emitir seus próprios julgamentos, Carpeaux adota um método histórico-comparativo que consiste em registrar as opiniões críticas já publicadas sobre cada autor em ordem cronológica. Essa abordagem é denominada pelos críticos italianos como a “fortuna” do autor.
- Conceito: A bibliografia sobre cada escritor representa “a história das opiniões sobre êle — aquilo que os críticos italianos chamam de ‘fortuna’ do autor, a curva de febre da sua glória, a história do seu esplendor e da sua miséria”.
- Objetivo: O resultado ideal é “algo como uma história literária documentada”, permitindo ao leitor observar a ascensão e queda do prestígio de um autor ao longo do tempo.
- Neutralidade do Bibliógrafo: Embora o organizador tenha suas próprias opiniões, ele confia na “justiça mesmo mais equitativa do método histórico, comparativo” para apresentar um panorama completo dos julgamentos emitidos.
C. Critérios de Seleção e Escopo
A obra é, por desígnio, incompleta para evitar a desorientação do leitor.
- Seleção de Autores: Inclui aproximadamente 170 autores, buscando um meio-termo entre o foco exclusivo nas “belles-lettres” (à maneira de José Veríssimo) e a inclusão de cientistas (como fez Sílvio Romero). Foram selecionados poetas, ficcionistas e alguns historiadores, sociólogos e filósofos que influenciaram a literatura. Críticos literários são tratados de forma sumária, pois a obra inteira é, em essência, a bibliografia deles.
- Omissões: Ocorrem omissões involuntárias por falta de documentação (Adalgisa Nery, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues) e outras voluntárias, justificadas pela necessidade de manter o caráter de manual.
- Seleção de Obras e Críticas: O critério de inclusão de múltiplas edições de uma obra visa “dar ideia do êxito” e ajudar a traçar a “fortuna” do autor. Foram omitidas meras alusões, referências ocasionais e verbetes de enciclopédia.
D. A Proposta de Periodização Estilística
Carpeaux abandona a periodização tradicional da literatura brasileira, que ele considera inadequada.
- Rejeição de Modelos Antigos: Critica a divisão em “Escola Bahiana” e “Escola Mineira”, refutando esta última como um agrupamento baseado mais em critérios políticos (a Inconfidência Mineira) do que estilísticos.
- Critério Adotado: Utiliza critérios estilísticos, abolindo as fronteiras entre gêneros literários e reunindo “poetas e prosadores de expressão ou ideologias parecidas”.
- Resultados “Heréticos”: O autor reconhece que essa abordagem gera agrupamentos “bastante inesperados, digamos ‘heréticos'”, mas argumenta que nenhuma classificação é perfeita e que, “no fundo todo autor constitui ‘grupo’ por si”.
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II. Panorama da Historiografia Literária Brasileira (Segundo Carpeaux)
A obra analisa e cataloga diversos trabalhos de historiografia e crítica literária, oferecendo uma avaliação incisiva de cada um.
| Obra e Autor | Avaliação de Carpeaux |
| Curso de literatura portuguesa e brasileira (1866-1873) por Francisco Sotero dos Reis | Estuda apenas alguns poetas mineiros e maranhenses. “Muito prolixo. Ponto de vista do rigoroso classicismo português”. |
| História da Literatura Brasileira (1888) por Sílvio Romero | “A obra fundamental da historiografia literária brasileira, sobretudo pela aplicação do método sociológico”. Contudo, “impõe-se cautela quanto aos juízos críticos do autor, cheio de preconceitos”. Continua sendo “básica, encerrando documentação enorme que não se encontra em outra parte”. |
| Pequena história da Literatura Brasileira (1919) por Ronald de Carvalho | “E a obra mais divulgada sobre o assunto”. Carpeaux adverte que, apesar de ser considerada “moderna” por muitos leitores, a obra “mantém o ponto de vista parnasiano, infenso às correntes literárias que em 1919 passaram por ‘modernas'”. |
| Evolução da poesia brasileira (1932) por Agrippino Grieco | “Menos uma história da poesia brasileira do que uma coleção de ‘aperçus’ espirituosos sobre os poetas brasileiros, encerrando aliás muitas observações justas e seguras”. |
| O romance brasileiro (1938) por Olívio Montenegro | “Não é uma história do romance brasileiro, mas coleção de brilhantes ensaios sobre alguns romancistas”. |
| História da literatura cearense (1948) por Dolor Barreira | Classificada como “Obra de valor”. |
| História literária do Rio Grande do Sul (1924) por João Pinto da Silva | Classificada como “Obras de valor”. |
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III. Reorganização dos Períodos Literários
A estrutura do livro reflete a nova periodização estilística proposta por Carpeaux, que redefine movimentos e reagrupa autores de forma inovadora.
A. Período Colonial: Barroco, Rococó e Classicismo
Carpeaux reestrutura o período colonial, abandonando a divisão geográfica (“Escolas”) em favor de uma classificação estilística:
- Barroco: Inclui Gregório de Mattos, Botelho de Oliveira, Nuno Marques Pereira, Rocha Pita e Frei Itaparica.
- Rococó: Estilo que não formou um movimento no Brasil. Seus representantes, como António José da Silva (“O Judeu”) e Caldas Barbosa, foram para Portugal.
- Classicismo: Dividido em Classicismo Ilustrado (Matias Aires, Cláudio Manoel da Costa, Basílio da Gama), marcado pela aliança com o livre-pensamento da “época de Pombal”, e Classicismo Pré-Romântico (Santa Rita Durão, Gonzaga, Alvarenga Peixoto), que apresenta elementos de sentimentalismo e nativismo.
Exemplo de “Fortuna”: Tomaz António Gonzaga
- Popularidade: “Depois de Camões, o poeta lírico mais lido da língua portuguesa”, como evidencia o grande número de edições de Marília de Dirceu.
- Declínio: A frequência das edições diminui a partir de 1860, quando o público passa a preferir a intensidade dos poetas românticos.
- Foco da Crítica: A pesquisa biográfica (noivado com Marília, participação na Inconfidência) e a discussão sobre a autoria das Cartas Chilenas (hoje atribuída a ele pelos críticos mais autorizados) ocupam grande parte da bibliografia.
B. Romantismo
Carpeaux propõe uma reclassificação do Romantismo, substituindo a tradicional divisão em “gerações” por uma distinção baseada em três grupos estilísticos:
- Pré-Romantismo e Romantismo “Trivial”: Categoria para os iniciadores que “se arrependeram, voltando aos modelos clássicos” (Gonçalves de Magalhães, Araújo Porto Alegre) e para a literatura de gosto popular (Teixeira e Sousa, Joaquim Manuel de Macedo, Martins Pena).
- Romantismo Nacional e Popular: Inclui Gonçalves Dias e José de Alencar, além de romancistas regionalistas como Bernardo Guimarães e Apolinário Porto Alegre.
- Romantismo Individualista: Agrupa poetas marcados pelo “egotismo” e pela influência de Byron e Musset, como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela.
- Romantismo Liberal: Caracterizado por “poetas públicos” influenciados por Victor Hugo. Inclui os “condoreiros” Pedro Luís e Castro Alves, além do precursor abolicionista Luís Gama e do “representante mais nobre do romantismo político no Brasil”, Joaquim Nabuco.
Exemplo de “Fortuna”: José de Alencar
- Posição Histórica: Ocupa na prosa uma posição semelhante à de Gonçalves Dias na poesia. A discussão “Alencar versus Machado de Assis” corresponde à de “Gonçalves Dias versus Castro Alves”.
- Recepção: O êxito maior e mais duradouro veio com seus romances históricos nacionais (O Guarani, Iracema). Seus romances de costumes são vistos como uma transição para a época de Machado de Assis. A crítica inicial de Machado foi altamente elogiosa, enquanto Franklin Távora liderou um “ataque rancoroso”. A obra de Araripe Júnior de 1882 é considerada “talvez o melhor estudo que até hoje se escreveu sobre Alencar”.
C. Movimentos Antirromânticos: Realismo e Naturalismo
- Realismo: Carpeaux admite usar o termo em um “sentido artificialmente alargado” para agrupar autores muito diferentes, mas que representam uma reação ao Romantismo. Inclui:
- Manuel António de Almeida: Um “estranha figura de precursor em pleno romantismo”, redescoberto pelos modernistas como o “primeiro e talvez maior romancista urbano do Brasil”.
- Visconde de Taunay e Franklin Távora: O primeiro, um idealista com descrições realistas; o segundo, um precursor do naturalismo.
- Machado de Assis: O maior expoente, cuja segunda fase define o movimento.
- Outros: Tavares Bastos (realismo político) e Capistrano de Abreu (realismo historiográfico).
- Naturalismo: Visto como um estilo e uma mentalidade, com a “Escola de Recife” (Tobias Barreto e Sílvio Romero) como seu centro irradiador de convicções científicas e sociais.
- Principais Representantes: Aluísio Azevedo (“o representante principal do naturalismo no Brasil”), Inglês de Sousa (“o primeiro naturalista brasileiro”), Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Olympio e Papi Júnior.
D. Parnasianismo e Neoparnasianismo
- Repercussão: O movimento poético de maior impacto no Brasil no final do século XIX e início do XX.
- Parnasianismo em Prosa: Carpeaux classifica como parnasianos prosadores com grande “preocupação tipicamente parnasiana do estilo”, como Coelho Neto, Xavier Marques e Ruy Barbosa.
- A Tríade Poética: Os grandes poetas do movimento são Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac, com Vicente de Carvalho ganhando reconhecimento póstumo como um igual.
- Neoparnasianismo: Um “fenômeno particular da literatura brasileira”, onde o movimento sobreviveu por muito mais tempo do que em outros lugares, devido ao fracasso do Simbolismo no país.
E. Outras Classificações Notáveis
- Impressionistas e Outros Inconformados: Uma categoria criada como “solução precária” para agrupar “outsiders” que resistem à classificação, como Raul Pompeia (O Ateneu é um “romance impressionista”), Araripe Júnior (crítica impressionista) e Euclydes da Cunha.
- Simbolismo: Um movimento que “fracassou no Brasil”. Seus maiores poetas, Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, “não conseguiram impôr-se, sucumbindo a ambientes hostis”. Carpeaux sugere que Augusto dos Anjos, embora “inclassificável”, poderia encerrar o capítulo sobre o Simbolismo.
- Pré-Modernismo: Termo de Tristão de Athayde para autores entre 1910-1920 que, em oposição ao Parnasianismo, apresentaram “nova visão da realidade brasileira”, mas sem os “gestos revolucionários” do Modernismo. Inclui regionalistas (Monteiro Lobato, Affonso Arinos), escritores urbanos (Lima Barreto) e pensadores (Paulo Prado, Alberto Torres).
- Modernismo e Pós-Modernismo: O livro estrutura o movimento em grupos distintos: o grupo de São Paulo (Mário de Andrade, Oswald de Andrade), o grupo espiritualista/católico (Jackson de Figueiredo, Tasso da Silveira), o modernismo mineiro (Drummond, Murilo Mendes) e o movimento do Nordeste (José Américo, Jorge de Lima, Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, Raquel de Queiroz). O Pós-Modernismo é apresentado como um campo ainda em formação, resistente a classificações definitivas.

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