5 Ideias Radicais de um Filósofo Esquecido que Vão Mudar Como Você Vê a Sociedade

Se você sente uma mistura de frustração, esgotamento e desesperança com o ciclo interminável da política atual, saiba que não está sozinho. A cada eleição, parece que trocamos os atores, mas o roteiro permanece o mesmo: promessas grandiosas, resultados decepcionantes e a sensação de que as verdadeiras soluções para os problemas da sociedade estão sempre fora de alcance, perdidas em meio a disputas de poder e interesses obscuros.

Às vezes, as respostas mais relevantes para as crises do presente não estão nos discursos inflamados de hoje, mas no silêncio de textos filosóficos que o tempo esqueceu. É o caso de “O Problema Social”, um livro denso e provocador do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, publicado em 1962. Sua obra é uma fusão rara: uma defesa libertária da ação direta, fundamentada não no caos, mas em uma profunda tradição filosófica e ética. Para ele, as ideologias não são verdades eternas, mas produtos de seu tempo, moldadas pela tecnologia de cada era — um conceito que ele divide em fases como a paleotécnica (a era do carvão e do vapor) e a neotécnica (a era da eletricidade e da descentralização).

Este artigo desvenda cinco de suas ideias mais contraintuitivas, não como uma simples lista, mas como um argumento em três atos. Primeiro, faremos o diagnóstico do problema, mostrando por que a política convencional é uma armadilha. Em seguida, analisaremos sua crítica demolidora ao marxismo como uma solução ultrapassada. Por fim, exploraremos a alternativa que ele propõe: um caminho surpreendente para construir uma sociedade mais justa, aqui e agora.

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1. A Política Não é a Solução — É a Armadilha

Para Mário Ferreira dos Santos, a política, como a conhecemos, é um método fundamentalmente falho para a emancipação social. Ele não se opõe à ação coletiva, mas à instituição específica da “política”, cuja única finalidade é a conquista e manutenção do poder estatal. Quando movimentos de transformação adotam essa ferramenta, caem em uma armadilha fatal: o meio — a busca pelo poder — inevitavelmente se torna mais importante que o fim, substituindo o ideal original pela obsessão de controlar o aparelho do Estado.

Essa busca pelo poder através de meios políticos é uma ferramenta burguesa, projetada para gerar inércia, burocracia e lentidão. O ambiente parlamentar, com seus acordos e adiamentos, serve como uma “ducha de água fria” no calor dos movimentos populares. Aos poucos, a energia que buscava a transformação se desgasta na teia de leis criadas para proteger os interesses dominantes. Em vez de um motor de mudança, a política se torna um obstáculo que neutraliza a verdadeira “ação” transformadora, que deveria vir diretamente das organizações populares.

Isso nos força a uma pergunta incômoda: e se todo o esforço, paixão e dinheiro que investimos em ciclos eleitorais estivessem, na verdade, sendo canalizados para um sistema projetado para nos neutralizar? A visão de Santos sugere que o problema não está em quem elegemos, mas no próprio sistema, que seria projetado não para facilitar, mas para corromper qualquer movimento verdadeiramente transformador que tente usá-lo.

Querer chamar de política essa acção, é falsear o seu sentido verdadeiro e prático. Política é uma arte inter­ mediária, de métodos intermediários e indirectos, com a finalidade de obter o poder e de conservá-lo. Querer dar–Ihe um conceito puro e científico, é apenas separá-la da realidade prática, da praxis.

2. A Elite Adora Partidos Operários (e o Motivo é Chocante)

Uma das ideias mais chocantes do livro é que a burguesia inteligente não teme os partidos operários; pelo contrário, ela os vê como seus “melhores aliados”. Longe de serem uma ameaça, esses partidos tornam-se uma válvula de escape essencial para a manutenção do status quo. Eles canalizam toda a energia revolucionária e o desejo de rebeldia das massas para campanhas eleitorais, um esforço gigantesco que, no fim, se revela inofensivo para a estrutura de poder.

O autor descreve as campanhas políticas como “adoráveis dormideiras” e um verdadeiro “ópio das multidões”. Elas dão às massas a doce ilusão de que estão construindo um futuro melhor ao depositar um pedaço de papel em uma urna. Essa participação eleitoral cria a sensação de progresso, mas, na prática, apenas adia indefinidamente a verdadeira transformação social, mantendo o proletariado ocupado em um ciclo de esperança e desilusão que nunca ameaça de fato os pilares do sistema.

A provocação aqui é imensa. Se a participação política partidária, tantas vezes vista como um dever cívico e uma ferramenta de luta, fosse, na verdade, um sofisticado mecanismo de controle social? A energia que poderia ser usada para construir alternativas reais é desviada para uma luta interna ao sistema, beneficiando justamente a manutenção da ordem vigente. Se a política partidária é uma armadilha, muitos se voltaram para o marxismo como a grande alternativa. No entanto, Ferreira dos Santos via essa doutrina não como uma solução atemporal, mas como um produto de uma era específica e já superada.

A burguesia sabe que os partidos operários são o seu melhor aliado, o aliado silencioso, o aliado indirecto. Com suas agitações eleitorais, eles dão vazão às forças do proletariado, aos desejos de rebeldia do proletariado. É uma forma de desviar esses impulsos, tão perigosos, para fins muito mais interessantes aos senhores do mun­ do.

3. O Estopim das Revoluções Não é a Fome, mas a Indignação Moral

Em uma crítica direta ao materialismo histórico marxista, Mário Ferreira dos Santos propõe uma distinção crucial. As condições materiais, como a pobreza e a exploração, são “causas predisponentes” — elas preparam o terreno. No entanto, o verdadeiro gatilho das grandes transformações, as “causas emergentes”, é de natureza ética: a indignação moral. Esta ideia não é um mero sentimentalismo, mas parte de sua “ética libertária”, que ele ancora em uma base biológica, no fenômeno da “incitação” — a capacidade de um ser vivo ser impulsionado a atos que superam a força do estímulo inicial.

Segundo o autor, um estudo atento da história revela que os povos são levados a atos decisivos não apenas pela fome, mas pelo sentimento de ultraje provocado por escândalos, traições ou pela vida imoral das elites. É a percepção de uma profunda injustiça, de uma quebra de dignidade, que incita as pessoas à luta. Ele ilustra seu ponto com exemplos como o caso do “colar da rainha”, que expôs a vida dissoluta da corte e ajudou a inflamar a Revolução Francesa, e a traição dos chefes militares, que foi o estopim para a Comuna de Paris.

Essa ideia resgata o papel da ética e da dignidade humana como forças motrizes da história. Ela sugere que as explicações puramente econômicas dos conflitos sociais são insuficientes, pois ignoram um dos impulsos mais poderosos do ser humano: a revolta contra a humilhação e a busca por justiça, que muitas vezes supera a simples necessidade material.

Se bem estudada a História, verifica-se facilmente que os momentos de indignação moral levam os oprimi­ dos a gestos mais decisivos que as simples razões de or­ dem puramente material.

4. O Marxismo Foi uma Doutrina para a Era do Carvão e do Vapor

Posicionado o marxismo como uma filosofia perfeitamente adaptada à era paleotécnica — um período de grandes indústrias, exploração brutal, cidades sujas e extrema centralização do capital —, Ferreira dos Santos argumenta que sua relevância se esgota com o fim dessa fase. Com o avanço para a neotécnica — marcada pela eletricidade, que permite a descentralização da indústria, e pela melhoria das condições de vida —, a doutrina marxista se torna obsoleta, pois suas análises e previsões, baseadas na realidade da era do carvão, simplesmente não se aplicam mais.

O ponto mais agudo de sua crítica é a simbiose que descreve entre o “capitalismo paleotécnico” e o “bolchevismo”. Para ele, são dois lados da mesma moeda ultrapassada, obcecados pela centralização, pela produção em massa e pela redução do ser humano a uma engrenagem na máquina. Um é a imagem espelhada do outro: o individualismo extremado do primeiro gerou, como reação, a destruição extremada do individualismo no segundo. Ambos são filhos da mesma lógica de controle, presos a um mundo que já não existe.

Essa perspectiva nos convida a uma reflexão poderosa sobre a natureza das ideologias. Em vez de vê-las como verdades eternas, talvez devêssemos entendê-las como produtos de seu tempo, profundamente moldadas pela tecnologia de sua época. À medida que a sociedade evolui, teorias que antes pareciam revolucionárias podem perder sua relevância. Se a política é uma armadilha e o marxismo um anacronismo, que caminho resta?

É natural que ante as injustiças do capitalismo pa-leotécnico e de suas formas de exploração, os olhos de muitos se volvam para a Rússia, onde julgam dar-se uma experiência socialista. Como o capitalismo paleotécnico é totalmente vertido para um individualismo extremado, a reacção correspondente tinha de tomar a forma de uma destruição extremada do individualismo. Nessas condi­ ções, a primeira forma viciosa encontrou pela frente ou­ tra forma viciosa. Capitalismo paleotécnico e bolchevis­ mo são consanguíneos, nascem e vivem numa simbiose impressionante, em que um se alimenta do que outro dejecta.

5. A Verdadeira Revolução é Silenciosa e Começa com a Cooperação, Não com o Estado

Após criticar as vias políticas e as ideologias centralizadoras, o autor apresenta sua alternativa: uma revolução silenciosa, construída de baixo para cima através de ações práticas e comunitárias. Em vez de esperar por um governo salvador, a verdadeira transformação ocorre quando os indivíduos se organizam livremente para resolver seus próprios problemas. Essa é a essência da “ação direta” através do que ele chama de “cooperacionismo”.

Essa abordagem propõe a criação de cooperativas de consumo e produção, associações de ajuda mútua e outras formas de gestão direta e popular que não dependem da tomada do poder estatal. Essa prática não apenas resolve problemas imediatos, mas também fortalece a responsabilidade, a dignidade e a capacidade criadora de cada indivíduo. O “socialismo de Estado”, por outro lado, é visto como a pior forma de tirania, pois concentra todo o poder econômico e político em um único patrão todo-poderoso, aniquilando a liberdade.

Esta visão oferece um caminho para a mudança que é ao mesmo tempo radical e extremamente prático. Ela desloca o foco da grande política para o poder da comunidade. Sugere que a transformação mais profunda não virá de delegar nosso poder a representantes, mas de assumirmos a responsabilidade coletiva e começarmos a construir, por nós mesmos, as estruturas de uma nova sociedade.

Todos têm e devem ter responsabilidade nos negó­ cios públicos, e é mister acabar com essa mentira que a única acção política do cidadão é pôr o seu voto na urna, e delegar os seus poderes a um indivíduo qualquer, que nem sempre está à altura do cargo que vai ocupar, e que muitas vezes, ou quase sempre, é o primeiro a trair em acto as suas palavras.

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Conclusão: A Grande Decisão

As ideias de Mário Ferreira dos Santos nos forçam a uma reavaliação fundamental. Vimos sua análise de como a política partidária se torna uma armadilha, sua crítica ao marxismo como uma doutrina presa ao passado tecnológico e, finalmente, sua proposta de uma transformação social que reside não na tomada do Estado, mas na cooperação direta entre as pessoas.

O autor encerra sua obra falando de uma “Grande Decisão” que cada indivíduo e a coletividade precisam tomar: continuar no ciclo de frustração, esperando que o poder resolva os problemas que ele mesmo cria, ou escolher um novo caminho. Fica, então, uma pergunta provocativa, inspirada em sua filosofia: e se a mudança mais radical que pudéssemos fazer não fosse eleger novas pessoas, mas sim começar a construir um novo mundo, aqui e agora, através de nossas próprias ações cooperativas?

Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 822 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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