A obra “A Ética da Redistribuição”, de Bertrand de Jouvenel, apresenta uma crítica aprofundada e multifacetada das políticas de redistribuição de renda, focando-se primariamente em suas implicações éticas, sociais e políticas, em vez de se limitar aos seus efeitos econômicos. O argumento central de Jouvenel é que a redistribuição, embora frequentemente justificada por nobres ideais de justiça social e alívio da pobreza, resulta invariavelmente em uma massiva centralização de poder nas mãos do Estado. Este processo corrói a liberdade individual, a responsabilidade pessoal e as fundações da sociedade civil, como a família e as atividades voluntárias.
Jouvenel argumenta que a lógica financeira por trás da redistribuição radical é falha; os excedentes confiscados das classes mais ricas são insuficientes para elevar significativamente o padrão de vida das mais pobres. Consequentemente, o processo exige uma tributação pesada sobre a classe média, destruindo estilos de vida e atividades culturais que são vitais para a civilização. O resultado final não é uma genuína equalização de resultados, mas sim uma “redistribuição do poder do indivíduo para o estado”. Este fenômeno leva ao surgimento de uma “Nova Classe Dirigente” de burocratas e administradores estatais que se tornam os principais beneficiários do sistema, utilizando a retórica igualitária para legitimar sua expansão de poder.
Análise Detalhada
1. A Crítica Central: Para Além dos Efeitos Econômicos
A análise de Jouvenel distingue-se por transcender o debate convencional sobre os “efeitos de desincentivo” da tributação. A sua preocupação principal reside no impacto da redistribuição sobre a liberdade individual, a vida cultural e a estrutura da sociedade. Para esclarecer seu objeto de estudo, ele estabelece distinções cruciais entre o redistributivismo e outras doutrinas aparentemente similares.
| Doutrina | Objetivo Principal | Método | Resultado Esperado |
| Igualitarismo Agrário | Equiparar um recurso produtivo (a terra). | Divisão de lotes iguais de terra. | Recompensas desiguais, mas justas, proporcionais ao trabalho de cada um. |
| Socialismo (Ideal) | Criar uma nova ordem de “amor fraterno”, eliminando os antagonismos sociais. | Abolição da propriedade privada. | O definhamento do Estado como poder coercitivo e o fim dos conflitos de classe. |
| Redistributivismo Moderno | Mitigar a pobreza e reduzir a desigualdade de renda. | Ação estatal através de tributação progressiva e serviços sociais. | Aumento do poder e das funções do Estado, com centralização de recursos e decisões. |
Jouvenel aponta uma “contradição interna” no socialismo: ele adere à veneração da sociedade moderna por bens materiais e consumo crescente, ao mesmo tempo que repudia os motores do interesse pessoal que impulsionam essa produção. O redistributivismo, por sua vez, é visto como uma versão degradada do ideal socialista, focada apenas na equalização do consumo.
2. A Lógica e a Prática do Redistributivismo
O movimento redistributivista moderno funde duas convicções distintas:
- A necessidade de eliminar a pobreza, transferindo recursos excedentes dos mais ricos para os mais necessitados.
- A crença de que a desigualdade de renda é, em si mesma, uma injustiça que deve ser corrigida.
Essa fusão leva à ideia de estabelecer um “piso” (piso) de renda, abaixo do qual ninguém deveria cair, e um “teto” (teto), acima do qual ninguém deveria ascender. No entanto, Jouvenel demonstra a falácia da “harmonia financeira” — a crença de que os recursos retirados de quem está “acima do teto” são suficientes para cobrir o déficit de quem está “abaixo do piso”.
- A Insuficiência dos Excedentes: Cálculos, mesmo que aproximados, mostram que para alcançar um piso de renda modesto, o teto precisaria ser fixado em um nível extremamente baixo (ex: £500 líquidos, nos cálculos do apêndice), afetando não apenas os “ricos”, mas profundamente a classe média, profissionais, intelectuais e artistas.
- A Natureza da Redistribuição Real: Na prática, a redistribuição é mais “oblíqua” do que “vertical”. É “muito mais uma translação horizontal de rendas do que uma descida vertical”. O poder de compra redistribuído vem em grande parte das mesmas camadas sociais que o recebem, com o Estado atuando como o grande intermediário e beneficiário.
Como observa José Osvaldo de Meira Penna na apresentação da edição brasileira, citando Trotsky: “aquele a quem está afeta a redistribuição jamais se esquecerá de si próprio…”
3. A Desconstrução das Justificativas Utilitárias
A justificativa intelectual para a redistribuição frequentemente se baseia na teoria da utilidade marginal decrescente, ou seja, na ideia de que uma unidade de renda proporciona mais satisfação a uma pessoa pobre do que a uma rica. Jouvenel critica severamente essa abordagem, conhecida como “felicific calculus”:
- Impossibilidade de Comparação: É impossível medir e comparar as satisfações de diferentes pessoas com uma unidade comum. Tentar fazê-lo é uma tarefa sem fundamento científico.
- Discriminação Contra as Minorias: Em uma sociedade de rendas equalizadas, a demanda seria ditada puramente por números. Bens e serviços desejados por minorias se tornariam proibitivamente caros ou deixariam de existir, pois os recursos produtivos seriam alocados para satisfazer os gostos da maioria. Isso penalizaria indivíduos com gostos e personalidades originais.
- Progresso e Desigualdade: Jouvenel salienta que, historicamente, “cada ampliação bem sucedida das oportunidades de consumo estava vinculada à distribuição desigual dos meios para consumir”. Novidades, que hoje são acessíveis a muitos, começaram como artigos de luxo para poucos.
4. As Consequências Não Intencionais para a Sociedade
A busca pela equalização radical da renda, mesmo que não afete a produção total, provocaria uma profunda e destrutiva realocação de atividades sociais.
- Destruição de Atividades Culturais e Intelectuais: A produção de bens de “primeira qualidade”, artísticos e intelectuais, seria a primeira a desaparecer por falta de mercado. Jouvenel questiona: “Rothschild pode perder seu iate, mas deve bergson ser privado dos confortos que lhe permitem realizar sua obra filosófica?”. O patrocínio privado das artes e da pesquisa seria extinto.
- Erosão da Responsabilidade Pessoal e da Família: Ao transferir para o Estado a responsabilidade por saúde, educação e bem-estar, a redistribuição enfraquece o papel do indivíduo e da família. A família, como “empresa” que “produz pessoas”, é fiscalmente desprivilegiada em comparação com as empresas comerciais, que podem deduzir seus “custos operacionais”.
- Eliminação dos Serviços Voluntários: A civilização depende de inúmeras atividades não remuneradas (hospitalidade, conselho amigo, engajamento cívico). A alta tributação e a mentalidade estatalista eliminam a margem de tempo e recursos para tais serviços, levando à “comercialização de valores”, onde tudo o que tem valor precisa ser pago.
5. O Efeito Primordial: A Centralização do Poder no Estado
Para Jouvenel, a consequência mais profunda e inevitável da redistribuição é o fortalecimento e a centralização do poder estatal. A redistribuição e a centralização são fenômenos que se reforçam mutuamente.
- O Estado Assume Novas Funções: Quando o Estado confisca rendas elevadas, ele é forçado a assumir as funções que antes eram desempenhadas por indivíduos com meios independentes, tais como:
- Poupança e investimento.
- Sustento de atividades culturais, artísticas e intelectuais.
- Formação e manutenção de elites profissionais e sociais.
- A Redistribuição Legitima a Expansão do Estado: O crescimento dos gastos públicos e da tributação torna-se politicamente palatável para a maioria quando atrelado a medidas redistributivas. A solidariedade dos contribuintes contra o avanço do Estado é quebrada ao se criar uma distinção entre uma minoria que paga e uma maioria que, supostamente, se beneficia.
Esta análise culmina na conclusão mais incisiva da obra:
“quanto mais consideramos a questão, tanto mais claramente se evidencia que a redistribuição (da fortuna) é, de fato, muito menos uma redistribuição da renda livre dos mais ricos para os mais pobres, como imaginávamos, do que uma redistribuição do poder do indivíduo para o estado”.
Este processo resulta na “demolição da classe que desfruta de ‘meios independentes'” e na ascensão de uma “Nova Classe Dirigente” — o que os russos chamavam de Nomenklatura — composta por funcionários e administradores públicos que concentram o poder em suas mãos.
6. A Psicologia da Desigualdade e a Motivação Real
Jouvenel conclui com uma reflexão sobre a natureza da inveja e da tolerância à desigualdade. Ele argumenta que as pessoas não se revoltam contra a desigualdade per se. Pelo contrário, elas frequentemente celebram e recompensam generosamente aqueles que consideram excelentes, como astros de cinema, artistas ou campeões esportivos.
- Ressentimento Seletivo: A hostilidade é dirigida a um conjunto específico de “desiguais” — a classe burguesa e empresarial — cujas realizações não são facilmente compreendidas ou apreciadas pelo público e cujo estilo de vida é privado, em vez de um “espetáculo galante”.
- Troca de Elites: Isso sugere que a demanda por igualdade pode ser, em grande medida, “um movimento inconsciente de troca de elites”, em vez de uma aspiração genuína por uma sociedade sem distinções. O ideal igualitário é, assim, utilizado como uma ferramenta para substituir uma elite por outra.

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