2026 – Abordagem inicial do Choque

 

 

Aula ilustrada

Podcast

 

ARTIGO DE REVISÃO:

Estado de Choque e sua Abordagem Inicial na Terapia Intensiva

Resumo: O estado de choque, ou choque circulatório, é uma síndrome caracterizada por insuficiência circulatória aguda, resultando em um desequilíbrio entre a oferta e o consumo de oxigênio pelas células. Este artigo revisa a fisiopatologia do choque, seus estágios evolutivos, a classificação etiológica e os princípios fundamentais do manejo clínico inicial, essenciais para a formação médica e de enfermagem.

1. Introdução

Historicamente associado apenas a pacientes em estado crítico com hipotensão grave, o conceito de choque evoluiu. Hoje, define-se o choque como uma síndrome de insuficiência circulatória aguda na qual a oferta de oxigênio e nutrientes aos tecidos se torna insuficiente para atender às demandas metabólicas, levando à disfunção celular. Em unidades de terapia intensiva (UTI), é uma das condições clínicas mais frequentes, exigindo identificação precoce e intervenção imediata.

2. Fisiopatologia e o Drama Celular

O choque afeta todos os sistemas orgânicos devido, principalmente, a alterações na microcirculação. Quando há hipoperfusão tecidual, as células são privadas de oxigênio e passam a gerar energia através da respiração anaeróbia. Esse processo resulta na produção excessiva de ácido lático, tornando o meio intracelular ácido em relação ao extracelular. Consequentemente, há deslocamento de líquidos para dentro da célula, causando edema celular, perda de função, lesões e, eventualmente, morte celular.

Diante do desequilíbrio e da hipoperfusão, o sistema neuroendócrino ativa mecanismos compensatórios para manter a pressão arterial (PA), como a ativação do sistema nervoso simpático (liberação de catecolaminas, que causam vasoconstrição e aumento da frequência cardíaca) e do sistema renina-angiotensina-aldosterona (que retém sódio e água).

3. Estágios do Choque

O quadro clínico do choque é progressivo e pode ser dividido em três estágios:

  • Estágio Compensado: Os mecanismos fisiológicos mantêm a pressão arterial normal. A vasoconstrição redireciona o sangue da pele, rins e sistema digestório para órgãos vitais (cérebro e coração). O paciente apresenta pele fria e pálida, e redução do débito urinário.
  • Estágio Descompensado: Os mecanismos compensatórios falham e surge a hipotensão clássica (pressão sistólica < 90 mmHg). O paciente apresenta deterioração do estado mental, aumento da permeabilidade capilar (edema), sobrecarga e isquemia cardíaca, além do acúmulo severo de ácido lático.
  • Estágio Irreversível (Refratário): A hipotensão não responde mais ao uso de drogas vasoativas. Ocorre falência de múltiplos órgãos, acidose severa, esgotamento das reservas de energia (ATP) e, invariavelmente, evolução para o óbito.

4. Classificação Etiológica

O choque é classicamente dividido em quatro tipos, baseando-se em sua fisiopatologia:

  1. Choque Hipovolêmico: Desencadeado pela redução drástica do volume intravascular devido a hemorragias, desidratação grave ou perda de plasma (ex: grandes queimaduras). Ocorre diminuição do retorno venoso (pré-carga) e do débito cardíaco.
  2. Choque Cardiogênico: Resulta da falha da bomba cardíaca, tornando-a incapaz de gerar débito cardíaco adequado. Ocorre frequentemente no Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) e leva a sintomas de congestão e hipoperfusão.
  3. Choque Distributivo: Caracterizado por vasodilatação sistêmica intensa, onde a função cardíaca e o volume de sangue estão preservados, mas o tônus vascular é inadequado. Subdivide-se em choque séptico, anafilático e neurogênico. É o choque mais grave e com maiores taxas de mortalidade.
  4. Choque Obstrutivo: Ocorre pela diminuição do débito cardíaco por uma barreira mecânica ao fluxo sanguíneo. As principais causas são o Tamponamento Cardíaco, Pneumotórax Hipertensivo e Tromboembolismo Pulmonar (TEP) maciço.

5. Abordagem Inicial e Manejo Clínico

O tratamento do choque deve sempre ser direcionado à sua etiologia específica (ex: desobstrução de artéria no IAM ou drenagem de tórax no pneumotórax). Porém, medidas universais de suporte vital são fundamentais:

  • Avaliação Básica: Garantir via aérea pérvia, fornecer oxigênio suplementar e garantir acessos venosos periféricos ou centrais para exames e medicações.
  • Monitorização Hemodinâmica: É vital acompanhar parâmetros como Pressão Venosa Central (PVC), débito urinário, lactato arterial (meta < 2 mmol/L), oximetria venosa (SvO2) e balanço hídrico rigoroso.
  • Reposição Volêmica: Para restaurar a perfusão, inicia-se com infusão rápida de soluções cristaloides (como Soro Fisiológico 0,9% ou Ringer Lactato), com reavaliações contínuas da resposta do paciente. Em casos de hemorragia grave, a transfusão de hemocomponentes é indicada.
  • Drogas Vasoativas: Utilizadas quando o paciente permanece hipotenso mesmo após a reposição volêmica adequada.
    • Vasopressores: A Noradrenalina é a droga de primeira linha (especialmente em choques séptico e cardiogênico), elevando a pressão arterial por meio de vasoconstrição. Pode ser associada à Vasopressina em choques refratários.
    • Inotrópicos: A Dobutamina é utilizada para melhorar o desempenho ventricular e aumentar a contratilidade miocárdica (inotropismo), auxiliando o débito cardíaco sem aumentar excessivamente o consumo de oxigênio. Devem ser administrados preferencialmente por acesso venoso central em bomba de infusão contínua.

6. Conclusão

O manejo do estado de choque é um dos maiores desafios para os profissionais que atuam na terapia intensiva. A compreensão profunda dos mecanismos de hipoperfusão celular e a rápida classificação etiológica permitem que as equipes médicas e de enfermagem instituam tratamentos de suporte vital e farmacológicos precoces, prevenindo o avanço para a disfunção orgânica irreversível e aumentando as chances de sobrevida do paciente crítico.

InfograficoChoque

 

Referências 
  • AZEVEDO, L. C. P. de et al. Medicina intensiva: abordagem prática. 4. ed. Barueri: Manole, 2020.
  • HINKLE, J. L.; CHEEVER, K. H. Brunner & Suddarth: tratado de enfermagem médico-cirúrgica. 14. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020.
  • MOURAO-JUNIOR, C. A.; SOUZA, L. S. de. Fisiopatologia do Choque. Hu Revista, Juiz de Fora, v. 40, n. 12, p. 73-78, jan.-jun. 2014.
  • MURAKAMI, B. M.; SANTOS, E. R. dos. Enfermagem em terapia intensiva. 2. ed. Barueri: Manole, 2017.
  • LeDoux D, Astiz ME, Carpat CM. Effects of perfusion pressure on tissue perfusion in septic shock. Crit Care Med 2000; 28:2729-32.
  • Michard F, Teboul Jl. Predicting fluid responsiveness in ICU patiens. Chest 2002; 121:2000-8.
  • Rivers E, Nguyen B, Havztad S et al. Early goal-directed therapy in the treatment of severe sepsis and septic shock. NEJM 2001; 345:1368-77.
  • Matos EP. Protocolos da unidade de emergência/Hospital São Rafael. 10. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2002. p. 21.
  • Marino PL. Distúrbios do fluxo circulatório. Compêndio de UTI. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas Sul. 1999. pp. 177-202.
  • Hollenberg SM, Kavinsky CJ, Parrillo JE. Cardiogenic Shock. Ann Intern Med 1999;131:47-59.
  • Knobel E. Choque Cardiogênico. Arq Bras Cardiol 1999; 72:405-13.
  • Manna HJ, Nolan PE. Update on the management of cardiogenic shock. Curr Opin Crit Care 2006; 12:431-6.
  • Holmes CL. Vasoactive drugs in the intensive care unit. Curr Opin Crit Care 2005; 11:413-7.
  • Dellinger RP, Carlet JM, Masur H et al. Surviving Sepsis Campaign guidelines for management of severe sepsis and septic shock. Crit Care Med 2004; 32:858-73.
Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 824 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*