2026 Sistema Nervoso Aula 18 sistema nervoso simpático

O Sistema Nervoso Simpático

1. Introdução: O Acelerador do Nosso Corpo

O Sistema Nervoso Simpático (SNS) é uma das duas divisões do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), a rede mestra responsável por comandar as funções que não controlamos conscientemente, como os batimentos cardíacos e a pressão arterial. A função principal do SNS é facilmente compreendida pela analogia da resposta de “luta ou fuga” (fight or flight). Ele é o sistema que prepara e mobiliza o corpo para lidar com situações de estresse, perigo, esforço físico intenso ou emoções fortes, colocando-nos em estado de alerta máximo.

Uma característica fundamental de sua arquitetura é ser um sistema de dois neurônios: um neurônio pré-ganglionar, cujo corpo celular está no sistema nervoso central, envia seu sinal para um neurônio pós-ganglionar, localizado em um gânglio fora do SNC. É este segundo neurônio que finalmente leva a mensagem aos órgãos-alvo. Para entender como o SNS orquestra uma resposta tão poderosa e generalizada, precisamos primeiro conhecer a origem e a jornada desses sinais.

2. A Origem do Sinal: A Divisão “Toracolombar”

O Sistema Nervoso Simpático possui um apelido que revela sua origem anatômica precisa: a “divisão toracolombar”. Isso se deve ao fato de que os corpos celulares de todos os seus primeiros neurônios (os pré-ganglionares) estão localizados exclusivamente em uma região específica da medula espinhal: na coluna intermédio-lateral da substância cinzenta, entre os segmentos T1 (primeira vértebra torácica) e L2 (segunda vértebra lombar).

Por que isso é importante? É impressionante pensar que toda a vasta rede de controle simpático para o corpo inteiro — da pupila dos olhos às glândulas de suor nos pés — se origina em apenas 14 segmentos medulares. Essa origem centralizada implica que o sistema precisa de uma rede de distribuição extremamente eficiente para espalhar seus sinais por todo o organismo. Mas como esses sinais, partindo de um local tão restrito, conseguem alcançar cada canto do corpo?

3. A Jornada do Sinal: Um Caminho com Múltiplas Rotas

A jornada do sinal simpático é complexa e cheia de rotas estratégicas, garantindo que a resposta seja rápida e direcionada onde for necessário.

3.1. O Primeiro Neurônio (Pré-ganglionar): As 3 Rotas Possíveis

O axônio do neurônio pré-ganglionar sai da medula espinhal e entra no nervo espinhal correspondente. Quase imediatamente, ele pega um desvio para uma estrutura chamada cadeia simpática (ou tronco simpático) através do ramo comunicante branco. Este ramo é “branco” porque os axônios pré-ganglionares que o atravessam são mielinizados, o que acelera a condução do sinal. A cadeia simpática é como um “colar de contas”, uma série de gânglios interligados que correm verticalmente ao lado da coluna vertebral, da base do crânio até o cóccix.

Ao entrar na cadeia simpática, o axônio pré-ganglionar pode seguir um destes três destinos:

  1. Sinapse na Cadeia Simpática: Ele pode fazer sinapse (conexão) com um neurônio pós-ganglionar no gânglio do mesmo nível em que entrou. Alternativamente, e de forma crucial para a distribuição do sinal, ele pode subir ou descer dentro da cadeia para fazer sinapse em gânglios de níveis diferentes (cervicais, sacrais, etc.). Isso explica como um sinal originado no tórax pode afetar a cabeça ou a pelve.
  2. Atravessar a Cadeia para um Gânglio Colateral: O axônio pode passar direto pela cadeia simpática sem fazer sinapse. Ele então forma um nervo esplâncnico e viaja até um gânglio mais distante, localizado na frente da aorta abdominal. Esses são os gânglios colaterais (ou pré-vertebrais), como o gânglio celíaco, mesentérico superior e mesentérico inferior, onde a sinapse com o neurônio pós-ganglionar finalmente ocorre.
  3. Caminho Direto para a Suprarrenal: Em um caso muito especial, o axônio segue a rota 2, atravessando a cadeia simpática e passando por um gânglio colateral, mas sem fazer sinapse em nenhum deles. Seu destino final é a medula da glândula suprarrenal, onde ele se conecta diretamente com as células produtoras de hormônios.

3.2. O Segundo Neurônio (Pós-ganglionar): Chegando ao Destino

Após a sinapse, o segundo neurônio (pós-ganglionar) também utiliza diferentes estratégias para levar o sinal ao seu destino final.

  • De volta ao Nervo Espinhal: O axônio pós-ganglionar pode retornar ao nervo espinhal através do ramo comunicante cinzento. Em contraste com o ramo branco, este é “cinzento” porque os axônios pós-ganglionares que o atravessam geralmente não possuem mielina. Uma vez de volta ao nervo espinhal, ele viaja junto com outras fibras para inervar estruturas como vasos sanguíneos, glândulas sudoríparas e os pequenos músculos eretores dos pelos na pele e nos membros. É por meio dessa rota de retorno que o suor e o arrepio são controlados em nossos braços e pernas, mesmo que o sinal simpático original tenha partido da região torácica da medula.
  • Formando Plexos Nervosos: Os axônios podem se agrupar e formar redes complexas (plexos) que seguem o trajeto de artérias para alcançar seus alvos. É assim que os sinais chegam a estruturas na cabeça (para dilatar a pupila), no tórax (formando o plexo cardiopulmonar para o coração e pulmões) e na pelve (plexo hipogástrico).
  • Inervando as Vísceras Abdominais: Os neurônios localizados nos gânglios colaterais (celíaco, mesentéricos) enviam seus axônios para os órgãos do abdômen, como estômago, intestinos, fígado e pâncreas, geralmente seguindo os ramos das grandes artérias que irrigam essas estruturas.
  • O Caso Especial da Suprarrenal: As células da medula da glândula suprarrenal, chamadas de células cromafins, são consideradas neurônios pós-ganglionares modificados. Elas compartilham a mesma origem embrionária (a crista neural) que os neurônios pós-ganglionares, mas não possuem axônios. Em vez disso, quando estimuladas pelo neurônio pré-ganglionar, elas liberam hormônios (principalmente adrenalina e noradrenalina) diretamente na corrente sanguínea, gerando uma resposta simpática rápida, potente e generalizada.

Essa sofisticada estrutura anatômica permite uma comunicação precisa. Mas, exatamente, como esses neurônios se comunicam?

4. A Linguagem Química do Sistema Simpático

A comunicação entre os neurônios e entre neurônios e órgãos-alvo é feita por mensageiros químicos chamados neurotransmissores. No sistema simpático, a escolha do mensageiro e do receptor é fundamental para a função.

Local da SinapseNeurotransmissor LiberadoObservação Chave
1. Neurônio Pré-ganglionar → Neurônio Pós-ganglionarAcetilcolina (ACh)Atua em receptores nicotínicos no neurônio pós-ganglionar. Esta é a regra para todas as primeiras sinapses do sistema simpático.
2. Neurônio Pós-ganglionar → Órgão Alvo (Regra Geral)Norepinefrina (NE)Atua em receptores adrenérgicos (alfa e beta). A grande maioria das fibras simpáticas é “adrenérgica”.
3. Neurônio Pós-ganglionar → Glândulas SudoríparasAcetilcolina (ACh)Atua em receptores muscarínicos. Uma exceção crucial. Essas fibras são “simpáticas colinérgicas”.
4. Neurônio Pré-ganglionar → Medula SuprarrenalAcetilcolina (ACh)Estimula a liberação de hormônios: 80% Epinefrina (adrenalina) e 20% Norepinefrina na corrente sanguínea.

Agora que entendemos a estrutura e a química, podemos ver como tudo isso se traduz na famosa resposta de “luta ou fuga”.

5. A Função em Ação: Orquestrando a Resposta de “Luta ou Fuga”

A complexa anatomia e a química específica do SNS culminam em uma resposta fisiológica coordenada para preparar o corpo para a ação. Quando ativado, o sistema simpático produz os seguintes efeitos:

  • Coração: Acelera os batimentos e aumenta a força de contração para bombear mais sangue.
  • Pulmões: Dilata os brônquios para aumentar a captação de oxigênio.
  • Olhos: Dilata as pupilas para melhorar a visão e a percepção do ambiente.
  • Metabolismo: Estimula o fígado a liberar glicose na corrente sanguínea para fornecer energia rápida aos músculos e ao cérebro.
  • Vasos Sanguíneos: Redireciona o fluxo de sangue, contraindo os vasos da pele e do sistema digestivo para aumentar o fluxo para os músculos esqueléticos, coração e cérebro.

É importante notar que o SNS não está ativo apenas em emergências. Ele mantém um “tônus basal”, uma atividade constante de baixo nível que ajuda a regular funções vitais do dia a dia, como a manutenção da pressão arterial. Essa arquitetura neural e hormonal permite ao sistema uma notável capacidade dupla: uma combinação de alcance global e precisão local, ativando o corpo inteiro através da suprarrenal ou ajustando finamente a função de um único órgão através de uma via neural específica.

6. Conclusão: Por Que Este Sistema é Fundamental?

Entender o sistema nervoso simpático é crucial, pois seu desequilíbrio está no cerne de inúmeras condições clínicas, como hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, distúrbios de ansiedade e síndrome do pânico. Dominar seus fundamentos é o primeiro passo para compreender tanto a fisiopatologia — como as doenças acontecem — quanto a farmacologia — como os remédios funcionam.

Para memorizar, estes são os 3 pontos mais importantes:

  1. Origem e Função Central: O sistema simpático nasce na região toracolombar (T1-L2) e sua principal missão é preparar o corpo para a ação, na resposta de “luta ou fuga”.
  2. Estrutura de Rotas Múltiplas: Ele usa uma rede complexa com diferentes “estações” (cadeia simpática, gânglios colaterais) e uma “linha expressa” (a glândula suprarrenal) para alcançar o corpo todo de forma rápida e eficiente.
  3. Química Específica com Exceções: A comunicação geralmente envolve Acetilcolina na primeira sinapse e Norepinefrina na segunda, mas é vital lembrar das exceções importantes nas glândulas sudoríparas (Acetilcolina) e na suprarrenal (liberação de Adrenalina no sangue).

Artigo de Revisão: A Arquitetura Morfofuncional e a Neurotransmissão do Sistema Nervoso Simpático

1.0 Introdução ao Sistema Nervoso Simpático (SNS)

O Sistema Nervoso Autônomo (SNA) representa a complexa rede de comando responsável por governar as funções involuntárias essenciais à manutenção da vida, como a frequência cardíaca, a digestão e a pressão arterial. Este sistema opera em grande parte fora do nosso controle consciente e é classicamente dividido em duas divisões principais, que frequentemente atuam de maneira antagônica: a divisão simpática e a parassimpática. Este artigo foca-se na análise detalhada da divisão simpática, explorando sua organização anatômica, seus mecanismos de comunicação química e sua integração funcional no organismo.

Uma característica fundamental que distingue o SNA da divisão somática (responsável pelo controle motor voluntário) é sua estrutura de dois neurônios. O sinal autonômico origina-se em um neurônio pré-ganglionar, cujo corpo celular reside no Sistema Nervoso Central (SNC). Seu axônio projeta-se para a periferia, onde estabelece uma sinapse com um segundo neurônio, o pós-ganglionar, localizado dentro de um gânglio autonômico. É o axônio deste segundo neurônio que finalmente inerva o órgão alvo, seja ele músculo liso (presente nas paredes de vasos e vísceras), músculo cardíaco ou tecido glandular. Por essa razão, o SNA é frequentemente denominado sistema visceral, pois comanda diretamente a fisiologia dos nossos órgãos internos.

Para compreender plenamente a função do Sistema Nervoso Simpático, é imperativo primeiro dissecar sua arquitetura. A seguir, analisaremos sua origem anatômica específica, conhecida como divisão toracolombar, que constitui a base para sua capacidade de orquestrar respostas corporais amplas e coordenadas.

2.0 Organização Anatômica: A Divisão Toracolombar

Compreender a arquitetura anatômica do Sistema Nervoso Simpático é um passo estratégico para decifrar sua função. Sua origem centralizada, combinada com vias de distribuição altamente ramificadas e complexas, é o que permite que o sistema desencadeie uma resposta coordenada e generalizada em todo o organismo, mobilizando múltiplos sistemas simultaneamente em situações de estresse ou demanda fisiológica.

2.2 Origem Central dos Neurônios Pré-ganglionares

O SNS é conhecido como a divisão toracolombar do sistema autônomo. Esta nomenclatura deriva diretamente de sua origem anatômica precisa:

  • Os corpos celulares dos neurônios pré-ganglionares simpáticos localizam-se exclusivamente nos segmentos T1 a L2 da medula espinhal.
  • Dentro desses 14 segmentos medulares, esses neurônios estão situados em uma região específica da substância cinzenta, a coluna intermédio-lateral (também conhecida como corno intermédio-lateral).

Essa origem concentrada em apenas uma porção da medula espinhal contrasta com a distribuição ampla de seus efeitos por todo o corpo, um feito possível graças às vias de projeção que se seguem.

2.3 Trajeto e Destinos do Neurônio Pré-ganglionar

O axônio de um neurônio pré-ganglionar simpático inicia um trajeto bem definido. Ele deixa a medula espinhal através da raiz anterior (ventral), junta-se brevemente ao nervo espinhal e, quase imediatamente, desvia-se por meio de um feixe de fibras chamado ramo comunicante branco. Este ramo, mielinizado (daí sua cor branca), serve como uma ponte de acesso à cadeia simpática (ou tronco simpático). Esta é uma série bilateral de gânglios interconectados que se estende verticalmente, paralela à coluna vertebral, como um “colar de contas”, desde a base do crânio até o cóccix.

Ao entrar na cadeia simpática, o axônio pré-ganglionar pode seguir uma de três vias possíveis:

  1. Sinapse na Cadeia Simpática: O axônio pode fazer sinapse com um neurônio pós-ganglionar no gânglio do mesmo nível de entrada (entre T1 e L2). Alternativamente, e de forma crucial para a distribuição do sinal, ele pode ascender ou descender dentro da cadeia para fazer sinapse em gânglios de níveis superiores ou inferiores, permitindo que o sinal alcance gânglios correspondentes a qualquer um dos 31 níveis dos nervos espinais. Essa capacidade de viajar verticalmente na cadeia permite que os sinais originados na região toracolombar alcancem estruturas na cabeça, pescoço e pelve.
  2. Passagem para Gânglios Colaterais: O axônio pode atravessar a cadeia simpática sem fazer sinapse. Ele continua seu trajeto como parte de um nervo esplâncnico (um nervo visceral) e faz sinapse em um gânglio pré-vertebral (ou colateral). Esses gânglios, como o celíaco e os mesentéricos superior e inferior, estão localizados na cavidade abdominopélvica, geralmente próximos às grandes artérias que irrigam as vísceras.
  3. Via Direta para a Medula Suprarrenal: Em um caso especial, o axônio pré-ganglionar segue um caminho semelhante ao anterior — atravessando a cadeia simpática e passando por gânglios colaterais sem fazer sinapse — para inervar diretamente as células cromafins na medula da glândula suprarrenal.

2.4 Trajeto e Destinos do Neurônio Pós-ganglionar

Uma vez que a sinapse ocorre, o neurônio pós-ganglionar envia seu axônio para o órgão efetor final. Esses axônios também utilizam múltiplas rotas para garantir que o sinal simpático alcance praticamente todas as partes do corpo:

  1. Retorno ao Nervo Espinhal: Um axônio pós-ganglionar originado na cadeia simpática pode retornar ao nervo espinhal através do ramo comunicante cinzento. Diferente do ramo branco, o cinzento é composto por fibras não mielinizadas. Uma vez de volta ao nervo espinhal, essas fibras viajam com ele para inervar estruturas somáticas, como vasos sanguíneos da pele e músculos, músculos eretores do pelo (causando o arrepio) e glândulas sudoríparas na parede corporal e nos membros.
  2. Formação de Plexos Nervosos: Axônios pós-ganglionares, especialmente dos gânglios cervicais e torácicos, podem formar redes nervosas complexas, ou plexos. Alguns seguem o trajeto de artérias para inervar estruturas na cabeça (controlando a dilatação da pupila, por exemplo), enquanto outros formam plexos viscerais diretos, como o plexo cardiopulmonar (para coração e pulmões) e o plexo hipogástrico (para vísceras pélvicas como a bexiga).
  3. Inervação das Vísceras Abdominopélvicas: Os neurônios pós-ganglionares localizados nos gânglios colaterais (celíaco, mesentéricos) enviam seus axônios para inervar as vísceras do abdome e da pelve, como o estômago, intestinos, fígado e rins. Geralmente, esses axônios acompanham os ramos das grandes artérias que irrigam esses órgãos.
  4. Liberação Hormonal pela Suprarrenal: As células da medula suprarrenal são, funcional e embriologicamente, neurônios pós-ganglionares modificados que perderam seus axônios. Elas compartilham a mesma origem embrionária dos neurônios simpáticos, a crista neural, o que explica sua função análoga. Quando estimuladas, elas não enviam um sinal neural, mas liberam hormônios (principalmente epinefrina e norepinefrina) diretamente na corrente sanguínea, que os distribui por todo o corpo, gerando uma resposta sistêmica ampla e sustentada.

Esta sofisticada arquitetura anatômica permite ao sistema simpático uma combinação de alcance global e precisão local. É a base física sobre a qual a comunicação química opera para produzir efeitos fisiológicos, um tópico que exploraremos a seguir.

3.0 Neurotransmissão Simpática: A Linguagem Química da Ação

A neurotransmissão é o mecanismo que traduz os impulsos elétricos que viajam ao longo dos axônios em respostas fisiológicas específicas nos tecidos-alvo. A precisão dessa linguagem química, baseada na especificidade dos neurotransmissores liberados e dos receptores que os detectam, é o que permite a modulação fina da resposta simpática, garantindo que o sinal certo produza o efeito desejado no local correto.

3.2 A Sinapse Pré-ganglionar

A comunicação na primeira etapa da via simpática é notavelmente consistente. Na sinapse entre o neurônio pré-ganglionar e o neurônio pós-ganglionar — seja ela na cadeia simpática ou em um gânglio colateral —, o neurotransmissor liberado é sempre a acetilcolina (ACh). A ACh atua sobre receptores nicotínicos localizados na membrana do neurônio pós-ganglionar, desencadeando sua despolarização.

3.3 A Sinapse Pós-ganglionar e Suas Exceções

Na grande maioria das sinapses entre o neurônio pós-ganglionar e o órgão efetor (a segunda e última etapa da via), o neurotransmissor liberado é a norepinefrina (NE), também conhecida como noradrenalina. A NE atua sobre receptores adrenérgicos (tipos alfa e beta) nos órgãos-alvo. Por esse motivo, a maioria das fibras simpáticas pós-ganglionares são classificadas como adrenérgicas.

Exceções Cruciais à Regra Adrenérgica

Existem duas exceções fisiologicamente importantes a essa regra geral, que demonstram a versatilidade do sistema:

  • Glândulas Sudoríparas: As fibras simpáticas pós-ganglionares que inervam as glândulas de suor são colinérgicas. Em vez de norepinefrina, elas liberam acetilcolina (ACh), que atua sobre receptores muscarínicos para estimular a sudorese, um mecanismo vital para a termorregulação.
  • Medula da Glândula Suprarrenal: Conforme já estabelecido, as células cromafins derivam da crista neural e funcionam como neurônios pós-ganglionares modificados. Elas são estimuladas pela acetilcolina (ACh) liberada pelos neurônios pré-ganglionares. Em resposta, liberam uma mistura de hormônios diretamente na corrente sanguínea, composta por aproximadamente 80% de epinefrina (adrenalina) e 20% de norepinefrina (noradrenalina). Essa liberação hormonal reforça e prolonga os efeitos da ativação simpática em todo o corpo.

Com a arquitetura anatômica e os mecanismos químicos estabelecidos, podemos agora integrar esses elementos para compreender o propósito funcional unificado do sistema: a orquestração da resposta de “luta ou fuga”.

4.0 Integração Funcional e Implicações Clínicas

A arquitetura anatômica divergente e a precisão neuroquímica do Sistema Nervoso Simpático convergem para um propósito primordial: orquestrar a resposta adaptativa do corpo a situações de estresse, perigo ou esforço intenso. Essa mobilização geral é classicamente conhecida como a resposta de “luta ou fuga”. Ao mesmo tempo, o desequilíbrio na atividade tônica deste sistema está na raiz de diversas patologias comuns, tornando seu estudo clinicamente essencial.

4.2 A Resposta de “Luta ou Fuga”

O propósito central do SNS é mobilizar os recursos do corpo para lidar com desafios agudos, colocando o organismo em um estado de alerta máximo e prontidão para a ação. Quando ativado em massa, o sistema simpático desencadeia uma cascata de mudanças fisiológicas projetadas para otimizar o desempenho físico e a sobrevivência.

As manifestações clássicas desta resposta incluem:

  • Aumento da frequência e da força de contração cardíaca, para bombear mais sangue oxigenado.
  • Respiração acelerada e profunda, resultante da dilatação dos brônquios para maximizar a captação de oxigênio.
  • Dilatação das pupilas, para aumentar o campo visual e a acuidade.
  • Redirecionamento do fluxo sanguíneo, que é desviado de sistemas não essenciais no momento (como o digestivo) e direcionado para os músculos esqueléticos, cérebro e coração.
  • Liberação de glicose pelo fígado, disponibilizando uma fonte rápida de energia para as células.

4.3 Relevância Clínica do Sistema Simpático

A atividade do SNS não se restringe a emergências. O sistema mantém um tônus basal, uma atividade constante de baixo nível que é fundamental para a regulação de funções diárias, como a manutenção da pressão arterial.

O desequilíbrio crônico ou agudo na atividade simpática está diretamente implicado em uma vasta gama de condições clínicas:

  • Hipertensão Arterial: Frequentemente associada a um aumento crônico e sustentado da atividade simpática, que leva à constrição dos vasos sanguíneos e ao aumento da força cardíaca.
  • Distúrbios de Ansiedade e Síndrome do Pânico: São caracterizados por ativações simpáticas exageradas e inapropriadas, gerando os sintomas físicos intensos de medo e alerta.
  • Insuficiência Cardíaca: Embora a ativação simpática inicial seja um mecanismo compensatório para ajudar o coração enfraquecido a bombear mais forte, a longo prazo, essa estimulação constante torna-se prejudicial ao músculo cardíaco.

O profundo conhecimento da fisiologia simpática é a base para intervenções farmacológicas cruciais. Medicamentos amplamente utilizados, como os betabloqueadores, atuam precisamente modulando a neurotransmissão da norepinefrina nos órgãos-alvo, como o coração, sendo pilares no tratamento da hipertensão, insuficiência cardíaca e ansiedade.

A compreensão integrada da forma e função deste sistema nos prepara para a síntese final de seu papel indispensável na saúde e na doença.

5.0 Conclusão: A Integração Morfofuncional do SNS

Este artigo de revisão detalhou a complexa arquitetura do Sistema Nervoso Simpático, um componente vital do sistema nervoso autônomo. Recapitulando seus pontos essenciais, vimos que o SNS tem sua origem concentrada na região toracolombar (T1-L2) da medula espinhal e utiliza uma estrutura de dois neurônios (pré e pós-ganglionar) para alcançar seus alvos. Suas vias de distribuição — ascendendo e descendendo na cadeia simpática, atravessando para gânglios colaterais ou inervando diretamente a medula suprarrenal — garantem uma influência corporal abrangente. A lógica da neurotransmissão, predominantemente baseada na acetilcolina na primeira sinapse e na norepinefrina na segunda, é refinada por exceções notáveis, como a inervação colinérgica das glândulas sudoríparas e a liberação hormonal de epinefrina pela suprarrenal, que são cruciais para a função do sistema na resposta de “luta ou fuga”.

A importância clínica do SNS é inegável. Do controle basal da pressão arterial à resposta aguda ao estresse, sua atividade permeia a fisiologia diária. Consequentemente, o domínio de sua anatomia e fisiologia é fundamental para a compreensão da fisiopatologia e da farmacologia de diversas doenças comuns, incluindo hipertensão, ansiedade e insuficiência cardíaca. O desenvolvimento de terapias eficazes, como os betabloqueadores, é um testemunho direto da aplicação desse conhecimento.

Infografico Sistema Autonomico Simpatico

Sobre Dario Santuchi MD,MSc Cardiologista 822 Artigos
-Médico Especialista em Clínica Médica e Cardiologia com Mestrado em Ciências da Saúde - Medicina & Biomedicina - Professor Universitário - Cadeira de Ciências Morfofuncionais aplicadas à Clínica na Universidade Anhanguera e UVV. - Diretor da Sociedade Brasileira de Cardiologia capitulo Espirito Santo 20/21. Membro da Equipe de Cardiologia do Hospital Rio Doce, Hospital Unimed Norte Capixaba e Hospital Linhares Medical center. CRM-ES 11491 RQE 10191 - RQE 13520

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